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AMORIS LAETITIA: a alegria no casamento

Ou sobre a grande, imensa, alegria do casamento




Bem, eu ainda não li o texto completo da Amoris Laetitia. Mas os trechos que li, a postura do Papa Francisco de maneira geral nos últimos anos e os comentários de alguns amigos me levaram a refletir sobre as razões que me levaram a me casar, lembrar as razões que me fizeram escolher esse caminho.

Caminho que há alguns anos atrás era tão estranho quanto é hoje para a maioria das pessoas (e não me refiro só a jovens e adolescentes). Afinal, o que faria dois jovens em pleno juízo, pelo menos assim achávamos, rs, escolher aguardar o casamento para viverem mais intimamente juntos e depois, sem muito dinheiro, escolher logo ter filhos. E agora, quase 7 anos depois, já são 3! Uma bela escadinha, rs.

É claro que nem tudo saiu como o planejado, mas, em linhas gerais, fomos mais do que atendidos até aqui nos objetivos que traçamos. Estamos mais felizes do que queríamos, ou achávamos possível alguns anos atrás. Não por que não tivemos dificuldades. Tivemos e temos muitas, mas as temos vencido todas juntos.

Não havia nenhuma pressão social para que agíssemos assim, pelo contrário, mesmo nos ambientes religiosos, não era incomum nos encontrarmos contra a corrente. Mas de maneira geral, as pessoas mais admiravam do que criticavam.

E essa discussão é particularmente importante no contexto atual, nas chamadas "cultural wars" pela mídia católica americana, em que se travam batalhas acerca da redefinição dos conceitos ligado ao casamento e à sexualidade humana.

Pensando sobre o assunto percebi que nenhuma regra me motivou a agir assim. O que me motivava era o amor que eu havia experimentado e o Cristo que havia encontrado. Diante de tanto amor, de tanta beleza, eu não conseguia conceber outra forma de me envolver com alguém, se não por uma entrega completa, radical, inteira.

Se não fosse assim, eu me sentiria covarde, traindo o amor que tinha visto e experimentado. E simplesmente não queria. Por que buscar o segundo melhor, quando o primeiro é tão superior e as outras opções nem lhe chegam aos pés em termos de felicidade e satisfação?

Acho que é comum as pessoas caírem em dois erros: o primeiro é imaginar que a felicidade consiste em não ter dificuldades. Pelo contrario, a felicidade consiste em vence-las com gosto, com alegria e com vigor!

O outro é não acreditar que seja possível. E acho que este seja o erro mais comum. As pessoas simplesmente não acreditam que seja possível que duas pessoas possam realmente se amar inteiramente, serem fiéis uma à outra e serem felizes. Mas podemos. Da maneira certa, podemos. E se não acreditarmos nisso, como poderíamos suportar as batalhas de cada dia, quem é que consegue sustentar uma guerra diária para no final das contas ter apenas uma felicidade possível, ou uma alegriazinha? Quem consegue se motivar dessa maneira? 

Não é de estranhar que, entre os que pensam assim muitos tombem pelo caminho.

Acredito ainda que há muito a ser dito ainda sobre o casamento. Há mistérios na Igreja que vão se revelando aos poucos, vejamos o dogma da Imaculada Conceição, por exemplo. A Igreja o intuía muitos séculos antes, os franciscanos já falavam abertamente dele pelos anos 1200, mas a Igreja só o proclamou no começo século XIX, e pouco depois a própria Virgem Santíssima o confirmou.  Não seria assim com o casameto? Um mistério a ser revelado, e até purificado, pela crise que vivemos?

O casamento talvez seja o menos estudado dos 7 sacramentos. São Paulo diz que o casamento é imagem, sinal do amor entre Cristo e a Igreja, Cristo esposo da Igreja e esposo de cada alma como se fosse a única criatura do universo. Esposo da minha alma e de todos os que foram remidos pelas águas do batismo. 

Para além da geração de filhos e da segurança dos membros, a família é o sinal no tempo de um amor eterno e infinito, os esposos espelham a grandeza e a solicitude do amor Divino.

O casamento é ainda uma via de purificação e de expiação. Os esposos se purificam mutuamente de seus defeitos e suas fraquezas para assumirem a imagem de Cristo, até que já não sejamos nós que vivamos, mas Cristo que viva em nós. 

Eu me pergunto: se não fosse a minha esposa, eu não estaria atolado em um lamaçal de egoismozinhos e fraquezas? Com os filhos, quanta força encontrei em mim! Quanta coragem! São eles a minha força e a minha coragem. Sim, é claro que tenho meus defeitos, mas como sou melhor por causa deles!

Talvez algumas pessoas lendo este post achem que sou ingênuo. Ou que esteja mentindo. Obviamente não estou mentindo e à acusação de ingênuo, diria que não, mas que gostaria muito que eu fosse, na verdade, completamente inocente. Como alguém que deseja as coisas sem mancha e que não aceita comer um banquete misturado com lama, que penso que é como devemos desejar todas as coisas, inteiras. 

É verdade que nem sempre nossa vida segue assim um caminho reto, claro, na maioria dos casos é cheia de idas e vindas, com curvas, obstáculos, avanços e retrocessos, como os rios chineses, tortuosos antes de chegarem ao mar, como ouvi esses dias. Eu tenho muitas coisas de que já me arrependi amargamente. Mas o que seria do rio se desistisse de chegar ao mar? Ou deságua em um rio maior ou vai ao mar, mas é preciso ir em direção ao maior, ao mais perfeito. Não sejamos nós como o único rio do mundo que termina em um deserto.

O casamento bem vivido é caminho firme, é chão sólido, não é um equilíbrio numa corda bamba, se acreditarmos e nos confiarmos àquele que tem sabedoria para governar bem os corações.

Eu poderia escrever sobre técnicas de gerenciar conflitos, tolerar uma vida medíocre ou aceitar eternas fraquezas. E isso não quer dizer que não as tenhamos. Ou poderia escrever sobre regras morais. Mas seria mentira. O que me faz feliz não é nenhuma dessas coisas, apesar da importância que também têm. 

É um levantar sempre na direção dAquele que me ama, e pode governar meu coração. 

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CONSULTORIA ESTIMA QUE VICENTINOS ECONOMIZAM 11 MILHÕES E LIBRAS AO ANO PARA OS COFRES BRITÂNICOS


Um relatório muito interessante sobre uma das maiores obras sociais da Igreja


Uma consultoria em economia realizou recentemente um trabalho muito interessante sobre o impacto dos vicentinos no Reino Unido. O trabalho foi realizado gratuitamente pela empresa Oxera, como parte de suas atividades de responsabilidade social.

A Sociedade São Vicente de Paulo (SVP) realiza cerca de 500 mil visitas a pessoas em vulnerabilidade social ao ano, contanto com uma rede de 10.000 voluntários no Reino Unido.

O trabalho dos voluntários consiste basicamente em visitas a idosos, deficientes físicos e mentais, refugiado e pessoas em vulnerabilidade em geral, como as que se encontram em situação de pobreza.

Basicamente realizam visitas regulares para verificar condições de saúde, necessidades básicas não atendidas como alimentos e remédios, que eventualmente podem ser fornecidos e levam, evidentemente, consolo religioso àqueles que atravessam momentos difíceis. Além de simplesmente conversar com as pessoas e famílias visitadas.

Essas visitas podem ser realizadas em domicílios, prisões ou hospitais e são ainda organizadas atividades como sopas para moradores de rua, bazares e encontros de final de semana. Além de cursos de alfabetização, informática e aconselhamento para conseguir emprego.

O relatório da Oxera identificou que a SVP teve impacto estatisticamente significante em melhora da saúde mental, aumento da capacitação profissional, atendimento de necessidades básicas e aumento dos níveis de educação e emprego das pessoas e famílias visitadas.

Observando este impacto do ponto de vista da redução de custos para o sistema nacional de saúde, observou-se que este foi beneficiado por meio da melhoria da qualidade de vida dos beneficiários, melhorias no mercado de trabalho, redução dos custos de assistência social e redução dos custos com gastos médicos por parte do governo.

Bem, mas como quantificar esse impacto?

A ideia básica do relatório é a seguinte. Imagine que entre a população de idosos, 20% tenham depressão. Se a população visitada pela SVP não tem nenhum aspecto em particular que a faça destoar da população em geral, é esperado que entre eles também haja também 20% de pessoas com depressão.

Mas se depois de alguns anos de trabalho, as pessoas visitadas pela SVP apresentam, por exemplo, 15% de pessoas deprimidas, pode-se se perguntar se estes 5% a menos de pessoas deprimidas se devem ao trabalho da SVP.

O segundo passo é quantificar esses 5% de “ganho” gerado pela SVP para sociedade. Uma taxa menor de pessoas deprimidas significa menor utilização dos sistemas de saúde e de assistência social. Sabendo-se o custo médio por pessoa atendida por esses órgãos, chega-se ao valor economizado.

O relatório segue, em linhas gerais e tendo em vista muitos limites metodológicos o que é o estado da arte em economia aplicada. E fez uma conta conservadora (ou seja, provavelmente o impacto é maior do que isso) de que a SVP economiza aos cofres britânicos 11 milhões de libras esterlinas anualmente.

Se fizermos a conversão direta para o câmbio de hoje isso representa cerca de 62 milhões de reais. E para termos uma ideia desse impacto, no Brasil estimava-se que um posto de saúde custava entre 200 e 400 mil reais em 2009.

Desconsiderando-se o efeito da inflação, que não é desprezível e também o do câmbio, que teve uma grande variação nos últimos meses, podemos falar a grosso modo, lembrando que o objetivo aqui não é a precisão dos números, que os voluntários da SVP poderiam construir pelos menos 100 postos de saúde no Brasil ao ano com o dinheiro que eles economizam aos cofres britânicos.

Em 1833 foi criado o primeiro grupo de vicentinos por Frederico Ozanam, beatificado pelo Papa São João Paulo II em 1997, inspirado no modelo de vida de São Vicente de Paulo, padre católico, falecido em 1660.

São Vicente de Paulo destacou-se pelas inúmeras obras de caridade que realizou, foi feito prisioneiro dos turcos e escravizado, passou por vários “donos”, fugiu de volta à França onde nasceu, tornou-se responsável pelas esmolas da rainha e depois tutor do futuro rei. Responsável pelas obras de caridade do reino, fundou ainda diversas outras obras de caridade e contribuiu para a libertação de cerca de 1200 escravos das mãos dos turcos. Visitava diariamente os hospitais.

Tamanha foi sua fama que outro grande santo, São Francisco de Salles, dizia que São Vicente de Paulo era o padre mais santo daquele século.

Atualmente, os vicentinos estão presentes em 143 países e contam com cerca de 700.000 membros. Suas atividades são mantidas majoritariamente por doações individuais.


Relatório da Oxera:

Referência sobre custos de postos de saúde no Brasil:

A notícia foi originalmente postada no Catholic Herald

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ABORTO E A CRISE GERADA PELO ZIKA VÍRUS

E por que as mulheres não devem abortar



É importante notar o espaço desproporcional que a mídia oferece para as campanhas pró-aborto. 

O site da BBC Brasil apresentou a notícia a respeito da campanha da ONU para descriminalizar o aborto nos países vítimas do Zika Vírus como se a voz das mulheres brasileiras estivesse sendo finalmente ouvida. E até mesmo a Super Interessante há algum tempo lamentou que as regras para o aborto legal foram tornadas mais rígidas no Brasil. 

Parece não interessar que, no nosso país “democrático”, a maioria absoluta das pessoas seja contra o aborto. Ou que na última enquete da Revista época, 86,6% dos participantes tenham se manifestado contra o aborto em caso de Zika Viírus (1). 

As evidências contra o aborto são gritantes e a primeira delas é a inevitabilidade da morte de um bebê, o que o movimento pró-vida não tem deixado de apontar e denunciar sempre que tem a oportunidade.

Entretanto, as pessoas envolvidas em situação de aborto não raro se encontram vulneráveis e é disso que o movimento pró-aborto quer se aproveitar nessa crise gerada pelo Zika Vírus. 

Por que as mulheres abortam? E por que em um país de maioria absolutamente cristã o discurso pró-aborto ou ao menos uma grande tolerância ao tema, encontra ainda tanto espaço na mídia? 





Bem, sem entrar na discussão evidente sobre a inevitabilidade da morte de uma pessoa durante o aborto e sem recorrer demoradamente à trágica ironia que é resolver os problemas causados pelo Zika Vírus matando as suas vítimas, gostaria de explorar o assunto por ainda outro ângulo:

Entre os vários erros em que a defesa do aborto incorre, há dois pressupostos equivocados que eu gostaria de apontar:

O primeiro é que a nossa felicidade consiste na ausência de sofrimento e dor.

Assim, qualquer sofrimento, como criar um filho com graves problemas de saúde, ou a falta de condições financeiras, deve ser evitado, sempre que possível. Ou ainda que devemos evitar que crianças pobres se tornem criminosos e venham colocar a nossa vida em risco. E ainda o sofrimento que é poder vir a ser expulso, por incompreensão ou pelas novas necessidades da vida, do círculo dos amigos ou da família.

Estudar, ter uma carreira, amigos, casar se quiser e talvez ter filhos é assim o caminho natural da vida e da felicidade a que todos têm direito.

Mas há aí dois erros. O primeiro é acreditar que o último parágrafo é a felicidade. Há milhares, milhões de pessoas insatisfeitas, ou ao menos irrequietas, com essas coisas.

O segundo erro, implícito, é que é possível planejar assim nossa vida. Mas quem pode prever onde irá trabalhar, com quem irá se casar, os filhos que vai ter, a doença de que vai morrer e as diversas desilusões e mentiras que encontramos pelo caminho?

Conseguimos, quando muito, traçar grandes linhas. E tomar decisões no presente baseados na dor que sentiremos no futuro, é, no mínimo, impreciso. Pois o futuro é sempre incerto.

E a melhor maneira de nos prepararmos para a vida é saber que ela é assim, incerta. Como não sabemos o caminho que iremos trilhar, o mais sábio é nos armarmos por dentro para trilhar qualquer caminho. A felicidade é em grande medida uma batalha que travamos dentro de nós. E não com o que acontece ao longo do caminho.

Não quero diminuir ou desprezar a dor das mulheres nessa condição. E nem das que abortaram. Quero menos ainda condená-las. Só Deus sabe a dor que carregam por dentro. E tão pouco quero dizer que a solução reside em alguma forma de intimismo religioso ou algo do gênero, que basta um pensamento positivo.  

Mas que, e eis aqui uma das infinitas joias do Cristianismo, que o presente pode ser redimido, e que a dor e o sofrimento não têm a última palavra. É consolador saber que entre os ancestrais de Cristo havia adúlteros, um caso de incesto e pessoas desprezadas pela sua sociedade, às vezes injustamente (2). E que grandes homens da história nasceram nas situações mais adversas, soube recentemente da história do padroeiro de Glasgow na Escócia, que foi concebido em um estupro de guerra (3).

Não se trata de dizer que a dor e o sofrimento são irreais, mas que o bem que pode brotar deles é ainda mais forte.

Com relação às necessidades concretas das vítimas de microcefalia, acredito que o SUS pode perfeitamente, em parceria com organizações da sociedade civil, Igrejas e empresas, prover um sistema de acompanhamento especial para essas famílias.

E que a sociedade como um todo pode acolher essas famílias, livrá-las da dor e da vergonha que sentem por não corresponderem a fúteis padrões sociais e que podemos dizer para elas que o sofrimento delas é nosso também, que iremos atravessas juntos tudo isso, que vamos vencer e que seus filhos são nossos também, pois somos um só povo.

Alguém poderia dizer que as linhas acima são bem irreais, porque ninguém pensa assim. Bem, embora eu e algumas pessoas também pensemos assim, é verdade.  Mas este ideal é uma sociedade pela qual vale a pena lutar. Já uma sociedade cuja primeira opção é a morte das vítimas, não.




    (1) Embora seja discutível se a amostra é representativa, apesar dos 6.290 votantes (acesso em 08/02/2016) interessante notar que há, ao menos, uma grande parcela da população brasileira que é sistematicamente contra o aborto, há quem é dado pouco espaço nos grandes meios de comunicação. Link:http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/gravida-vitima-de-zika-deve-ter-direito-ao-aborto.html (2) Há uma série de controversas acerca da genealogia de Jesus, a respeito delas este link é interessante, embora eu faria algumas ressalvas ao texto: http://www.bibliaafundo.net/2013/08/o-incesto-nas-escrituras.html (3) São Mungo, para uma leitura rápida: https://en.wikipedia.org/wiki/Saint_Mungo







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CRIANÇAS E ATEÍSMO



Recebi de uns amigos o vídeo acima com este depoimento de uma menina de 8 anos sobre sua crença no ateísmo e a sua relação com a colegas, professores e a escola em geral. O vídeo teve muitas visualizações no Youtube e a menina é sem dúvida muito esperta e inteligente, além de muito simpática. Algumas pessoas podem ter recebido o vídeo com indiferença, ou mesmo tê-lo meio que desprezado por se tratar de uma criança, mas eu achei bastante interessante. 

Bem, eu levo a sério o depoimento dessa criança. Sabendo, é claro dos limites da idade e da influência que o seu meio exerce sobre ela, além é, claro, do fato de que ela não postou o vídeo sozinha e nem sabe ao certo como é que o vídeo se encaixa no movimento de que ela participa e  menos ainda como pode ser utilizado no debate cultural contemporâneo.

Mas eu levo a sério por também ter questões bem sérias já por volta dessa idade. Eu me afligia com a passagem do tempo e não acreditava no ensino religioso que recebia na época. Para ter uma ideia, eu cheguei a sentar de costas para o altar quando meus pais me levaram à Missa algumas vezes, em sinal de protesto, e com 10 anos eu me neguei a professar, conscientemente, "Creio na Santa Igreja Católica", na minha Primeira Comunhão. E para mim eram atos sérios, que praticava com consciência.

E tive ainda sérias questões sobre a relação entre as crianças e a religião que podem ser lidas aqui. E somente aos 13 anos, depois de uma forte experiência religiosa foi que me converti ao catolicismo. E com isso não pretendo realizar nenhuma forma de proselitismo barato, mas apenas apresentar um fato importante para o meu argumento.

Agora, o que vídeo dá entender sem dizer, what goes without saying, é a ideia de que há crianças sofrendo bullying dos colegas em várias escolas por serem ateias e de professores obrigando as crianças à oração. Bem, nada mais fora da realidade.

Nas últimas semanas estive procurando com minha esposa uma escola católica para nossa filha mais velha e foi difícil encontrar uma escola católica que, por mais estranho que possa parecer para quem não está familiarizado com a discussão, lecionasse ensino religioso católico. Não sei se os ateus e praticantes de outras religiões percebem esta dimensão do catolicismo contemporâneo. Quando vêm com essa discussão de fundamentalismo religioso, percebo que estamos em universos paralelos. E é preciso construir uma ponte, interestelar, que seja.

Na grande maioria das escolas católicas, a aula de ensino religioso é inter-religiosa, não-confessional e as aulas de catequese, em que se apresenta a fé católica, são fora do horário de aula para as crianças das famílias que assim desejarem. Mesmo em escolas com ensino religioso católico, crianças evangélicas, de outras religiões ou de religião nenhuma são admitidas e não são obrigadas a participar de todas as atividades, mesmo tendo escolhido livremente estudar em uma escola católica.

As escolas católicas têm tanto receio de impor ou apresentar subliminarmente a sua fé, que em certos círculos católicos discute-se se esse processo não nos levou ao excesso de perdermos nossa própria identidade. Há um intenso debate dentro da Igreja Católica se o diálogo com o mundo moderno ao longo do século XX não terminou por gerar uma “auto-secularização” católica.

E por mais importante que seja esse debate, aqui só quero apresentá-lo para dizer quão longe o movimento ateísta está da realidade ao falar, ou sugerir, a perseguição de crianças e adolescentes ateias nas escolas. É um completo absurdo. Absurdo nas escolas católicas, que são a maioria das escolas religiosas brasileiras.

Acredito que o diálogo, a tolerância e o respeito à diversidade (e diversidades de verdade, como entre os que não creem e os que creem, por exemplo) juntamente com o amor e a busca pela verdade, aquela que é única e nos faz todos humanos, pode ser o elo e o fio condutor da sociedade brasileira pós-moderna e plural que está emergindo em nossas metrópoles e deve avançar pelas próximas décadas.

E para que isso aconteça, é preciso que nos levemos a sério. Os ateus talvez não saibam quão a sério a Igreja Católica os toma. Os diálogos do Papa Bento XVI com Habermas e Paolo Flores d’Arcai e do Papa Francisco com Scalfari são ilustrativos nesse sentido. Mas também precisamos ser levados a sério.

Penso que as famílias podem se organizar em associações nas escolas públicas para que seus filhos recebam educação religiosa de acordo com suas crenças e valores. Ou que não recebam educação religiosa, mas outra coisa que julguem mais pertinente. E acho que isso é perfeitamente factível em parceria com igrejas, associações e movimentos sociais, podendo, inclusive, criar um ambiente propício para o diálogo. Pois que para que o diálogo aconteça é necessário que exista antes identidade e diversidade. Não há por que imaginar que afirmar nossa identidade seja uma forma de afronta.

Coincidentemente ou não, a UNESCO está por esses dias com vagas abertas para consultores em ensino religioso. Assim, parece que teremos em breve novos capítulos deste tema.

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Francisco, a Igreja e a mídia

Publicado originalmente em “O São Paulo”.

Quem lê na imprensa os comentários à atuação do Papa Francisco, como por ocasião da publicação da Laudato si’ ou de sua recente viagem pela América do Sul, encontra em muitos casos uma posição curiosa: “Falemos bem do Papa e mal da Igreja”. Críticos tradicionais da Igreja elogiam o Papa como se ele fosse um ponto totalmente fora da curva, como se dissessem: ESTE papa é bom, mas o resto da Igreja continua sem merecer consideração. 

É difícil falar do catolicismo, porque é falar de nossa infância, de nossos pais, de nossa história. Mesmo na sociedade brasileira, já bastante secularizada, diversos temas – como as demandas da comunidade LGBTI, a educação dos jovens ou os problemas de segurança pública – remetem, ainda que por oposição, ao Catolicismo. E a força com que parcelas da sociedade tentam se afastar do catolicismo reafirma paradoxalmente o quão fundamental ele é na formação e na visão de mundo dos brasileiros, o quanto nos influenciou e o quanto está impregnado em nós. 

Se cada um deseja ou não seguir esta fé é uma outra questão, mas interessa a toda a sociedade civil que o debate seja feito com honestidade. Pois, sejamos católicos ou não, o catolicismo é um dos fundamentos, talvez o principal, da formação do povo brasileiro. Compreender o Catolicismo de forma clara, sem reducionismos ou preconceitos, é compreender grande parte da própria gênese do nosso povo, de nossa cultura, é parte importante do conhecimento sobre nós mesmos. 

A mídia pouco fala nisso, mas um grande número de pessoas se converteu ao Catolicismo nas últimas décadas. Podem ser não católicos que se batizaram ou, mais frequentemente, batizados que descobriram sua fé. Aos poucos vão descobrindo a beleza e a riqueza humana e cultural da mensagem cristã. Descobrem que se houve conflitos com Galileu, o Padre Lamaître no início do século XX foi o precursor da Teoria do Big Bang, que Mendel, pai da genética era um monge, que a geologia teve importantes contribuições do Padre Nicolau Steno. Vão descobrindo catedrais e obras de arte feitas há séculos que as grandes multinacionais de hoje, mesmo com mais recursos e tecnologia, não conseguem imitar. Descobrem que no período colonial os missionários, tão acusados hoje em dia por sua atuação junto aos índios, foram seus grandes defensores, enquanto governos e pensadores “laicos” permitiam e justificavam sua escravização e a expropriação de suas terras. Descobrem que a Igreja vai muito além da tríade do mal, inquisição-cruzadas-venda de indulgências, repetida ad nauseam no ensino médio e, não raro, de forma rasa e descontextualizada. 

Não conhecendo a doutrina e a história do povo cristão em sua riqueza e sua humanidade, o mundo de hoje confunde os erros de alguns cristãos com os valores que iluminaram e humanizaram nossa sociedade. Como se a culpa do mensalão fosse dos valores democráticos e todos os que militam pela democracia fossem culpados pela corrupção. Papa Francisco não é uma estrela solitária em um céu escuro e sem brilho. É o fruto providencial de uma história tanto de mártires heroicos quanto de santos do cotidiano. Ele é um cristão que “segue a Igreja”, como ele mesmo disse aos jornalistas no voo de retorno da América do Sul.

Papa Francisco é o líder mundial mais respeitado da atualidade. Mas não há Papa Francisco sem toda a Igreja Católica, com toda a sua santidade e todo o seu pecado.

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As Dúvidas de Fé

Como me converti ao catolicismo à partir de uma experiência de dúvida e descrença,  me toca muito profundamente o debate que envolve a relação entre verdade, liberdade e fé. E por consequência as dúvidas de fé. 

Li há algum tempo uma história muito interessante e bela sobre o tema. 

Conta-se que certa vez ocorreu um fato mas ou menos assim (1): um cavaleiro de S. Luís estava atormentado por dúvidas de fé. Em diálogo com o santo rei, este lhe confidenciou que nunca teve semelhantes dúvidas e lhe contou uma bela parábola:

"Qual é a cidade mais importante da França?"  Perguntou o Rei. Ao que o cavaleiro prontamente respondeu se tratar da sede do reino. "Mas a sede do reino está bem guardada pelas suas muralhas, que raramente avistam um soldado inimigo...". "Já as cidades da fronteira estão sempre em batalhas e os cavaleiros que lá combatem são mais valorosos". 

"Deus saberá recompensar os seus cavaleiros mais valorosos". 

O santo rei fez uma interessante analogia entre as lutas dos reinos temporais com a do reino espiritual, surpreendentemente tratando o homem acabrunhado pelas dúvidas não como um covarde, mas como um valoroso combatente. 

Este rei do século XIII que a Igreja Católica venera como santo foi ainda célebre por criar o que talvez tenha sido a primeira reserva de animais da Europa (proibindo a caça), famoso ainda por sua doçura para com a esposa - chegando a escandalizar os jihadistas de seu tempo por pedir conselhos à sua esposa quando foi feito prisioneiro e ainda famoso por um precioso testamento que deixou a seu filho (2). Entre muitas outras coisas. 

(1) Conto a história de memória e a fonte não me está prontamente acessível, mas foi recolhida em uma das revistas do movimento Arautos do Evangelho. 
(2) http://cleofas.com.br/testamento-de-sao-luiz-rei-da-franca-a-seu-filho-2/

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O Papa aos Movimentos e Novas Comunidades: Frescor do Carisma e Unidade Eclesial

Por Marcos Gregório Borges*





Recentemente o Papa Francisco, acolhendo os participantes do III Congresso Mundial dos movimentos eclesiais e novas comunidades, que aconteceu em Roma, de 22 a 24 de novembro, proferiu um discurso breve, em que apontou alguns aspectos pastorais que devem permear a caminhada daqueles que estão inseridos nestas novas realidades, às quais, segundo o santo padre, caminham para uma fase de “maturidade eclesial”: Manter o frescor do carisma original, respeitar a liberdade das pessoas e buscar a comunhão eclesial.

Com este discurso, o santo padre quis apontar questões muito concretas que estão relacionadas com os desafios atuais que as novas comunidades enfrentam em sua caminhada. Francisco lembrou que a novidade trazida por elas não consiste tanto nos métodos e formas utilizados, mas antes “na disposição de responder com renovado entusiasmo ao chamado do Senhor”, entusiasmo sem o qual sequer estas novas realidades existiriam, como demonstram a história de suas fundações. Desta forma, não se pode, segundo Francisco, cair na tentação de fiar-se em “esquemas tranquilizadores, mas estéreis”.

Neste sentido de abertura ao novo, o santo padre apontou para outro grande desafio a ser enfrentado pelos movimentos e novas comunidades: A comunhão eclesial. No entanto, o papa não se ateve apenas a chamar a atenção das novas comunidades para o sempre necessário esforço de conversão pastoral em vista da unidade com a Igreja hierárquica, integrando plenamente a vida da comunidade dentro da vida da Igreja, mas abordou outro aspecto importante que decorre da unidade: A comunhão em vista de responder as questões mais sensíveis da sociedade de nosso tempo.

Segundo Francisco, “os movimentos e comunidades são chamados a trabalhar em conjunto para ajudar a curar as feridas causadas por uma mentalidade globalizada que coloca o consumo no centro, esquecendo-se de Deus e dos valores essenciais da existência”. Talvez aqui esteja um dos grandes desafios que as comunidades novas precisam enfrentar. Como um bom pastor, Francisco não apontou soluções prontas, mas apenas o caminho que considera adequado, na certeza de que os movimentos e comunidades novas, se forem capazes de manter o vigor próprio do carisma originário, possuem criatividade para responder a este desafio de forma nova.

Neste novo tempo, chamado pelo próprio Sumo Pontífice de “tempo de maturidade eclesial”, cada movimento e nova comunidade é convidado a uma experiência de abertura à diversidade de carismas, partilhando de seus dons com os demais e acolhendo a riqueza existente em cada realidade, em um caminho de autêntica e fecunda comunhão fraterna que possibilite o surgimento de novas e verdadeiras amizades.

Assim como cada carisma específico só pode desenvolver-se a partir da comunhão de um grupo mínimo de pessoas em torno de um objetivo em comum (ou seja, não basta existir o fundador se não existirem pessoas em comunhão com ele em torno daquele objetivo), não é possível a construção de iniciativas em comum, como nos aponta o papa, se não existir antes verdadeira comunhão entre os carismas, e esta não pode ser construída a partir de meras reuniões e iniciativas estratégicas, mas sim a partir de um verdadeiro caminho de amizade, do qual nasce a confiança necessária para trabalhar com o outro em torno de um objetivo em comum.


Desta forma, neste novo tempo, peçamos ao Espírito Santo que alargue os nossos corações, e nos dê a coragem para avançarmos para águas mais profundas, nas águas profundas da diversidade dos carismas existentes, sem medo de acolhermos o novo que Deus quer nos dar a partir do dom da unidade.

* Marcos Gregório Borges é filósofo, coordenador do movimento Veritatis Mater e do grupo Coração Novo para Um Mundo Novo, composto por 5 novas comunidades e movimentos presentes na cidade de São Paulo. 

Artigo publicado originalmente na edição n.º 3034 do Jornal O São Paulo, de 14 a 20 de janeiro de 2015, página 2, seção "Opinião".

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O insuportável humanismo de Bento XVI

Reproduzo abaixo excelente texto do Prof. Francisco Borba Ribeiro da PUC-SP publicado em  

Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro do conselho editorial da versão brasileira da revista Communio
Em 1944, Henri de Lubac, um dos intelectuais que, juntamente com o jovem Ratzinger, fundou a revista internacional Communio, escreveu O drama do humanismo ateu. Sua tese era de que o humanismo moderno, perdendo a referência em Deus e no seu amor, é incapaz de realizar a pessoa, levando à dramática desumanização da sociedade contemporânea. Além disso, o livro procurava valorizar as críticas que Feuerbach, Marx e Nietzsche, entre outros, faziam ao Cristianismo – mostrando que muitas delas eram válidas, porém se referiam a um Cristianismo descaracterizado, que perdera seu élan vital.
A trajetória do teólogo Rat­­zinger, papa Bento XVI, pode ser lida como um diálogo entre os fundamentos do Cristianismo e esse humanismo em crise, que ao longo da modernidade parece ir vencendo todas as batalhas que luta (direitos humanos, democracia, igualdade, liberdades individuais etc.), mas estar perdendo a guerra da construção de uma humanidade mais feliz. Mas peço atenção: as bases da postura de Ratzinger não são os “valores da tradição”, como muitos dizem, mas sim os “fundamentos da tradição”. Ele tem claro que os valores morais e sociais, privados de seu fundamento original, se tornam normas vazias que mais oprimem que valorizam a pessoa; por isso sua batalha não é pela defesa de valores esclerosados, mas por uma renovação a partir da crença de que na raiz de qualquer valor realmente humanizador está o reconhecimento do amor de Deus.
Então Bento XVI não foi um tradicionalista? Sem dúvida não; seu pretenso “moralismo” e “reacionarismo” é uma construção midiática, que não se sustenta em uma análise de seus escritos ou do conjunto de suas atitudes no papado. Um conservador? Se olharmos para o valor que dá à tradição da Igreja, sim. Mas quem ler Caritas in veritate, sua grande encíclica social, encontrará uma obra sintonizada com as demandas sociais da chamada “ala progressista” da Igreja. Dentro desse universo de caracterizações esquemáticas, talvez a melhor para ele seja a de “pós-moderno”.
As imagens mais frequentes que se tem das mudanças pelas quais a Igreja devia passar a partir do Concílio Vaticano II nasceram dos ideais da modernidade da metade do século 20, que já enfrentava a crise que gerou esse processo ambíguo e complexo que chamamos pós-modernidade. Bento XVI é o papa pós-moderno por excelência, que não procura criar uma Igreja que se molda aos valores da modernidade, mas que responde à destruição destes valores – realizada pelo próprio pensamento crítico moderno.
Em oposição aos pensadores ateus estudados por De Lubac, que construíram a grandeza e o drama do pensamento moderno, Bento XVI pode ser compreendido como um humanista religioso, que acredita que a ligação do ser humano com Deus é o vínculo de amor que é a condição necessária para encontrarmos nossa felicidade e realização. Porém, esse humanismo, nascido de um gesto de amor gratuito e de uma esperança sem limites, é quase insuportável para a cultura contemporânea. Corresponde de tal forma ao desejo mais profundo de cada um que chegamos a ter medo... Medo de nos entregarmos a essa promessa e descobrirmos depois que se trata de mais uma ilusão.
Quem não quer receber um amor que não pede nada em troca? Quem não quer ver a si próprio e a todos os que ama livres da sombra da morte? Quem não gostaria de saber que todas as vítimas de Auschwitz encontraram a paz e a justiça, que o mal que se abateu sobre elas não foi a última palavra? De saber que o futuro dos jovens mortos no incêndio da boate de Santa Maria não terminou abruptamente no horror, mas, pelo contrário, apenas se abriu, naquela noite fatídica, para a eternidade? O que uma jovem pobre, carregando dentro de si uma gravidez indesejada, prefere: poder tirar o filho que carrega em seu ventre, admitindo a desgraça e/ou o erro do que lhe aconteceu, ou ter a certeza de um amor que lhe permitirá ter esse filho e se realizar na vida, juntamente com essa criança, transformando a tragédia em esperança? O que corresponde mais ao desejo do sábio: descobrir com sua razão que a realidade é uma rede de causas e efeitos em última análise aleatórios, ou descobrir em cada fenômeno a beleza de um amor oculto, mas infinito?
Insuportável esperança, que parece negar a evidência de que nascemos marcados pela desgraça. Se acreditarmos nela, será muito mais doloroso voltarmos à desilusão da descrença, voltar a viver “sentados à sombra da morte”, inseguros em relação a cada afeto, sabendo que nenhum amor é para sempre! São essa esperança e a experiência de um amor impensável, mas realizado, que constroem o humanismo cristão proposto por Bento XVI. Ainda é cedo para uma avaliação adequada de seu papado, mas é inegável que ele, como poucos, recolocou o humanismo cristão na agenda cultural da sociedade contemporânea; que em seu papado o mistério de Deus se tornou provocação e escândalo para um mundo fechado em si mesmo.

O texto dispensa comentários. Diria apenas que como é triste ver tantas pessoas, mesmo dentro da Igreja, "católicos praticantes" que simplesmente são infelizes, ou meio infelizes (o que é bem diferente de ser "meio feliz",rs)  porque não acreditam na possibilidade de serem felizes! Mas o que seria "praticante'? Penso que praticante seria quem tem o firme propósito de amar, ou ao menos tentar com todas as forças, como Jesus amou. Quantos seriam os praticantes a partir deste critério?  Dizem que acreditam em Deus, mas não acreditam no perdão! Dizem que acreditam em Deus mas não acreditam na fidelidade! Dizem que acreditam em Deus mas não acreditam em um amor puro, sólido e fiel que vive para sempre! Nas Missas, nos encontros e nas celebrações são lágrimas, consolações, sentimentos, grandes argumentos filosóficos, mas aqui, dentro de casa, no trabalho, a coisa é diferente, aqui é o mundo real. Não!!!É preciso crer e viver pelo que se crê. Para ser feliz é preciso fazer força, toda força possível, afinal isto vale a nossa vida! Ninguém disse que é fácil, mas digo que vale a pena. E que sim, é possível. Com Deus.



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Igreja Católica, o Papa, a Páscoa e os Cristãos


Esta Páscoa e a unidade dos cristãos



Este ano a Quaresma começou mais cedo para os católicos. Passaremos parte dela em sede vacante, sem nosso pastor maior, no escuro da Quaresma à espera da Ressurreição do Senhor. Este é um período muito singular e que convida à profunda oração todos os cristãos.

Chiara Lubich dizia que a santidade é a capacidade de conciliar virtudes opostas. Eu vi homens extremamente firmes terem os maiores gestos de ternura, vi homens inteligentíssimos dizerem que não sabem e agora me surpreendo novamente, vendo um homem de uma tenacidade inacreditável reconhecer, humildemente, que lhe faltam as forças.

Sem dúvida que os sentimentos ainda são confusos neste momento e é necessário dar tempo ao tempo, mas é sem dúvida um ato de coragem. A história nos dirá qual foi o sacrifício feito pelo Papa.

Podemos pensar se Bento XVI não dá assim sequencia ao que João Paulo I iniciou ao aposentar a tiara pontifícia, sinal do poder papal e sinal também de contenda entre os cristãos, explicitando desta forma a essência do ministério petrino: o serviço à unidade da Igreja. A Cátedra de Pedro deve confirmar os irmãos na fé e guardá-los na unidade, e quão bem fez isto Bento XVI!

Num tempo em que muitos querem levar o pecado para o seio da Igreja, ele lembrou que Nosso Senhor morreu para nos livrar de nossos pecados, não para diviniza-los. E que só há verdadeira liberdade na verdade. A verdade nos libertará.

Soube conduzir para o coração da Igreja grupos proscritos desde o Concílio por conta de suas visões tidas como tradicionalistas pelos opositores ao mesmo tempo em que manteve e aprofundou as resoluções do Concílio Vaticano II dando-lhes um sadio direcionamento, mantendo diálogo fraterno com toda a Igreja. Soube aprofundar o mistério da Igreja sobre si mesma e ao mesmo tempo abrir seu coração para todos os que professam a fé em Cristo.

Que contradição aparente! É surpreendente que um Papa que prezou tanto pela ortodoxia, seja ao mesmo tempo um dos que mais contribuiu para a unidade dos cristãos (1).

Esta Páscoa será ainda marcada por outro fato extraordinário: este ano católicos e ortodoxos celebrarão a Páscoa no mesmo dia. Está em processo de autorização pela Santa Sé que este ano os católicos da Terra Santa celebrem a Páscoa na mesma data em que os ortodoxos (2).

Talvez muitas pessoas não percebam a importância deste gesto. Os católicos celebram a Páscoa em datas diferentes, que às vezes coincidem, desde 1582(3). Neste ano foi introduzido, por conta dos estudos astronômicos da época, o calendário gregoriano, que é o que utilizamos até hoje, na parte ocidental do mundo. Católicos e ortodoxos haviam se separado em 1054, assim a alteração da forma como se calcula a data da Páscoa acabou ocorrendo apenas na Igreja Católica Romana.

Para se ter  ideia da importância de se celebrar juntos a Festa da Páscoa, a maior dos Cristãos, é interessante conhecer Myrna Nazour, católica síria, casada com um católico ortodoxo, que tem feito um importante trabalho neste sentido(4).

Desde 1984 uma série de eventos marcou profundamente a vida de Myrna e de sua família. Naquele ano, o quadro que ela possuía em casa de Nossa Senhora de Kazan, uma devoção russa, e, portanto, da Igreja Católica Oriental ou Ortodoxa, começou a exsudar óleo e algumas pessoas enfermas obtiveram a cura depois de rezarem diante da imagem ou untarem-se com o óleo.

A casa de Myrna, uma família comum de pessoas até então pouco fervorosas na fé, se tornou então um centro de peregrinação e a imagem passou começou a ser conhecida como Nossa Senhora de Soufanieh, o bairro em que Myrna mora em Damasco. Dos diversos fenômenos que passaram a ocorrer desde então, destacam-se aparições da Virgem em que lhe pede, e pede a nós, a unidade da Festa da Páscoa. Em alguns dos anos em que a data da Festa coincidiu para católicos e ortodoxos ela foi agraciada com o dom dos estigmas.

Não há como sermos verdadeiramente cristãos e não nos entristecermos com a desunião entre nós e mesmo dentro das Igrejas. É profundamente enternecedor saber que Jesus quando já caminhava para sua morte pediu ao Pai exatamente nessa intenção: “que eles sejam um, assim como somos um, para que o mundo creia”(5). Será que Ele já pedia pelas dificuldades que enfrentaríamos ao longo da história?

E mais ainda, não pedia Ele por algo que não podemos alcançar por nós mesmos, mas que somente o Pai pode realizar?

Nesta Páscoa que será, com a Graça de Deus, celebrada em comum entre católicos e ortodoxos e ainda no conclave que se aproxima (6), temos novamente um chamado à unidade. Dentro da Igreja e entre os cristãos. É hora de abandonar as armas do pensamento superficial e das palavras vulgares e nos voltarmos humildemente para o próprio coração, assumir nossa condição de pecadores e pedirmos perdão. E nos colocarmos a serviço, não de nossos próprios caprichos, não dos nossos pecados e fraquezas, mas de Cristo e de sua Igreja.

E há grandes sinais de esperança. O dia da separação entre os católicos e os ortodoxos, 16 de julho, é o mesmo da Festa de Nossa Senhora do Carmo, festa de uma ordem religiosa que nasceu no oriente, na comunidade fundada pelo profeta Elias, e depois veio para o ocidente.

Maria já quis deixar seu selo, talvez afirmando que a vitória já foi conquistada, só nos é necessário seguir confiantes.

Há ainda experiências belíssimas como a Comunidade de Taizé (7), uma das maiores alegrias de minha adolescência. Em 2017 se celebrarão ainda os 500 anos da Reforma Protestante e será mais um tempo oportuno para refletirmos sobre a unidade da Igreja. O presidente da Federação Mundial das Igrejas Luteranas propôs à Igreja Católica um acordo sobre hospitalidade eucarística, como parte das celebrações de 2017(8).

A hospitalidade eucarística significa que católicos poderiam comungar em igrejas luteranas e vice-versa. Embora haja ainda inúmeros pontos teológicos para serem esclarecidos e este seja o começo de um longo diálogo, o gesto é sem dúvida animador.

Um dos grandes legados de Bento XVI é sabermos que a unidade entre os cristãos, a unidade dentro da Igreja e mesmo a unidade dentro do coração de cada homem e mulher é fruto não de acordos políticos ou de grandes ideologias, mas do mergulho na verdade que permeia e transcende todos nós, no encontro com Deus, verdade plena, alma de minha alma, diria Santo Agostinho.

Mas devemos olhar com coragem para a clareza dessa luz, encarando também nossas realidades mais sombrias, como o pecado e a dúvida, pois do contrário, não seria uma legitima busca da verdade, mas mero sentimentalismo e auto justificação.

Quanto mais nos aproximarmos de Cristo, mais nos aproximaremos entre nós. Quanto mais mergulharmos no conhecimento da Igreja, do qual todos os cristãos são herdeiros legítimos, aquela que precedeu a época das guerras e das desuniões, tanto mais todos nós estaremos unidos, ao redor da mesma mesa. E felizes.

E descobriremos, com o coração leve, que nunca deixamos, e nunca deixaremos, de ser uma só família.


(1)    Em que pesem considerações sobre a interpretação do Vaticano II na reportagem do Estadão, a respeito da relação de Bento XVI com o movimento ecumênico, temos:
(3)    Sobre a compreensão Ortodoxa a respeito da data da Páscoa
(4)    O site é de qualidade ruim, provavelmente por conta dos poucos recursos e falta de conhecimento sobre internet por parte de Myrna, peço que se dediquem a ler apenas seu conteúdo:
(5)    Jo 17,21
(6)    Bento XVI apenas anunciou sua abdicação, é improvável que não o faça, mas cabe aqui uma ressalva para a eventualidade de mudar sua posição.
(8) http://www.patheos.com/blogs/deaconsbench/2010/12/lutheran-leader-hopes-for-eucharistic-hospitality-with-catholics/

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CASAMENTO 2



Uma outra história que vale a pena ser contada

Durante seus estudos de medicina em Nagasaki, Takashi Nagai ficou hospedado na casa da família Moriyama. Esta família cultivava a fé desde o século XVII, no tempo dos mártires de Nagasaki. O testemunho silencioso da família Moriyama veio ao encontro das buscas interiores de Takashi que começava a descobrir o cristianismo depois de ler Pascal na universidade, quando já estava imerso no ateísmo. A convite da família ele participou de sua primeira Missa na Véspera do Natal de 1932.

Naquela noite, Midori, a filha única do casal Moriyama estava em casa e começou a sentir fortes dores. Takashi diagnosticou uma apendicite aguda e a levou em seus braços em meio a uma tempestade de neve até o hospital para ser operada às pressas. E esta foi a primeira de muitas vezes em que a vida de um esteve nas mãos do outro.

Desde que conheceu Takashi, Midori rezava por sua conversão. Em 1933, Takashi serviu o exército japonês como médico na guerra com a China e Midori lhe enviou um pacote que continha entre diversos itens de primeira necessidade alguns livros sobre a doutrina católica. Takashi voltou em junho de 1934 totalmente convertido à fé católica e quis fazer-se batizar, apesar da oposição de seu pai.

Tão terno vínculo de alma entre Takashi e Midori logo elevou-se a um laço de amor ainda mais íntimo e conforme a tradição japonesa de então o padre que batizou Takashi convidou seu padrinho para cumprir a função de nakodo, e organizar o casamento de ambos. Mas ainda havia um ponto que causava profunda preocupação em Takashi.

Takashi era médico radiologista e adotara a profissão por ideal. Naquela época, a operação de máquinas de raio X era extremamente arriscada e era comum que os profissionais da área morressem em poucos anos por conta da exposição aos raios gama. Para ele seu trabalho contribuía para o avanço da ciência e para que muitas vidas fossem salvas. Ainda que isto custasse sua própria vida. Mas ele precisava saber se Midori aceitaria.

Por meio do intermediário, Midori respondeu:

Será meu privilégio compartilhar do teu itinerário aonde quer que vá e aceitar qualquer coisa que passe em teu caminho.

Casados, Takashi e Midori tiveram situações difíceis. Os anos que se seguiram foram de crise econômica e o salário do médico não era suficiente para cobrir os gastos da família, a quem se juntara a viúva Moriyama e os dois filhos que vieram. Midori começou a costurar, plantar hortaliças e dar aulas de artes tradicionais japonesas, como arranjos florais, para ajudar na casa e garantir que seu marido se dedicasse inteiramente à pesquisa científica. Ela lia com entusiasmo todos os artigos que o marido publicava, mesmo quando não entendia bem alguns pontos.

Certo dia, depois de socorrer um paciente asmático, Takashi teve ele mesmo um ataque de asma e ficou caído na neve. Midori o acabou encontrando e ela mesma lhe aplicou uma injeção e o carregou para casa. E ela agora lhe devolvia o favor que lhe havia feito antes de se casarem.

Em junho de 1945, enquanto os EUA preparavam sua ofensiva final contra o Japão, Takashi recebeu a terrível e esperada notícia. Havia contraído leucemia e imaginava ter mais dois ou três anos de vida. Recebeu a notícia com serenidade, mas quando ficou a sós sua fé se abalou:

Senhor, tu sabes como sou fraco, não sei se poderei aguentar. Por que tão cedo Senhor? O que será de minha esposa e meus filhos? E o trabalho que deixarei sem terminar...(1)

Olhando para a máquina de raio X e vendo-a desgastada pelos anos de uso, esta mesma máquina que lhe ajudou a obter o doutorado, a salvar tantas vidas...sentiu paz. Ele também, como aquela velha máquina, havia se desgastado a serviço do próximo.

Mas como contar para Midori?

Chegando em casa, contou-lhe o ocorrido. Midori se levantou sem palavra, e ajoelhou-se aos pés do crucifixo que a sua família possuía há 250 anos. Takashi ajoelhou-se ao seu lado e notou que em silêncio ela se afogava em lágrimas. Depois, em paz, ela lhe disse:

Nós dissemos antes de nos casarmos e antes que você fosse pela segunda vez à guerra na China que se nossas vidas se gastam a serviço da glória de Deus, então a vida e a morte são belas. Você deu tudo que tinha para este trabalho e isto era muito importante. Foi para a glória dEle.

Takashi segurava suas lágrimas. Não por pena de si mesmo. Nem por compaixão por sua esposa e filhos. Mas lágrimas de gratidão. Gratidão por Midori. Naquele momento, narra ele em um dos seus livros, ele se sentiu diante do que é a santidade.

Quando ele retornou para o trabalho, se sentia como um homem novo, sem o menor receio ou culpa. Experimentava, diz ele, a liberdade que se sente quando se está fazendo a vontade de Deus. Ele tinha consciência de que sua morte provavelmente seria lenta e dolorosa, mas a certeza de que Midori estaria com ele, lhe cerraria os olhos e rezaria com ele em seus instantes finais lhe confortava.

Mas em agosto de 1945 o exército americano lançou panfletos sobre Nagasaki avisando sobre o ataque que se aproximava. Em 6 de agosto chegaram as notícias sobre Hiroshima. Takashi e Midori resolveram então enviar seus filhos para a casa em que a avó agora vivia, atrás das montanhas. No dia 8 de agosto, com os filhos em segurança, Takashi e Midori caminhavam juntos para o abrigo anti-aéreo. Ele se apoiava nela, já que a leucemia avançava. Conversavam sobre o que fariam para a Festa da Assunção de Maria que se aproximava e comentavam, rindo, de que como seria difícil para a avó cuidar dos netos sozinha...parece que enquanto estavam juntos é como se não houvesse guerra e nem dor.

Depois Takashi deixou Midori em casa e voltou para o hospital universitário em que trabalhava. Ele se recusou a ser dispensado de ficar de plantão para as emergências. No meio do caminho, lembrou -se de que havia esquecido algo. Ao chegar em casa surpreendeu Midori chorando descontroladamente, de joelhos. Ele nunca soube se ali a sós ela vivia sua própria fragilidade ou se antecipava de certa maneira o evento do dia seguinte.

No dia 9 de agosto por volta das 11h ocorreu o ataque nuclear a Nagasaki. Takashi estava em seu escritório e foi arremessado para debaixo de um monte de escombros. Depois de alguns minutos conseguiu locomover-se e, no meio da escuridão causada em pleno dia pela bomba atômica, tentava reagrupar os médicos para prestarem socorro às vítimas. Pouco podia ser feito, não sobrara praticamente nada do hospital e os feridos foram das dezenas às centenas em alguns minutos. Ele sabia que por ser conhecido por sua coragem e paciência era necessário permanecer ali para que os demais não se desesperassem e ao menos os pacientes pudessem morrer com alguma dignidade.

Somente 5h depois pôde se dirigir ao encontro de Midori. O bairro todo destruído. A catedral católica em cinzas. Midori havia morrido, certamente havia morrido... Por conta de uma hemorragia no peito, devido a um ferimento que sofreu na hora da explosão, Takashi desmaiou. Foi levado a um hospital e somente dois dias depois, quando o exército japonês já havia chegado e tomado conta da situação, pôde voltar até sua casa.

Chegando, encontrou um pequeno objeto negro, eram restos carbonizados, em que pouco se podia divisar: um crânio, a coluna vertebral e a pélvis. Midori. Era agora necessário dar-lhe um enterro digno.

Enquanto chorando recolhia os restos da esposa, pode notar, entre os restos carbonizados de sua mão direita, ainda que numa confusa massa fundida, o crucifixo e as contas do Rosário com que tantas vezes a tinha visto rezar. Midori morreu em oração.

Querido Deus, obrigado por ter-lhe permitido morrer rezando. Mãe das Dores, obrigado por ter estado com Midori na hora de sua morte. Ó bondoso Jesus, Nosso Salvador, Vós suastes sangue e carregaste vossa pesada cruz até o lugar de vossa crucifixão, e agora derramastes uma luz aprazível sobre o mistério do sofrimento e da morte: a de Midori e a minha também.

Depois de enterrar os restos de Midori, voltou para o lugar do que antes fora sua casa. Esgotado pela leucemia e pela hemorragia, desmaiou novamente. Acordou de madrugada e logo viu Vênus, a “estrela da manhã”, título que os cristãos dão à Virgem Maria por anteceder o verdadeiro sol, que é Jesus, e impelido interiormente, se pôs de joelhos e rezou o terço. Levantou-se fortalecido interiormente e pronto para fazer o que Deus quisesse antes que fosse a hora de cruzar a morte e reencontrar Midori.

Mas apenas um mês depois Takashi caiu doente por conta da radiação. A ferida no peito começou a apodrecer e a sangrar novamente, febres constantes de 40º C, inchaços por todo o corpo, palpitações e ele conhecia bem os sintomas que tratava todos os dias em seus pacientes. Entrava e saia do coma. Em um dos comas ouviu uma voz, que nenhum dos que o acompanhavam ouviu, que lhe dizia: “pede ao Padre Maximiliano Kolbe que ore por ti”. 

Takashi conheceu o Padre Kolbe durante a sua estadia no Japão. Àquela altura o Padre Kolbe já havia sido martirizado em um campo de concentração (2) mas Takashi não tinha como saber disso. Depois deste episódio a ferida no peito se fechou e ele recuperou a saúde até perdê-la novamente no ano seguinte, quando passou a ter que ficar acamado. Takashi Nagai viveu ainda 6 anos em que escreveu cerca de 12 livros sobre suas experiências, a guerra e a doença nuclear. Morreu jovem, aos 42 anos.
No epitáfio de Midori lê-se “eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra” e no dele “somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer”.

Takashi Nagai está em processo de beatificação, tendo sido declarado servo de Deus pela Igreja Católica.

(1) Segundo a autobiografia de Takashi Nagai  - Horobinu Mono Wo
      (2) Pode-se ler sobre o Padre Kolbe neste post:

O texto é baseado no trabalho de um padre das equipes de Nossa Senhora que atuou no Peru e nos EUA chamado "Matrimonios Santos: los santos casados como modelos de espiritualidad conyugal", com alguns exemplos de santos casados. O material chegou para mim sem a assinatura do padre, portanto não tenho o nome, mas posso enviar por email a quem desejar.


CONVITE:





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Legião Urbana, Jejum e Pecado


Subsídios para a quaresma

Eu penso que ficar procurando sentido em letras de música é um pouco como olhar desenho em nuvens. Cada um acaba achando o que quer e muitas vezes com mais propriedade que o autor, rs. Mas como minha irmã artista diz que o espetáculo vale pela impressão que ele nos causa, bem, aí segundo esse conceito posso falar do desenho que eu vi nas nuvens. Renato Russo não foi propriamente um exemplo de cristão, mas acho interessante ele ter em diversas músicas tocado em alguns temas profundamente católicos, a ponto de saber, inclusive, cantar o Cordeiro.

Não há como negar o impacto da Legião nos jovens da década de 80 e começo da década de 90 e mesmo ainda hoje, depois da morte de Renato Russo. Ele conseguiu ser a voz de uma juventude brasileira metropolitana que estava começando a se formar, conseguiu expressar bem seus dramas existenciais. E convenhamos, com bastante propriedade: “somos filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, geração Coca-Cola”. Pois é, o futuro chegou e Renato acertou.

Para mim, algumas letras tocam no ideal de leveza e simplicidade que tenho como profundamente cristãos: a alegria do convívio, a fidelidade, a cumplicidade. Cito por exemplo as letras de Descobrimento do Brasil, Giz, O Mundo Anda Tão Complicado e outras que no final reservam uma ideia de redenção como Perfeição. Claro, outras tantas não passam nem perto desses temas.

Já em Monte Castelo, o tema cristão é evidente, trata-se de Coríntios 13 cantado. Não se pode dizer que Renato Russo fosse católico – na verdade desconheço sua posição religiosa – e nem que ele cantasse como um cristão convicto. As músicas carregam muitas vezes um tom melancólico, bem distante da convicção serena e alegre dos que verdadeiramente creem. Mas tocam, ainda que na superfície, em importantes temas católicos.

De qualquer maneira, é interessante o fato de que os ideais cristãos estejam ali. Lembro-me de quando li o testemunho de Elizabeth Dodd, uma jovem wicka que se converteu recentemente ao catolicismo (1), ela mencionava que uma das coisas que atraiu sua curiosidade para o catolicismo era o fato de que em filmes de terror feitos em países não-católicos, os exorcistas ainda assim eram todos padres. Como se no imaginário coletivo, para se referir a uma luta entre o bem e o mau por excelência fosse necessário um demônio medieval e um padre paramentado.

E assim me chama a atenção o fato de temas católicos terem aparecido também em músicas populares. Os símbolos católicos e a história da Igreja, apesar de enormemente deturpada (o que não quer dizer que não existam graves erros dos católicos ao longo da história) ainda exerce uma forte influência cultural, mesmo que velada.

E há uma música em particular da Legião Urbana que gosto muito, Metal contra as Nuvens que acho que permite, com as reservas já colocadas acima, um paralelo entre a letra e um aspecto da vida na fé. Metal contra as Nuvens é pouco conhecida fora do círculo dos fãs da Legião, é muito longa, tem 11 minutos. Talvez valha a pena conferi-la aqui: http://www.youtube.com/watch?v=40A4fhCTSqs para poder acompanhar o resto deste post.

A música fala de um cavaleiro medieval cansado que foi enganado e se sente desiludido. A música começa com uma melodia melancólica, passa para um momento de ira em que o personagem se dirige com ódio àqueles que o traíram, depois há um momento de drama em que o personagem como que recupera sua energia para enfrentar novamente seus traidores e termina em um tom leve, alegre e esperançoso.

O que me atrai nesta música é o fato de poder, pelo menos penso assim – lembremos que aqui estamos falando do meu desenho nas nuvens – associá-la à ascese cristã, à luta contra o pecado, este mau, esta gravidade que sempre nos arrasta para baixo. E aqui é interessante pensar no pecado não tanto quanto crime, mas mais como enfermidade, doença. Um mau que se não for curado leva à nossa autodestruição e a destruição de nossos próximos.

O mau é um bem aparente já dizia Santo Agostinho e nosso primeiro ato quando pecamos é cair em uma profunda ilusão.

O filme “As Crônicas de Nárnia”, na verdade uma excelente catequese católica, mostra bem este ponto quando apresenta um dos personagens, Edmundo, traindo seus amigos em troca de um manjar que na verdade não passava de um pedaço de neve. De fato, o pecado, o mau, é apenas um pedaço de neve que se derrete ao sol, prazer passageiro que tomamos como se fosse um manjar.

E podemos fazer um paralelo que é bastante polêmico para a sociedade contemporânea, a relação entre sexo e pecado.  Não ignoro que muitas pessoas, mesmo vivendo fora da castidade e do casamento cristão caminham na direção de uma relação de entrega plena e de fidelidade, como uma espécie de “casamento de desejo”, para fazer um paralelo com o “batismo de desejo” de São Tomás, pessoas que desconhecendo o ideal do casamento cristão, o vivem quase que plenamente, embora sem saber.

Mas também não ignoro que esses casos são raros e que muitos dos que querem se classificar na condição acima muitas vezes estão apenas procurando justificativas para seus erros, e aqui falo somente para católicos praticantes.

Por que o sexo fora das muralhas do casamento seria pecado, se é apenas prazer e cumplicidade? Mas na nossa sociedade extremamente erotizada não é justo perguntar também se em muitos casos (e não em todos é verdade) sob a aparência de cumplicidade não não há apenas falta de autodomínio, e o sexo é assim  não uma expressão da vontade, mas apenas da fraqueza de ceder a um instinto? Ou ainda a ausência de comprometimento? Pois se há amor, por que não pode ser manifestado com um gesto público e solene, como merece um compromisso de entrega mútua?

Claro, sempre há exceções, como aqueles que caminham nessa direção, mas ainda de forma imperfeita ou fraca. Ou ainda traumas e marcas que a vida deixa que levam algumas pessoas a desprezar ou mesmo a ver como excessivamente desafiadora a virgindade. Tão pouco pretendo me colocar como referência nesse assunto. Quero sim tratar de um tema que está no centro de nossa vida e que é importante para nossa felicidade. Nesta terra e na futura.

Mas se não há essa entrega, não há compromisso, o que há então? Dois seres humanos usufruindo dos corpos um do outro por puro prazer (quer sejam casados ou não)? Será que a medida de todas as coisas deve ser o sexo? Ou o amor, que vai infinitamente além deste? E o que será quando a vida me pedir autodomínio, quando chegar a doença, a velhice ou as dificuldades do dia-a-dia? Um amor que se confundiu com vício será capaz e sobreviver a estas provas?

Mais cedo ou mais tarde este lapso, se não remediado, irá cobrar o seu preço, basta ver como nossa cidade está cheia de pessoas confusas, afetivamente imaturas e infelizes, embora sexualmente muito ativas.

Obviamente não basta controlar-se sexualmente para ser considerado santo, “há muitas almas virgens no inferno” já dizia um certo santo, Santo Agostinho acho. Dizia ainda que se podem achar muitas almas que não foram castas no Céu, mas com certeza nenhuma orgulhosa. E o orgulho é, por sua vez, outra ilusão.

Se não nos confrontamos honestamente com o ideal cristão e a vida dos santos, por medo de perder uma suposta autonomia intelectual em que eu mesmo faço meus critérios, e aqui falo somente aos católicos praticantes, enganando-nos a nós mesmos, corremos o risco de ir para o inferno por não termos tido coragem de olhar para o Céu. A verdadeira autonomia é procurar respostas e quando encontra-las viver de acordo com elas. Há quem queira ficar eternamente em dúvida por medo do que as respostas possam lhe pedir.  Mas é a verdade que nos libertará. E Deus é bom, está é a verdade.

A humildade é a primeira das virtudes. Reconheçamos nossos próprios erros ao invés de justifica-los. Pois, e esta é uma das coisas mais belas da fé católica, estamos todos a apenas uma confissão do Paraíso. Não se pedem atos heroicos, e nem um grande sacrifício, nem mesmo uma mudança de vida perfeita e instantânea – o que seria desumano, se pede apenas o desejo sincero de recomeçar.

Bem, voltando à música.

O refrão de Metal contra as Nuvens “Eu sou metal/ raio, relâmpago e trovão/ Eu sou metal/ Eu sou o ouro em seu brasão”, é uma bonita autoafirmação de um homem que diante de uma situação adversa se lembra da sua própria dignidade. E aqui também vejo um belo paralelo entre a música e nossa ascese de cada dia para lutar contra nossos próprios pecados. É preciso recuperar aquele brio que tinham os primeiros cristãos e que têm os santos. Diante do pecado que quer nos rebaixar devemos lembrar que somos uma raça de “sacerdotes, profetas e reis”, de homens livres, que não aceitam ser escravos.

Quantas mulheres hoje aceitam que todos os homens são infiéis e que a vida é assim mesmo? Quantos homens aceitam passivamente o jogo político e de interesses em cada local de trabalho deste país e aceitam isso como natural? Não podemos aceitar viver assim.

E diante dessas mentiras sobre a natureza humana, apresentada cada vez mais como mais decaída, devemos erguer nossa voz interior e nos lembrar da dignidade de Nosso Pai, do que somos realmente feitos e a que preço fomos salvos. Eu não posso aceitar que os casais briguem de vez em quando e isso seja normal. Não posso aceitar que me sinta atraído por todas as mulheres que passem na rua e considerar isso normal (desde que meus pensamentos não venham a público), não posso aceitar deixar que um colega de trabalho seja injustiçado porque essas coisas são assim mesmo...

Tendo consciência que de fato existe um Deus, e que Ele se fez homem em Jesus Cristo Nosso Senhor, quero amar minha esposa de todo coração e ser paciente e sereno, quero ser leal aos meus amigos, corajoso, destemido e quero ser casto no mais íntimo dos meus pensamentos. Sabendo que o homem é de tal maneira amado por Deus e que por causa dEle sua dignidade é infinita, não podemos aceitar ser uma criatura caprichosa, frívola e inconstante. Devemos nos revoltar contra essas afirmações.

E é importante lembrar que o desejo de perfeição, de santidade, não significa santidade. E o desejo de perfeição deve crescer na mesma medida em que crescemos em misericórdia para com os outros e para conosco mesmos. Do contrário, apontando na direção do amor seríamos carrascos uns dos outros, o que é totalmente absurdo para a lógica de um Deus que morreu por amor a nós, quando estávamos todos (e ainda estamos) no pecado, quando nem sequer o conhecíamos. Morreu apenas pela vaga possibilidade de que fôssemos salvos, morreu por amor somente, sem garantias de que seria amado.

E voltando à música novamente, outro verso que acho particularmente forte é quando na parte mais dramática da música o personagem canta “não me entrego sem lutar/ tenho ainda coração/ não aprendi a me render/ que caia o inimigo então”. O cristão não é um homem passivo. Tão pouco um submisso, ou pior ainda, um desiludido melancólico. É um violento (no sentido evangélico do termo, claro), um revolucionário (no sentido deste texto, claro de novo, rs), alguém que não se submete às leis deste mundo, que tendo mil vezes caído no mesmo pecado, mil e uma vezes se levantará, pois não aceita, não se rende. Não se submete às leis do pecado, embora possa muitas vezes ter sido feito cativo por elas.

Eu me lembro das muitas vezes em que me vi prostrado pelos meus próprios pecados. Lembro que muitas vezes a única coisa que me movia adiante era não aceitar que a história terminasse assim. Como alguém que viu o Senhor pode agir tão mal assim?  Me perguntei isso muitas vezes. Tem sido um longo aprendizado. Vejo na vida de muitas pessoas e na minha também que Deus tem vencido, que não nos abandona à nossa própria sorte e que ao menor sinal de perseverança Ele nos cumula de todas as dádivas e bênçãos, o esforço que Ele nos pede é infinitamente pequeno em relação ao bem que nos dá.

Mas o que gostaria de ter ouvido ainda adolescente é que não se deve ter medo de lutar contra o pecado. O pecado é um assassino, um estuprador, um mentiroso que não nos traz bem nenhum e é preciso voar sem medo e ir de corpo inteiro ao seu embate, com coragem, certos da vitória, com a espada em riste, pois a única possibilidade de derrota que temos nesta batalha é não lutar.

E concluindo com a música:

“E nossa história não ficará, pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar. E até lá, vamos viver, temos muito ainda por fazer, não olhe para trás, apenas começamos. O mundo começa agora. Apenas começamos”.

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