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CONSULTORIA ESTIMA QUE VICENTINOS ECONOMIZAM 11 MILHÕES E LIBRAS AO ANO PARA OS COFRES BRITÂNICOS


Um relatório muito interessante sobre uma das maiores obras sociais da Igreja


Uma consultoria em economia realizou recentemente um trabalho muito interessante sobre o impacto dos vicentinos no Reino Unido. O trabalho foi realizado gratuitamente pela empresa Oxera, como parte de suas atividades de responsabilidade social.

A Sociedade São Vicente de Paulo (SVP) realiza cerca de 500 mil visitas a pessoas em vulnerabilidade social ao ano, contanto com uma rede de 10.000 voluntários no Reino Unido.

O trabalho dos voluntários consiste basicamente em visitas a idosos, deficientes físicos e mentais, refugiado e pessoas em vulnerabilidade em geral, como as que se encontram em situação de pobreza.

Basicamente realizam visitas regulares para verificar condições de saúde, necessidades básicas não atendidas como alimentos e remédios, que eventualmente podem ser fornecidos e levam, evidentemente, consolo religioso àqueles que atravessam momentos difíceis. Além de simplesmente conversar com as pessoas e famílias visitadas.

Essas visitas podem ser realizadas em domicílios, prisões ou hospitais e são ainda organizadas atividades como sopas para moradores de rua, bazares e encontros de final de semana. Além de cursos de alfabetização, informática e aconselhamento para conseguir emprego.

O relatório da Oxera identificou que a SVP teve impacto estatisticamente significante em melhora da saúde mental, aumento da capacitação profissional, atendimento de necessidades básicas e aumento dos níveis de educação e emprego das pessoas e famílias visitadas.

Observando este impacto do ponto de vista da redução de custos para o sistema nacional de saúde, observou-se que este foi beneficiado por meio da melhoria da qualidade de vida dos beneficiários, melhorias no mercado de trabalho, redução dos custos de assistência social e redução dos custos com gastos médicos por parte do governo.

Bem, mas como quantificar esse impacto?

A ideia básica do relatório é a seguinte. Imagine que entre a população de idosos, 20% tenham depressão. Se a população visitada pela SVP não tem nenhum aspecto em particular que a faça destoar da população em geral, é esperado que entre eles também haja também 20% de pessoas com depressão.

Mas se depois de alguns anos de trabalho, as pessoas visitadas pela SVP apresentam, por exemplo, 15% de pessoas deprimidas, pode-se se perguntar se estes 5% a menos de pessoas deprimidas se devem ao trabalho da SVP.

O segundo passo é quantificar esses 5% de “ganho” gerado pela SVP para sociedade. Uma taxa menor de pessoas deprimidas significa menor utilização dos sistemas de saúde e de assistência social. Sabendo-se o custo médio por pessoa atendida por esses órgãos, chega-se ao valor economizado.

O relatório segue, em linhas gerais e tendo em vista muitos limites metodológicos o que é o estado da arte em economia aplicada. E fez uma conta conservadora (ou seja, provavelmente o impacto é maior do que isso) de que a SVP economiza aos cofres britânicos 11 milhões de libras esterlinas anualmente.

Se fizermos a conversão direta para o câmbio de hoje isso representa cerca de 62 milhões de reais. E para termos uma ideia desse impacto, no Brasil estimava-se que um posto de saúde custava entre 200 e 400 mil reais em 2009.

Desconsiderando-se o efeito da inflação, que não é desprezível e também o do câmbio, que teve uma grande variação nos últimos meses, podemos falar a grosso modo, lembrando que o objetivo aqui não é a precisão dos números, que os voluntários da SVP poderiam construir pelos menos 100 postos de saúde no Brasil ao ano com o dinheiro que eles economizam aos cofres britânicos.

Em 1833 foi criado o primeiro grupo de vicentinos por Frederico Ozanam, beatificado pelo Papa São João Paulo II em 1997, inspirado no modelo de vida de São Vicente de Paulo, padre católico, falecido em 1660.

São Vicente de Paulo destacou-se pelas inúmeras obras de caridade que realizou, foi feito prisioneiro dos turcos e escravizado, passou por vários “donos”, fugiu de volta à França onde nasceu, tornou-se responsável pelas esmolas da rainha e depois tutor do futuro rei. Responsável pelas obras de caridade do reino, fundou ainda diversas outras obras de caridade e contribuiu para a libertação de cerca de 1200 escravos das mãos dos turcos. Visitava diariamente os hospitais.

Tamanha foi sua fama que outro grande santo, São Francisco de Salles, dizia que São Vicente de Paulo era o padre mais santo daquele século.

Atualmente, os vicentinos estão presentes em 143 países e contam com cerca de 700.000 membros. Suas atividades são mantidas majoritariamente por doações individuais.


Relatório da Oxera:

Referência sobre custos de postos de saúde no Brasil:

A notícia foi originalmente postada no Catholic Herald

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ABORTO E A CRISE GERADA PELO ZIKA VÍRUS

E por que as mulheres não devem abortar



É importante notar o espaço desproporcional que a mídia oferece para as campanhas pró-aborto. 

O site da BBC Brasil apresentou a notícia a respeito da campanha da ONU para descriminalizar o aborto nos países vítimas do Zika Vírus como se a voz das mulheres brasileiras estivesse sendo finalmente ouvida. E até mesmo a Super Interessante há algum tempo lamentou que as regras para o aborto legal foram tornadas mais rígidas no Brasil. 

Parece não interessar que, no nosso país “democrático”, a maioria absoluta das pessoas seja contra o aborto. Ou que na última enquete da Revista época, 86,6% dos participantes tenham se manifestado contra o aborto em caso de Zika Viírus (1). 

As evidências contra o aborto são gritantes e a primeira delas é a inevitabilidade da morte de um bebê, o que o movimento pró-vida não tem deixado de apontar e denunciar sempre que tem a oportunidade.

Entretanto, as pessoas envolvidas em situação de aborto não raro se encontram vulneráveis e é disso que o movimento pró-aborto quer se aproveitar nessa crise gerada pelo Zika Vírus. 

Por que as mulheres abortam? E por que em um país de maioria absolutamente cristã o discurso pró-aborto ou ao menos uma grande tolerância ao tema, encontra ainda tanto espaço na mídia? 





Bem, sem entrar na discussão evidente sobre a inevitabilidade da morte de uma pessoa durante o aborto e sem recorrer demoradamente à trágica ironia que é resolver os problemas causados pelo Zika Vírus matando as suas vítimas, gostaria de explorar o assunto por ainda outro ângulo:

Entre os vários erros em que a defesa do aborto incorre, há dois pressupostos equivocados que eu gostaria de apontar:

O primeiro é que a nossa felicidade consiste na ausência de sofrimento e dor.

Assim, qualquer sofrimento, como criar um filho com graves problemas de saúde, ou a falta de condições financeiras, deve ser evitado, sempre que possível. Ou ainda que devemos evitar que crianças pobres se tornem criminosos e venham colocar a nossa vida em risco. E ainda o sofrimento que é poder vir a ser expulso, por incompreensão ou pelas novas necessidades da vida, do círculo dos amigos ou da família.

Estudar, ter uma carreira, amigos, casar se quiser e talvez ter filhos é assim o caminho natural da vida e da felicidade a que todos têm direito.

Mas há aí dois erros. O primeiro é acreditar que o último parágrafo é a felicidade. Há milhares, milhões de pessoas insatisfeitas, ou ao menos irrequietas, com essas coisas.

O segundo erro, implícito, é que é possível planejar assim nossa vida. Mas quem pode prever onde irá trabalhar, com quem irá se casar, os filhos que vai ter, a doença de que vai morrer e as diversas desilusões e mentiras que encontramos pelo caminho?

Conseguimos, quando muito, traçar grandes linhas. E tomar decisões no presente baseados na dor que sentiremos no futuro, é, no mínimo, impreciso. Pois o futuro é sempre incerto.

E a melhor maneira de nos prepararmos para a vida é saber que ela é assim, incerta. Como não sabemos o caminho que iremos trilhar, o mais sábio é nos armarmos por dentro para trilhar qualquer caminho. A felicidade é em grande medida uma batalha que travamos dentro de nós. E não com o que acontece ao longo do caminho.

Não quero diminuir ou desprezar a dor das mulheres nessa condição. E nem das que abortaram. Quero menos ainda condená-las. Só Deus sabe a dor que carregam por dentro. E tão pouco quero dizer que a solução reside em alguma forma de intimismo religioso ou algo do gênero, que basta um pensamento positivo.  

Mas que, e eis aqui uma das infinitas joias do Cristianismo, que o presente pode ser redimido, e que a dor e o sofrimento não têm a última palavra. É consolador saber que entre os ancestrais de Cristo havia adúlteros, um caso de incesto e pessoas desprezadas pela sua sociedade, às vezes injustamente (2). E que grandes homens da história nasceram nas situações mais adversas, soube recentemente da história do padroeiro de Glasgow na Escócia, que foi concebido em um estupro de guerra (3).

Não se trata de dizer que a dor e o sofrimento são irreais, mas que o bem que pode brotar deles é ainda mais forte.

Com relação às necessidades concretas das vítimas de microcefalia, acredito que o SUS pode perfeitamente, em parceria com organizações da sociedade civil, Igrejas e empresas, prover um sistema de acompanhamento especial para essas famílias.

E que a sociedade como um todo pode acolher essas famílias, livrá-las da dor e da vergonha que sentem por não corresponderem a fúteis padrões sociais e que podemos dizer para elas que o sofrimento delas é nosso também, que iremos atravessas juntos tudo isso, que vamos vencer e que seus filhos são nossos também, pois somos um só povo.

Alguém poderia dizer que as linhas acima são bem irreais, porque ninguém pensa assim. Bem, embora eu e algumas pessoas também pensemos assim, é verdade.  Mas este ideal é uma sociedade pela qual vale a pena lutar. Já uma sociedade cuja primeira opção é a morte das vítimas, não.




    (1) Embora seja discutível se a amostra é representativa, apesar dos 6.290 votantes (acesso em 08/02/2016) interessante notar que há, ao menos, uma grande parcela da população brasileira que é sistematicamente contra o aborto, há quem é dado pouco espaço nos grandes meios de comunicação. Link:http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/gravida-vitima-de-zika-deve-ter-direito-ao-aborto.html (2) Há uma série de controversas acerca da genealogia de Jesus, a respeito delas este link é interessante, embora eu faria algumas ressalvas ao texto: http://www.bibliaafundo.net/2013/08/o-incesto-nas-escrituras.html (3) São Mungo, para uma leitura rápida: https://en.wikipedia.org/wiki/Saint_Mungo







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CRIANÇAS E ATEÍSMO



Recebi de uns amigos o vídeo acima com este depoimento de uma menina de 8 anos sobre sua crença no ateísmo e a sua relação com a colegas, professores e a escola em geral. O vídeo teve muitas visualizações no Youtube e a menina é sem dúvida muito esperta e inteligente, além de muito simpática. Algumas pessoas podem ter recebido o vídeo com indiferença, ou mesmo tê-lo meio que desprezado por se tratar de uma criança, mas eu achei bastante interessante. 

Bem, eu levo a sério o depoimento dessa criança. Sabendo, é claro dos limites da idade e da influência que o seu meio exerce sobre ela, além é, claro, do fato de que ela não postou o vídeo sozinha e nem sabe ao certo como é que o vídeo se encaixa no movimento de que ela participa e  menos ainda como pode ser utilizado no debate cultural contemporâneo.

Mas eu levo a sério por também ter questões bem sérias já por volta dessa idade. Eu me afligia com a passagem do tempo e não acreditava no ensino religioso que recebia na época. Para ter uma ideia, eu cheguei a sentar de costas para o altar quando meus pais me levaram à Missa algumas vezes, em sinal de protesto, e com 10 anos eu me neguei a professar, conscientemente, "Creio na Santa Igreja Católica", na minha Primeira Comunhão. E para mim eram atos sérios, que praticava com consciência.

E tive ainda sérias questões sobre a relação entre as crianças e a religião que podem ser lidas aqui. E somente aos 13 anos, depois de uma forte experiência religiosa foi que me converti ao catolicismo. E com isso não pretendo realizar nenhuma forma de proselitismo barato, mas apenas apresentar um fato importante para o meu argumento.

Agora, o que vídeo dá entender sem dizer, what goes without saying, é a ideia de que há crianças sofrendo bullying dos colegas em várias escolas por serem ateias e de professores obrigando as crianças à oração. Bem, nada mais fora da realidade.

Nas últimas semanas estive procurando com minha esposa uma escola católica para nossa filha mais velha e foi difícil encontrar uma escola católica que, por mais estranho que possa parecer para quem não está familiarizado com a discussão, lecionasse ensino religioso católico. Não sei se os ateus e praticantes de outras religiões percebem esta dimensão do catolicismo contemporâneo. Quando vêm com essa discussão de fundamentalismo religioso, percebo que estamos em universos paralelos. E é preciso construir uma ponte, interestelar, que seja.

Na grande maioria das escolas católicas, a aula de ensino religioso é inter-religiosa, não-confessional e as aulas de catequese, em que se apresenta a fé católica, são fora do horário de aula para as crianças das famílias que assim desejarem. Mesmo em escolas com ensino religioso católico, crianças evangélicas, de outras religiões ou de religião nenhuma são admitidas e não são obrigadas a participar de todas as atividades, mesmo tendo escolhido livremente estudar em uma escola católica.

As escolas católicas têm tanto receio de impor ou apresentar subliminarmente a sua fé, que em certos círculos católicos discute-se se esse processo não nos levou ao excesso de perdermos nossa própria identidade. Há um intenso debate dentro da Igreja Católica se o diálogo com o mundo moderno ao longo do século XX não terminou por gerar uma “auto-secularização” católica.

E por mais importante que seja esse debate, aqui só quero apresentá-lo para dizer quão longe o movimento ateísta está da realidade ao falar, ou sugerir, a perseguição de crianças e adolescentes ateias nas escolas. É um completo absurdo. Absurdo nas escolas católicas, que são a maioria das escolas religiosas brasileiras.

Acredito que o diálogo, a tolerância e o respeito à diversidade (e diversidades de verdade, como entre os que não creem e os que creem, por exemplo) juntamente com o amor e a busca pela verdade, aquela que é única e nos faz todos humanos, pode ser o elo e o fio condutor da sociedade brasileira pós-moderna e plural que está emergindo em nossas metrópoles e deve avançar pelas próximas décadas.

E para que isso aconteça, é preciso que nos levemos a sério. Os ateus talvez não saibam quão a sério a Igreja Católica os toma. Os diálogos do Papa Bento XVI com Habermas e Paolo Flores d’Arcai e do Papa Francisco com Scalfari são ilustrativos nesse sentido. Mas também precisamos ser levados a sério.

Penso que as famílias podem se organizar em associações nas escolas públicas para que seus filhos recebam educação religiosa de acordo com suas crenças e valores. Ou que não recebam educação religiosa, mas outra coisa que julguem mais pertinente. E acho que isso é perfeitamente factível em parceria com igrejas, associações e movimentos sociais, podendo, inclusive, criar um ambiente propício para o diálogo. Pois que para que o diálogo aconteça é necessário que exista antes identidade e diversidade. Não há por que imaginar que afirmar nossa identidade seja uma forma de afronta.

Coincidentemente ou não, a UNESCO está por esses dias com vagas abertas para consultores em ensino religioso. Assim, parece que teremos em breve novos capítulos deste tema.

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Compartilharmos nossas esperanças mais do que a nossa indignação

Marcos Gregório Borges é filósofo e um dos fundadores do grupo Coração Novo para um Mundo Novo dedicado ao trabalho integrado entre movimentos e novas comunidades na perspectiva de uma maior presença cristã na vida pública. Participa como colaborador nas atividades do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

O Brasil vive uma gravíssima crise política, com um dos maiores escândalos de corrupção de nossa história. O país atravessa uma recessão econômica, tendo que suportar um duro ajuste fiscal. Entretanto, talvez nos cause maior perplexidade vermos o governo e o congresso nacional, diante deste difícil cenário, travarem uma terrível queda de braço por poder, onde interesses pessoais se sobrepõem ao bem comum.

Diante desta situação, nos sentimos indignados, queremos fazer alguma coisa, desejamos que algo aconteça, que justiça seja feita. Assaltam-nos perguntas do tipo: O que temos que fazer? O impeachment é a solução? E a reforma política? Precisamos de novas lideranças, mas onde elas estão? Afinal de contas, qual é o meu papel em tudo isso? Eu posso fazer alguma coisa? E o que eu fizer, vai resolver alguma coisa?

As manifestações contra o governo, no domingo, 16 de agosto, mesmo que não tenham sido tão grandes como as de 15 de março, foram um sinal claro de insatisfação popular. Mas esta insatisfação já se tornou evidente nas pesquisas de opinião pública, nas conversas informais ou nas análises políticas.

Podemos dizer que as pessoas vivem um momento em que compartilham sua indignação, que se manifesta das formas mais diversas. Mas a indignação por si mesma não é capaz de construir nada. Quando levada ao extremo, ela pode gerar a desesperança à medida que ela nos faz acreditar que não há uma luz no fim do túnel.

O Papa Bento XVI, na Spe salvi, nota que a esperança não é um olhar ilusório sobre o futuro, mas o reconhecimento de algo já presente e que tende a crescer. Ela nasce de experiências humanas concretas que são construtoras de humanidade, que renovam em nós a alegria de sermos humanos. Uma mãe, que em meio a uma situação social desfavorável é capaz de educar e criar o seu filho com todo carinho e amor, dando a ele a esperança de um futuro melhor, um profissional, que realiza o seu trabalho da melhor maneira possível porque sabe que existe outra pessoa que necessita do fruto do seu trabalho, um militante que se esforça para servir ao bem comum.

Quando vivemos e compartilhamos estas experiências, por mais simples que sejam, percebemos que a vida vale a pena e encontramos o sentido da caminhada. Estas pequenas experiências precisam, sem dúvida, de encontrar formas políticas de se expressarem, mas são fundamentais para que não nos percamos em jogos de poder e discursos ideológicos que não constroem a novidade que prometem.

Neste tempo somos convidados a compartilhar a nossa esperança, permitindo que ela nos vincule uns aos outros à medida que reconhecermos a humanidade na experiência do outro, construindo uma unidade em torno de uma mesma esperança compartilhada. Desta experiência surge naturalmente um anseio comum por participação na construção de algo novo, e é neste momento que as verdadeiras mudanças podem acontecer. Não se trata de, ingenuamente, negar as dificuldades da realidade, mas de perceber na vida compartilhada os sinais que nos indicam por onde sair da crise. A força do povo não pode nascer de discursos ideológicos, que mais cedo ou mais tarde se mostram ilusórios, mas da partilha dos gestos concretos de construção de uma nova realidade. Por isso, compartilhemos as nossas esperanças mais do que a nossa indignação.

Jornal "O São Paulo", edição 3066, de 27 de agosto a 02 de setembro de 2015.

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SOBRE AS UNIÕES CIVIS

Comentário acerca da recente aprovação das uniões civis de homoafetivos nos EUA e na Irlanda, as campanhas contra o Arcebispo de São Francisco (1), D. Francis Cordilone, por ter reafirmado o ensino da moral católica nas escolas da sua arquidiocese e a morte de Leelah O’Conor (2).

Acredito que o tema já tenha sido bastante debatido nas últimas semanas, mas gostaria de adotar uma perspectiva que entendo ser fundamental, mas que tem sido pouco explorada: no plano de fundo deste debate está uma discussão acerca do que é, afinal, felicidade. 

De um lado, temos uma sociedade cujas ideias de liberdade, autoafirmação e subjetividade foram ganhando cada vez mais força e são hoje, para a grande maioria das pessoas, os vetores do que chamamos felicidade, auto realização. 

Para essa parcela da população, não podemos falar propriamente de leis naturais, de razão totalmente isenta ou de uma regra válida de comportamento para todos, porque estas, segundo dizem, simplesmente não existem. O que existe são diferentes pessoas, com personalidades diferentes, as leis deveriam apenas conter a violência física ou psicológica a que podemos nos submeter uns aos outros, para garantir que cada um, a partir de sua liberdade, possa buscar sua realização pessoal. 

Do outro lado, existe uma parte da sociedade, que ancorada principalmente, ou em grande medida, na experiência religiosa pensa de maneira diferente. E aqui a palavra experiência é importante, e no sentido “mais empírico do termo”, já que são séculos e séculos experimentando a mesma forma de vida. Para nós, a felicidade é uma busca, uma busca de algo fora de nós e que nos diga qual o caminho a seguir (3). A verdade se encontra assim fora de nós mesmos, na razão, na natureza, em última instância em Deus. 

E pela fé, sabemos ser, na verdade, uma busca de Deus por cada homem e por cada mulher, até que nos deixamos encontrar. E a cada dia, a cada momento, essa busca se renova. 

Eu diria que para nós a felicidade é mais de fora para dentro do que de dentro para fora. 

Mas como filho deste século, me parecem bem mais intuitivos os primeiros parágrafos. E acredito que talvez seja esse o grande desafio para nós hoje. Como dizer que este Encontro que afirmamos existir não é apenas uma gaiola dourada? Como dizer que o conjunto de leis sob os quais escolhemos viver não é apenas uma camisa-de-força cujo design vai variando e ficando mais colorida ao longo dos séculos? 

Como dizer, enfim, que essas leis, longe de serem arbitrárias como muitas que existem, na verdade revelam a verdadeira natureza do coração humano e assim tornam possível nossa autêntica realização?

Eu entendo que todo debate, toda denúncia que se faz sobre esses temas é importante. São luzes em tempos confusos que nos ajudam a manter a sanidade. Mas a maior contradição que podemos oferecer a este mundo em que, para o bem e para o mal, a Igreja se confunde cada vez menos com a sociedade civil, é sermos felizes. Nós não deveríamos ser felizes e somos. 

Mas não é suficiente a felicidade dos excêntricos. Ou daqueles que escolheram um ideal de vida bonito, mas inatingível para a grande maioria das pessoas. É preciso uma felicidade comunitária, a felicidade de uma nova sociedade. 

Precisamos reconstruir a cidade católica, retirá-la debaixo das ruínas da cidade em que ela se escondeu. Não apenas como uma cidade utópica, ideal, mas uma cidade concreta, feita dos nossos hospitais, nossas escolas, nossas paroquias, movimentos, comunidades e ordens novas e antigas. É preciso que reconheçam em nós aquele intercâmbio de dons do qual fomos chamados a ser sinal. 

É preciso reconstruir a cidade católica. Em cima do monte, no coração da cidade.

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A maioridade Penal

Eu começaria a discussão acerca da maioridade penal pelas escolas. Não com aquele vago determinismo de que a criminalidade é apenas resultado das condições materiais em que as pessoas cresceram. Isto é como eu respondia às questões das provas de estudos sociais muitos anos atrás, antes de saber que isso é simplesmente determinismo. 

Basta observar países asiáticos com taxas de pobreza maiores do que a nossa e criminalidade bem menores para notar que o problema é mais complexo. 

Penso na escola como um local, ou uma comunidade, de justiça.

Se os alunos fraudam as provas, se nos corredores quem tem poder é o mais forte, se a atenção do Estado é maior no sentido de evitar punição ao aluno em conflito com a instituição escolar do que oferecer ao bom aluno um ambiente propício ao estudo, qual é o sinal que o sistema educacional envia a esses alunos?

O sinal de que é necessário estar entre os mais fortes e aprender a fraudar o sistema, do contrário, você será simplesmente ignorado. E os alunos estão perfeitamente corretos quando leem isto nas entrelinhas, pois é exatamente isso que acontece.

Assim, ao invés de tentar implementar a justiça por meio de um aumento no rigor na lei, cujos efeitos serão provavelmente muito pequenos, haja visto que nosso sistema penitenciário para adultos já não funciona, acredito ser mais interessante restabelecer a justiça nas escolas, cultivando e cercando de mais atenção e recursos essa sociedade embrionária.

É verdade que escolas saudáveis passam por salários mais dignos para os professores, estrutura física adequada e tantos outros aspectos materiais. Mas o princípio de toda e qualquer sociedade, seja com o Leviatã hobbesiano, seja com Locke, passa por cessar minimamente a violência injusta. 

O primeiro passo passa por tornar a escola segura para os bons alunos.

E não há como falar disso sem remeter à autoridade dos professores e aos recursos de que dispõe para punir alunos em conflito com a instituição escolar. Afinal, o que vamos fazer com os alunos em conflito com a escola?

Reinserir alunos em liberdade assistida em salas de aula, ou impedir, com transferências sem fim, a expulsão de alunos violentos, como tem sido feito, gera um ambiente insustentável para o estudo e a segurança da comunidade escolar. 

Isto também não significa que devemos deixar alunos nessa situação à própria sorte, também são parte da sociedade. Imagino que poderiam ser pensadas instituições paralelas, em parceria com organizações da sociedade civil para lidar com esses casos. E assim garantir que as escolas sejam comunidades em que prevalece a justiça.

Penso que este é o início de uma sociedade de paz. Uma sociedade que possa ter inclusive forças para incluir seus membros em maior dificuldade.

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Ainda sobre a Maioridade Penal

Uma das discussões de fundo nessa questão da maioridade penal é a real responsabilidade que os adolescentes têm por seus atos. E como os temos tratado de maneira infantilizada.

Lembro de um comercial do exército brasileiro que fazia uma associação entre a vida militar e um jogo de videogame. 

Quando a propaganda governamental assume que os adolescentes não pensam em outras coisas que não sejam sexo, festas e diversão, tentando tornar tudo o mais lúdico possível, não os está desprezando como pessoas? Será que são assim tão incapazes de coisas grandiosas, de gestos gratuitos e belos? 

E não estaria aí parte do tédio e da tristeza pelos quais passam muitos adolescentes, a ausência daquela saudável tensão entre o que somos e o que nos desafia, que nos mantém vivos?

Lembro de uma visita que fiz à Fundação Salvador Arena. Fique surpreso com o silêncio das salas de aula e mais ainda por encontrar um doutorando em física da USP sendo auxiliado por dois alunos do ensino médio devido aos conhecimentos destes de eletrônica. 

Lembro ainda de projetos da Junior Achievement em que adolescentes desenvolveram produtos bastantes interessantes e mesmo uma forma de evitar contaminação de lençóis freáticos. E lembro ainda da seriedade grave de profunda de jovens em projetos da Igreja Católica. 

Não desprezemos nossos adolescentes. Eles podem dar grande contribuição à sociedade na geração de bens e serviços e no desenvolvimento de novas tecnologias. Como diz a regra dos monges beneditinos: “É comum Deus se revelar aos mais jovens”. Então penso que devemos tratá-los com seriedade.

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A respeito da maioridade Penal

Há diversas questões entrelaçadas com a discussão que se tem feito sobre o tema. A primeira é uma questão de princípios, se adolescentes de 16 anos são suficientemente maduros para serem responsabilizados por seus atos. 

A resposta para esta primeira questão para mim é um simples sim. Aos 16 anos homens e mulheres podem votar, tem todas suas faculdades sexuais e raciocinam com clareza. Se a natureza e a sociedade política os trata como adultos, por que a lei não trataria?

A segunda questão que eu vejo é de ordem técnica: uma redução na maioridade pena reduziria a criminalidade? Bem, não encontrei estatísticas sobre o tema, assim posso apenas arriscar uma resposta. Diria que sim, mas muito pouco. O aumento do custo da criminalidade tende a tornar mais arriscado para os adolescentes e mais cara para os aliciadores, a prática do crime. Mas como boa parte dos crimes parece estar ligada ao tráfico de drogas, é difícil imaginar o impacto deste “aumento de custo”. 

E também não faz muito sentido inserir os adolescentes no sistema penitenciário dos adultos que está falido. Não seria mais simples melhorar os sistemas que já existem nesse sentido para adolescentes infratores? Ou melhorar o sistema penitenciário? Ou aumentar a efetividade da ação policial?

E ainda vejo uma terceira questão de ordem política: é este o momento para avançar nessa discussão da maioridade penal? Eu diria que não. 

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Os casais com filhos são realmente mais felizes?

Comentários sobre a última reportagem da revista Época.
E voltamos a esse assunto de novo!



Novamente essa discussão sobre ter filhos ou não ter filhos (1).

Analisando esta tabela sobre atividades mais prazerosas que coloca “cuidar de crianças” depois de “socializar no trabalho”, “assistir televisão” e “cochilar”, eu poderia jurar que a pesquisa foi feita entre alunos do primeiro e do segundo ano de alguma faculdade.

E até não seria nada demais se a reportagem não citasse Kahneman, prêmio Nobel de economia em 2003 entre suas fontes. Bem, sabemos que os artigos científicos geralmente são bem menos emocionantes dos que as reportagens que se fazem deles, mas vamos supor que a reportagem tenha feito seu trabalho direito, o que geralmente é uma suposição bem forte.

Essa discussão está dentro de uma área de pesquisa, que tem tido cada vez mais atenção chamada economia da felicidade. Para quem quiser conhecer mais, recomendo o “Handbook on the Economics of Happiness”(2), que pode ser lido no Google Books, e a dissertação de mestrado de uma colega, no banco de teses da USP (3). 

Há pesquisas com resultados dos mais diversos: pessoas casadas são mais felizes, dinheiro não traz felicidade e ainda que as mulheres têm ficado mais infelizes nos últimos anos. Além, é claro, de pesquisadores que discordam dessas mesmas coisas.

Há discussões técnicas bem interessantes, mas penso que o que chama a atenção dessas pesquisas é o fato delas tocarem em coisas muito próximas, nosso desejo de felicidade e também os preconceitos de nossa época. 

Um olhar atento sobre boa parte das reportagens sobre o tema, nos levará a perceber que em grande medida a pergunta de fundo é verificar se comportamentos com profundas raízes religiosas, como a felicidade com o sacrifício pessoal no cuidado com os filhos, não são apenas auto ilusões. 

Ilusões, como aprendemos com os professores de cursinho, que nos teriam sido colocadas em algum lugar do passado para garantir a coesão social ou servir à classe dominante da vez.

Entretanto, geralmente as pesquisas se baseiam em grupos muito limitados e desconsideram, em parte por conta do método, outros momentos da história da humanidade. E assumem que somente o modelo de sociedade secularizada europeu e norte americano é válido do ponto de vista de análise científica, pois somente estas seriam sociedade livres.

Bem, esse tipo de análise é um imenso preconceito iluminista, como se somente sociedades emancipadas da religião e dos valores tradicionais pudessem ser livres. E como se a Europa Ocidental e os EUA fossem verdadeiramente livres.

Esses estudos concluem apenas que esta limitada sociedade que analisam está mais infeliz do que parece. Mas isto diz muito pouco sobre o que o homem é. E menos ainda sobre o que pode vir a ser.

E esta forma de pensar ainda nos leva a incorrer em um erro de método. Ao buscar entender o mundo somente por médias, tomando como realidade objetiva somente o que ocorre com um número significativo de pessoas, erramos. Além de ser desumano pensar que se uma forma de viver é compartilhada por apenas poucas pessoas, logo ela é insignificante para explicar o comportamento humano.

Ainda mais quando a média é profundamente infeliz.

Entendo que cada pessoa, por ser única e irrepetível, possui um caminho particular para a felicidade. É uma descoberta, e ao mesmo tempo uma decisão, totalmente pessoal, que embora auxiliados por outras pessoas, é algo que se passa entre cada um e o próprio Deus. 

Não se trata somente de ter ou não ter filhos, fazer ou não fazer aquilo, mas de encontrar o seu caminho e o seu lugar.

Embora uma sociedade materialista e consumista talvez ache que os últimos parágrafos se pareçam com um dos castelos nas nuvens do Dawkins ou com um conto de fadas com enredo mais elaborado, entendo que o caminho para felicidade se encontra não em ter ou não ter filhos, consumir ou não consumir, fazer ou não fazer. Mas em encontrar esse caminho, inscrito em nossos corações, que nos leva à felicidade. 

Talvez devêssemos pensar assim. E abrir com uma foice o caminho fechado para a felicidade. 

Para ser feliz é preciso fazer força.



(1) http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/ter-filhos-traz-mesmo-felicidade.html . A imagem é da mesma fonte.

(2)http://books.google.com.br/books?id=zCPzDfUlNpwC&printsec=frontcover&dq=luigino+bruni+handbook+economics+happiness&ei=W38dS_ilKIq6yQTLg5HQAg#v=onepage&q&f=true

(3) Luigino Bruni é Ph.D em economia, economista das universidasdes Bocconi e East Anglia, parecerista de uma importante revista internacional, pesquisa sobre os temas economia civil e economia das felicidade, sendo um dos principais expoentes do mundo nessas áreas. É ainda um importante pensador católico contemporâneo, membro do movimento dos Focolares.

(4) http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/96/96131/tde-15052007-142028/pt-br.php




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Sobre a Tragédia de Charlie Hebdo

E outras tragédias do Ocidente

A semana passada assistiu intensos debate em todo o mundo, marchas de multidões pela liberdade de expressão, marchas menores contra a presença de estrangeiros na Europa e as análises da CNN sobre o que deu errado na vigilância contra os terroristas, como se tudo fosse apenas um problema técnico que pudesse ser evitado.

Aos poucos parece que emergiu um consenso, pelo menos dentro do grupo social de que faço parte, que penso poder ser expresso mais ou menos assim:

“Se é pela liberdade de expressão e contra atos de terrorismo de qualquer natureza, Je sui Charlie, agora, se é pelo conteúdo da revista, Je ne suis pas Charlie” . O que eu particularmente acho de bastante bom senso.

Mas o que penso que ficou faltando neste debate, e ainda falta, é realmente sairmos do impasse em que se encontra o Ocidente todo em termos de mindset e nos convencermos de que uma solução tecnocrática não nos salvará.

Alguns defendem que a solução trata de uma maior sofisticação da polícia, prevendo os casos de terrorismo, o que, convenhamos, é simplesmente impossível, embora seja razoável sempre aperfeiçoar as técnicas de segurança. Outros chegaram a cogitar alguma forma de censura, em nome da liberdade religiosa.

De um lado a liberdade, do outro a igualdade.

Se a Revolução Francesa não tivesse guilhotinado a fraternidade, talvez tivesse algo a dizer para o mundo.

O problema das soluções acima, e que de uma forma ou de outra é onde está polarizado o debate, é que enxergam somente uma relação indivíduo-estado. E não entre pessoas. Não se pensa a respeito da capacidade de se convencer (e ser convencido), da capacidade de autorregulação dos grupos sociais, ou do diálogo entre as diversas comunidades de fato que compõe qualquer sociedade.

E qualquer convite à automoderação em nome de um bem maior é considerado uma afronta à liberdade individual. Mas sem a fraternidade, de que nos vale a liberdade?

A liberdade em si é incapaz de nos tornar felizes. É um bem, por assim dizer, necessário, mas insuficiente, só vale enquanto meio para que eu possa viver da forma que me realiza plenamente enquanto pessoa.

Mas onde encontrar energia suficiente para ir ao encontro do outro, dessa comunidade que me agride? E que me agride verdadeiramente, afinal, pensar que militantes jihadistas são apenas um grupo de incompreendidos é no mínimo muita, mas muita, ingenuidade.

Acredito que a parcela da sociedade a que pertenço, a dos homens e mulheres que reencontraram, ou descobriram de fato, a fé cristã nas últimas décadas, não pode se omitir de contribuir no debate oferecendo uma resposta à altura da sua esperança. À altura do tesouro escondido que encontraram, ainda que muitos, olhando de longe, ou com má fé, pensem não passar de mais uma daquelas bijouterias antigas que depois se descobriram falsas.

Entre junho e julho de 1219, São Francisco de Assis viajou até Damieta, no Egito, onde se travava uma das cruzadas, contra os sarracenos. Depois de pregar aos cruzados, ultrapassou a linha de batalha e se deixou fazer prisioneiro. São Francisco foi levado à presença do sultão, ao qual tentou convencer da fé cristã e a quem pediu por um tratamento digno para os prisioneiros cristãos.

Pela mesma época, missionários franciscanos foram ao Marroccos pregar, sendo por fim mortos.

Francisco não conseguiu convencer o sultão. E os franciscanos morreram no Marrocos.

Mas, quando o corpo dos primeiros mártires franciscanos passou por Portugal no caminho para Assis, um jovem português, chamado Fernando, tomado de comoção, decidiu se juntar aos franciscanos. Este jovem depois passou a ser chamado Antônio, Santo Antônio, tão presente no folclore brasileiro quanto desconhecido pelo homem que é.

Esses mortos nos falam. Pois estão mais vivos do que nós. O sacrifício de Francisco não foi em vão.
O nome de Francisco, e de seus autênticos seguidores, é, há quase 800 anos, uma bandeira de paz, reconciliação e verdade. E desde o seu surgimento sustentaram os valores da sociedade em momentos dos mais difíceis.

Esses homens são pilares de uma civilização fundada no perdão, na paz e no respeito ao próximo, ainda quando este está distante. Uma civilização fundada também no amor ao belo, ao verdadeiro, na coragem e na ousadia.

É disto que precisamos. Precisamos de novos desses franciscanos. Homens e mulheres dispostos a viver até o extremo por uma verdadeira vida. E não por uma caricatura dela. 

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O Vaticano e a ONU

Sobre as recentes polêmicas com o Comitê dos Direitos da Criança e o Comitê sobre Tortura da ONU. 

Poucas pessoas têm acompanhado as recentes disputas na ONU em torno do Vaticano. Em janeiro de 2014 o Vaticano recebeu um relatório do Comitê dos Direitos das Crianças criticando a condução dos casos de pedofilia envolvendo o clero católico[1]

Nada de se estranhar à primeira vista, afinal os escândalos de fato existiram e é justo levantar considerações sobre a condução dos casos. Os relatórios fazem parte de um pacto assinado pelo Vaticano. Além disso, todos os países do mundo recebem relatórios de comitês da ONU denunciando erro de conduta em temas de direitos humanos. 

A polêmica começa de verdade no ponto em que o relatório sugere que a Igreja mude sua doutrina com relação à família, o aborto e etc, dando a entender que a doutrina católica é em certo sentido causa dos escândalos. Bem, uma coisa simplesmente não tem nada a ver com a outra. 

Este mês o representante do Vaticano no Comitê contra a Tortura ouviu que a Igreja pratica tortura com sua doutrina sobre o aborto. D. Tomasi respondeu firme, apontando que “o aborto em fase avançada constitui tortura” e ainda que “a Igreja condena a tortura de qualquer pessoa, inclusive daqueles que são torturados e assassinados antes de nascer”.

Afinal, uma coisa simplesmente não tem nada a ver com a outra e grupos de pressão dentro da ONU colocaram o aborto no meio de novo, totalmente fora de contexto. 

E há ainda neste momento um movimento dentro da ONU pedindo que o Vaticano perca o seu status de estado observador, perdendo o direito à palavra em algumas comissões da ONU, já que o direito a voto o Vaticano não tem. Uma explanação sobre os direitos do Vaticano na ONU pode ser vista aqui[2].

É interessante ver o vídeo da campanha, das “Católicas pelo Direito de Decidir”, com direito a bonequinho do papa e tudo mais, muito sério e bem fundamentado (e espero que tenham entendido a ironia). O argumento principal da campanha é que o Vaticano evita que temas como “aborto”, “educação sexual” e eutanásia sejam aprovados fazendo lobby junto a países pequenos e conservadores que acabam votando contra. Mas aí eu me pergunto: as minorias só valem quando votam a favor? 

No caso do relatório sobre abuso de menores, o Vaticano se defendeu dizendo que não tem jurisdição sobre as Igrejas pelo mundo, e que cabe aos governos locais investigar e punir crimes dessa natureza, além de apontar todos seus esforços nos sentido de coibir estes crimes. Bem, obviamente é verdade, mas em um mundo em que o Greenpeace, por exemplo, cobra de grandes multinacionais com sede nos EUA e na Europa que suas práticas sejam sustentáveis na extração de matérias primas no mundo inteiro, é difícil sustentar esse argumento. 

Já com relação à participação do Vaticano na ONU, entendo que o primeiro passo é não jogar a ONU inteira nessa discussão. A polêmica gira em torno de duas ou três agências ligadas à campanha pró-aborto feita por grandes ongs e fundações internacionais como Planned Parenthood e as fundações Ford e Rockfeller. O outro ponto é não agir com uma inacreditável ingenuidade e não ver neste movimento coordenado um lobby de fundo que vê a Igreja como um adversário político a ser eliminado. A esse respeito vale a pena ver o depoimento de Amparo Medina que chegou a trabalhar na UNFPA do Equador e depois teve um surpreendente retorno ao catolicismo[3]

Mas com relação ao tema específico da participação do Vaticano da ONU, o que devemos pensar? É justo a Igreja se fazer presente na ONU ocupando uma vaga semelhante à de um país e utilizar este espaço a seu favor? Ou deveria retirar-se, marcando uma distinção clara entre religião e política, atuando exclusivamente em outra dimensão social? 

O primeiro passo é observar o mandato, o objetivo em cima do qual é fundada a ONU, que é a manutenção da paz e da segurança internacional. Assim, a ONU pode se perguntar: o Vaticano, a Igreja, é um parceiro importante para a construção da paz mundial? Eu penso que a resposta é um objetivo sim, pela sua situação ímpar no mundo como única organização religiosa com uma hierarquia definida e uma doutrina clara, além de ser a instituição mais antiga do planeta em funcionamento e ter influenciado de alguma maneira a vida de pelo menos 1,4 bi das pessoas que estão vivas hoje sobre a Terra. É uma voz representativa na humanidade? Sim. Então por que não ouvi-la? 

Com relação ao status sui generis é importante lembrar que a ONU não possui soberania em si mesma, mas é resultado de um acordo internacional, é uma aliança política de nações soberanas que podem deliberar como quiserem dentro da proposta inicial da organização. Além de que, sui generis por sui generis, a ONU considera Taiwan parte da China, reconheceu países que ainda carecem de reconhecimento internacional como a Autoridade Palestina ou o Saara Ocidental e tem como objetivo ser uma instituição para salvaguardar a paz e a segurança no mundo inteiro, mas onde quem vota para decidir sobre o uso das armas são apenas cinco países. 

Se o ponto fosse democracia e legitimidade, a última linha é muito mais importante do que os pobres 1 km2 do Vaticano. 

Essa discussão já foi feita em 1964 quando a ONU acolheu o Vaticano como um estado observador permanente, ou seja, os estados membros já deliberaram a respeito e confirmaram novamente o status do Vaticano em 2004. Sejamos objetivos, o ponto é que alguns grupos não gostam de nossas opiniões. E ao invés de vencer nos argumentos, querem nos colocar para fora.


[1]http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/01/vaticano-admite-existencia-de-autores-de-abusos-contra-criancas-no-clero.html 
[2] http://www.holyseemission.org/about/participation-of-the-holy-see-in-the-un.aspx 
http://www.religionenlibertad.com/articulo_imprimir.asp?idarticulo=28988

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Brasil e Violência


Por um novo país, começando do começo.

Já passou algum tempo do começo da polêmica sobre a comentarista do SBT, Rachel Sherazade, mas acho que ainda vale a pena aproveitar o assunto, para uma conversa de maturação mais longa, sobre a questão da violência em nosso país. 

Entre os diversos artigos que surgiram no calor do momento, vale apena ler o do Contardo Caligaris na Folha (1). No artigo, Calligaris fala da inexistência de uma “comunidade de destino”, um sentimento comum de país, como a principal causa para a violência endêmica que nos assola e que tanto tem assolado nossos noticiários. Segundo ele “habitamos uma zona de tiro livre” e entre nós a “coisa pública simplesmente não vingou”.

Seguindo esse raciocínio, não é difícil concluir que linchadores e bandidos são resultado da mesma conta, apenas com o sinal invertido.

Bem, todos nós, ou pelo menos a grande maioria de nós, compartilha o sentimento de que o Estado brasileiro simplesmente não existe. O que existe é um arremedo de Estado, uma espécie de força policial que garante um país para poucos. 

E não sei o que é pior: ser um país para poucos ou ser um país em que muitos querem fazer parte desses poucos. 

Entretanto, a questão é mais profunda. Afinal, como que diante do constrangimento de vermos condomínios encastelados em frente a favelas e cidades com pouquíssima estrutura – basta lembra que no Rio de Janeiro bueiros explodiam - ainda temos este sentimento de que somos brasileiros, de que algo efetivamente nos une? Como isso é possível?

Embora nosso país não seja um mar de rosas cultural, é inegável que aqui a assimilação de outras culturas de se deu de forma muito mais positiva que em outros lugares. Pedro Morandé aponta que o surgimento da América Latina se deu em meio a um projeto com elementos profundamente populares e, inclusive, voltado para a população mais pobre. 

A cidade de São Paulo, por exemplo, surgiu a partir da experiência de um colégio jesuíta, uma escola para indígenas, onde se ensinava em Tupi. O chimarrão é uma invenção dos jesuítas para os indígenas da região dos pampas. São iniciativas que, ainda que não contem com a ideia de uma sociedade pluricultural como pensamos hoje, já nasceram com o intuito de incorporar, abraçar, a cultura do outro. 

É verdade que via de regra os santos são uma pequena minoria, e aqui o pleonasmo é proposital, mas em alguns momentos da história e entre alguns grupos não raro os bons formaram um número considerável, que não conseguimos notar, tão acostumados que estamos a olharmos somente para nós mesmos.

Este processo iniciado no trabalho dos jesuítas será rompido no período do Marquês de Pombal com a supressão das ordens religiosas no Brasil em 1759. Este processo seria emblemático de duas tendências que marcariam nossa história, por um lado a convivência de diferentes culturas abraçadas pelo mesmo ideal religioso e de outro o surgimento de uma elite em oposição a este modelo, ou pelo menos ao que entendia dele.

Olhando para o mundo lá fora, vemos que os primeiros imigrantes que chegaram às treze colônias que viriam a ser os EUA acreditavam estar cruzando o Atlântico da mesma forma que o povo de Israel cruzou o mar vermelho, deixando uma terra de escravidão para uma de prosperidade, que seria marcada pela liberdade religiosa. No século III a.C o imperador Ashoka, depois de convertido ao Budismo, unificou o subcontinente indiano, construiu mosteiros e decretou uma era de paz, chegando até a enviar missionários para outros países, uma história que tem alguns aspectos semelhantes às de vários reis católicos. 

Tendo em mente essas experiências penso que é difícil falar do surgimento de uma nação sem um ideal que nos abrace inteiramente como pessoas, que nos projete para o infinito. 

Simplesmente nos faltariam motivação e forças para um ideal tão grande. 

Na nossa brasilidade acredito que já temos elementos para um ideal mais ousado. A alegria da diversidade cultural é sem dúvida um marco positivo nosso. Nenhum outro povo colocaria sushi dentro de uma churrascaria. A nossa tolerância com os fracassados, algo notado em uma excelente palestra do Prof. Dr. Alfredo Behrens que assisti recentemente. Povos ditos avançados não dão espaço para “perdedores”. Já aqui, infelizes nos negócios e desafortunados em geral ainda são queridos e estimados por suas famílias e amigos. 

E imagino que se conseguirmos estabelecer no nosso pedaço de chão a justiça, talvez mais do que queridos, os fracassados possam também vir a ser redimidos. Um farol para um mundo que cada vez mais exclui fracos e perdedores. Os portadores de doenças incuráveis, os que foram mal nos negócios, os pobres, as crianças por nascer. São perdedores que atrapalham a felicidade de nosso mundo perfeito e devem ser descartados.

A doçura, o cuidado com os mais fracos. As periferias existenciais naturalmente atraem o olhar dos brasileiros. Os pobres, os deprimidos, os tristes, todos eles despertam nossas pesquisas e preocupações. Um povo com uma inclinação natural assim pode ir muito longe com um pouco de força. E a doçura, em nenhum lugar do mundo se ri ou sorri tanto, nem na África, de quem herdamos o sorriso largo e a musicalidade. 

E contamos ainda com a fé que herdamos daqueles que primeiro vieram aqui.

Precisamos acreditar. Com um pouco de força e organização podemos avançar. Já temos um povo, só nos falta construir o país. Mas esta é a parte mais fácil. A mais difícil parece que os jesuítas já deixaram encaminhada. 

(1) http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2014/02/1414812-linchadores-e-bandidos.shtml

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CASAMENTO.


Uma história que recebi de um amigo e que vale a pena ser contada.

Natália nasceu por volta do ano 825, tempo em que a divisão entre os cristãos ainda não tinha tomado os contornos trágicos de hoje. Espanhola de Córdoba, filha de pais muçulmanos, durante a dominação islâmica na Península Ibérica. Ela conheceu o cristianismo quando sua mãe viúva se casou novamente, desta vez com um cristão, o que acabou contribuindo para a conversão das duas. Natália se tornou cristã e passou a viver secretamente a nova religião até conhecer um rapaz, Aurélio, que também vivia na mesma condição. Os dois se casaram e tiveram duas filhas. Eram uma família relativamente abastada e com certa importância na sociedade da época e se faziam passar por bons muçulmanos às vistas dos outros, enquanto em casa vivam como bons cristãos. Ao que parece, eram uma família relativamente feliz.

Salvo pela tensão que pairava constantemente sobre essa cidade por conta das divergências entre cristãos e muçulmanos, a vida seguia próspera e tranquila para o jovem casal. Até o dia em que um evento colocou em cheque a vida ambígua que levavam. Aurélio presenciou a morte de um cristão acusado de blasfêmia. Ao que parece, Aurélio era relativamente próximo do assassinado e acompanhou de perto o ocorrido. Aurélio não pôde fazer nada e lhe causava enorme constrangimento o fato daquele homem ter sido morto por ter professado publicamente que era cristão, enquanto ele viva uma fé confortável e secreta.

Aurélio começou a se questionar se não havia sido covarde, deixando um inocente morrer assim. Era muito cômodo para ele fazer-se passar por muçulmano, levar uma vida financeira confortável e secretamente levar uma vida cristã para apaziguar sua consciência. Mas agora tinha se tornado demasiadamente claro que aquele sistema que lhe trazia conforto era o mesmo que matava inocentes. Ele tomava consciência que era um dos carrascos do sangue daquele homem.

Nunca poderemos saber ao certo o que se passava no coração de Aurélio, e o que coloquei acima não passa de elucubrações,  possibilidades, sabe-se que um profundo sentimento de repulsa à covardia tomou conta dele e que para ele a situação em que vivia havia se tornado insustentável.

Aurélio expôs seus sentimentos a Natália e os dois começaram a se perguntar como deveriam viver. Com duas filhas pequenas era arriscado demais se expor, correndo o risco de perder a vida e de perder a vida de suas filhas. Por outro lado, viver assim era ser cúmplice de tragédias como a que havia ocorrido. Além do mais, era uma fé profundamente contraditória: como crer no Deus que se entregou ao ponto de morrer por Amor a nós, no Deus que foi injustamente flagelado e morto quando tudo o que queria era salvar os seus e agora negar sua amizade por aquele homem que pelo mesmo Amor havia entregado sua vida?

Natália e Aurélio começaram então a pedir forças e discernimento a Deus. Retomaram e reforçaram práticas que os cristãos ensinam desde a Antiguidade: a oração, o jejum, a esmola e a leitura de livros espirituais. E depois de um razoável período vivendo assim, auxiliando secretamente cristãos encarcerados e vivendo intensamente os seus momentos oração, chegaram à conclusão de que não havia outra solução que não fosse a profissão pública de sua fé.

E o que fazer com suas filhas? E se lhes acontecesse algo? Sob os conselhos de um cristão encarcerado que auxiliavam, que depois veio a ser conhecido por Santo Eulógio, resolveram enviar suas filhas para um lugar seguro, onde pudessem receber uma sólida formação cristã. Enviaram-lhe os bens que achavam necessários e doaram o resto aos pobres. E passaram a rezar com cada vez mais fervor, pedindo forças a Deus para fazerem o que fosse necessário.

Certa noite, Natália teve uma visão. Viu duas mulheres vestidas de branco com flores nas mãos e rodeadas de luz. Estas lhe diziam que eles, juntamente com outro casal deveriam se preparar para o martírio, e que a eles se juntaria um monge vindo de terras distantes. O outro casal era Félix e Liliosa, parentes que, inspirados pelo exemplo de Aurélio e Natália, buscavam viver a sua fé de forma mais plena e verdadeira.

Por mais estranho que possa parecer, mas como sempre ocorre na vida dos homens e mulheres santos – lembrando que santos são aqueles que souberam amar a Deus e aos irmãos com o mesmo Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo - a visão encheu os quatro de ânimo.  Era de se esperar que ficassem aterrorizados, afinal significava que de fato iriam morrer. Mas Aurélio e Natália pela prática da oração e da caridade e pela força e sabedoria que Deus ia lhes concedendo ao longo desse tempo já estavam tão cheios de Deus e era tão grande a certeza deles de que iriam se encontrar com o Senhor, que já não tinham medo de nada.

Era certo para eles que depois desta vida iriam para aquele lugar misterioso e que não é físico que chamamos de Céu ou Paraíso e que ali estariam em paz e com Deus. O mesmo paraíso que Nosso Senhor prometeu ao ladrão para o mesmo dia de sua morte (1), antes da ressurreição final dos mortos.

Mas, apesar da confiança de Aurélio e Natália, não havia nenhum sinal de um monge vindo de terras distantes. Até que no ano de 852, um monge de nome Jorge chegou a Córdoba, buscando recursos para seus irmãos do mosteiro na terra santa de onde viera. Tamanha era a fé que Aurélio já possuía que quando Jorge o conheceu também se sentiu inflamado do desejo de doar toda a sua vida a Cristo se fosse necessário. E nesta noite Natália teve outro sonho, via o monge Jorge envolto numa nuvem de perfumes deliciosos.

Uma vez que se cumpriu o sinal que havia sido profetizado na visão de Natália, os quatro se puseram então a pensar como manifestariam publicamente sua fé.  Em um dia de julho de 852, Aurélio foi à casa de Santo Eulógio se despedir e pedir suas orações. Naquele mesmo dia, Natália e Liliosa retiraram o véu que cobria suas cabeças e acompanhadas de seus maridos foram à Basílica à vista de todos. Perguntados por que agiam assim, responderam: porque somos cristãos.

Nada aconteceu num primeiro momento, mas pela noite foram sequestrados pela polícia que os levou ao juiz. Este tentou de todas as maneiras evitar que fossem condenados à morte, fazendo-os negar sua fé. Mas eles se mantiveram firmes. Os quatro foram presos e narra-se que durante esse período vários fenômenos foram presenciados pelos carcereiros como luzes, vozes, visões e o prodígio das algemas se abrirem, como ocorreu com São Pedro, conforme é narrado nos Atos dos Apóstolos (2).

Por fim, no dia 27 de julho, o alcade, ou prefeito da cidade, tentou mais uma vez fazê-los desistir, negando publicamente a fé e como isso não aconteceu foram degolados os cinco: Aurélio, Natália, Félix, Liliosa e o monge Jorge.

Santo Eulógio, que foi testemunha dos fatos e por quem nos chegou essa narrativa diz daqueles casais que “belos e amáveis são os santos de Deus, amaram-se docemente durante a vida e não quiseram separar-se durante a morte”.

Esta história nos chama a atenção em diversos aspectos. O fato dos carrascos terem sido muçulmanos é apenas um acidente histórico e não nos deve chamar a atenção, sabemos por diversas histórias de outros santos que muitas vezes os carrascos foram os próprios católicos. Também não devemos ter o martírio como meta de vida religiosa, isso seria um absurdo para seguir o Deus que é o Deus da vida e não da morte. Esta é uma situação rara, um dom de Deus que concede forças e sabedoria, mas não deve ser procurado em si mesmo. Grandes Santos como Santo Antônio queriam fazer-se mártires e Deus não o permitiu. O martírio deve ser visto apenas como uma medida da radicalidade com que se entregaram a Deus.

Chama a atenção a gravidade que Aurélio enxergou na covardia. E hoje, quantas vezes deixamos que homens e mulheres inocentes sejam difamados publicamente sem fazer nada. Muitas vezes, e infelizmente muitas vezes dentro da Igreja, porque discordamos de 3 ou 4 pontos irrelevantes de alguém, deixamos que o maltratem e preferirmos nos unir aos carrascos, rindo de uma vítima inocente, a enfrentar a opinião pública para fazer justiça. Os Salmos falam diversas vezes sobre o justo que é difamado e que seu socorro vem do Senhor, devemos esperar o nosso próprio socorro do Senhor, mas devemos ainda, como falam os mesmos Salmos, o Evangelho e toda Tradição, socorrer aos nossos irmãos, amigos e a todas as pessoas que injustamente forem assim ofendidas.

Outro ponto que também entra em choque com a opinião pública corrente é o fato de Aurélio e Natália terem preferido ver suas filhas sem os pais a deixá-las sem uma verdadeira educação cristã. Eles tinham plena consciência que o melhor que poderiam deixar para suas filhas era uma fé autêntica, segura. E pagaram um alto preço por isso. Hoje em dia, em que a conveniência determina boa parte do nosso comportamento, devemos nos deixar iluminar pelo exemplo desses santos que tinham excelentes motivos para não viverem e não declararem publicamente sua fé: poderiam dizer que necessitavam manter a carreira para poder manter o padrão de vida dos filhos, ou ainda que deveriam proteger seus filhos da violência. Mas preferiram a verdade à conveniência.

Podemos ainda notar que muitos outros católicos naquela mesma cidade e naquele mesmo ano preferiram a conveniência. Como repetidamente acontece ao longo da história, é triste ver como se cumpriu tantas e tantas vezes a profecia que diz “este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (3). Por outro lado, esse fato mostra que para compreendermos a fé e os frutos que ela gera no coração do homem, como no caso destes mártires de Córdoba, não podemos considerar a média do pensamento de uma época, pois a média, raro algumas exceções, é infiel. Para compreender o verdadeiro efeito da fé na alma humana é preciso observar a pequena comunidade dos santos, daqueles que efetivamente a aplicaram em suas vidas(4).

E por fim, é interessante nos determos sobre o ato de “desobediência civil” de Natália e Liliosa: descobrir a cabeça. Fala-se muito da emancipação feminina. Sem dúvida que um melhor tratamento das mulheres, ao menos em certos aspectos, é uma das grandes conquistas do século XX. Mas por que desobedecer, resistir? Natália desobedeceu ao sistema de leis e costumes vigentes em Córdoba no século IX não somente para afirmar sua total independência a um sistema opressor, mas também para dizer que há um sistema de leis superior a este, que verdadeiramente governa e liberta o homem. Que a Revelação que recebemos, guardamos e professamos de que há um Deus e que Ele é Amor vale mais do que a nossa própria vida. Ela entregou-se à morte para que suas filhas pudessem obedecer essas leis livremente.

No mundo em que tantos preferem a conveniência, é preciso encher-se de ânimo e lembrar-se da dignidade e da grandeza que a vida humana pode alcançar quando se deixa levar pelas inspirações da graça, como a destes cinco “consagrados” que entregaram suas vidas, quatro esposos e um religioso. E para podermos viver esta realidade pelo menos em uma pequena medida do que viveram Aurélio e Natália, talvez nos valha aprender do exemplo deles, começando com os mesmos passos singelos que deram inicialmente: a oração, o jejum, a esmola e a leitura de bons livros, livros de pessoas melhores que nós e que nos inspirem.

(1)    Lc 23,43
(2)    At 12,7
(3)    Is 29,13 e Mc 7,6
(4)   Sobre a necessidade de se compreender o Evangelho pela vida dos santos há um pequeno trecho a este respeito em “Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição” de Bento XVI

   O texto é baseado no trabalho de um padre das equipes de Nossa Senhora que atuou no Peru e nos EUA chamado "Matrimonios Santos: los santos casados como modelos de espiritualidad conyugal", com alguns exemplos de santos casados. O material chegou para mim sem a assinatura do padre, portanto não tenho o nome, mas posso enviar por email a quem desejar.

É IMPORTANTE RESSALTAR QUE HÁ CONTROVÉRSIAS ACERCA DA NECESSIDADE DOS CRISTÃO DESSA ÉPOCA SE EXPOREM AO MARTÍRIO E SOBRE A FORMA QUE OS CRISTÃOS DE CÓRDOBA SE COMPORTARAM DIANTE DA DOMINAÇÃO MUÇULMANA QUE FOI RELATIVAMENTE TOLERANTE COM O CULTO CRISTÃO, SEM PROIBI-LO










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Família II


Ainda vivendo o tempo do Natal em que celebramos a Sagrada Família e a festa de “Maria, Mãe de Deus” pode ser interessante nos perguntar: hoje, para que serve um homem dentro de casa?

O movimento feminista trouxe grandes mudanças para a vida das mulheres nos últimos 40, 50 anos. Mas não só para a vida das mulheres, a vida dos homens, principalmente no seio das famílias, também se alterou sensivelmente. Se olharmos os mais diversos indicadores socioeconômicos, veremos que nas últimas quatro décadas o padrão de vida das mulheres melhorou consideravelmente (1). Entretanto, se olharmos, os indicadores de felicidade das mulheres, veremos que elas se encontram mais infelizes do que no passado. Este paradoxo é conhecido como o “paradoxo do declínio da felicidade feminina” (2). Este fenômeno amplamente estudado em economia é desconhecido do grande público e contrasta com a opinião geral apresentada pela mídia.

E acredito que aqui é onde o impacto gerado pela mudança de comportamentos das mulheres se entrelaça com as mudanças ocorridas entre os homens.

Podemos conduzir essa discussão levados apenas por uma certa curiosidade sociológica, ou ainda imaginando diferentes cenários para os papeis que homens e mulheres devem desempenhar na família de difícil experimentação. Mas não penso nessa direção. Tento responder à pergunta que me faço muitas vezes: como melhor servir à minha esposa e minha filha? O que cabe a mim, como homem, prover para as pessoas que amo?

É comum as propagandas dos dias das mães ou do Dia Internacional da Mulher enaltecerem o fato das mulheres fazerem tudo o que fazem os homens (e obviamente não há nenhum mal nisso). A tal ponto que hoje me pergunto se o homem não seria apenas uma mulher que não engravida,rs. Pensando nessa direção, inevitavelmente chegaríamos à conclusão de que os homens seriam apenas supérfluos e que num futuro distante de ficção científica poderiam ser simplesmente suprimidos, rs. E aí a humanidade estaria liberta de toda forma do machismo e de toda opressão milenar dos homens contra as mulheres, rs.

É bastante absurdo pensar assim. Mas será que conseguimos achar realmente um argumento convincente para não pensar assim? Pois para que possamos contra-argumentar, necessitamos então dizer em que o homem é necessário e que ele tem uma missão particular dentro da sociedade, mas é curioso perceber como somente por levantar estas questões, muitos de nós, homens por volta dos seus 30 anos, já nos sentimos machistas.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores sobre o declínio da felicidade feminina nas últimas décadas é a sobrecarga emocional que as mulheres têm sofrido depois de sua emancipação econômica. No modelo familiar tradicional, que perdurou até os anos 60, os homens eram responsáveis por prover financeiramente a casa e dar-lhe segurança ao passo que cabia às mulheres o governo das relações familiares e a economia doméstica.

No novo modelo que vivemos, as mulheres acumularam às suas responsabilidades a corresponsabilidade pelo provimento da casa. Entretanto esta sobrecarga não se explica pelo acúmulo de jornada dupla – o que também é um fato seja nos países em desenvolvimento, seja na Suécia ou na Noruega – segundo os pesquisadores, pois se olharmos o total das horas trabalhadas, veremos que as mulheres trabalham consideravelmente menos que seus pares da década de 60. É uma sobrecarga emocional. Curiosamente, a felicidade dos homens, lembrando que neste texto falamos de felicidade como um índice de satisfação sem grandes considerações teóricas, tem aumentado.

Me pergunto se parte desta crescente insatisfação feminina não se deve ao fato de nós, homens, não estarmos fazendo nossa parte.

Mas qual é a nossa parte? Se olharmos para as décadas anteriores, muitas vezes encontraremos apenas o arquétipo do homem caçador, provedor de segurança, que fazia muito sentido e era extremamente útil numa sociedade rural (é importante notar que foi somente nesta década que a população urbana alcançou a população rural), mas não faz muito sentido na nossa vida metropolitana de hoje. Já o modelo vigente, em que o homem é muitas vezes apenas um apêndice romântico da mulher, que carrega as compras e diz palavras doces, mas que deixa para a mulher todas as decisões difíceis da vida, também não me parece um ideal que corresponda à nossa natureza.

Acho que para tentar lançar luzes sobre essa questão pode ser muito válido olharmos para a figura de São José.

O primeiro ponto que me chama a atenção na figura do Santíssimo José é que nele vemos que autoridade não se confunde com protagonismo. É a Virgem Maria, a Imaculada, a Mãe do Salvador, que estará aos pés da Cruz no momento mais dramático da história da Salvação e será Ela que irá conferir unidade e segurança à Igreja nascente antes do Pentecostes. Não temos como dizer que Ela não seja protagonista na história de Nazaré, não há como dizer que Ela ocupava na família uma mera posição de auxiliar, de assistente, de subjugada.

Entretanto, mesmo sendo clara a missão particular da Virgem Maria, quis Deus que fosse José responsável por ela. E é nisso que se resume a autoridade de José, responsabilidade por Maria, protegê-la e servi-la, para que ela cumprisse sua missão, que sendo os esposos um só coração, é missão de toda família.

José soube decidir sob condições difíceis, confusas. Muitas vezes nos vemos em situações em que não compreendemos a vontade de Deus, em que aquilo que Deus nos apresenta parece contraditório. Mas que contradição pode ser maior do que a que viveu José ao receber Maria grávida depois da visita à Isabel? Como elaborar interiormente este fato? A contradição, a confusão e a angústia porque passou José devem ter sido terríveis. Como a criatura mais bela de Deus, a mais bela e encantadora das mulheres que ele havia conhecido aparece assim, de repente grávida? E as alegrias que ele antevia no casamento, o respeito, a admiração por Maria? E o respeito por Deus, que afinal de contas tinha colocado Maria em seu caminho? Que contradição terrível!

Me chama a atenção o fato de José não ter fugido de tomar uma decisão. E não ter abandonado a Deus. Diante de duas coisas aparentemente contraditórias: a santidade evidente de Maria e o fato dela estar grávida, ele escolheu não denunciá-la, para não punir aquela que de uma forma que ele não compreendia, parecia ser inocente. Por outro lado, não aceitou ficar com Maria, pois não seria justo nem segundo a Lei e nem segundo os Profetas conviver com uma mulher sob uma incerteza tão grande e a possibilidade de uma traição tão gritante.

Quando o anjo aparece em sonho a José dizendo “Não temas receber Maria...” é importante meditarmos sobre o que José não deveria temer. José não deveria temer ofender a Deus, era esta sua preocupação. Ele temia começar uma casa sob pecado. E José foi tão fiel ao mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas, que teve dúvida em conviver com a mulher mais encantadora que já existiu por medo de ofender a Deus...e quantos de nós aceitamos viver situações de evidente pecado por simplesmente não controlarmos nossos instintos!

José nos lembra da dignidade de cada homem, imagem e semelhança de Deus. Uma dignidade elevada, mas que não se faz orgulhosa, nem arrogante. Isso também se percebe quando precisou levar a família de Nazaré para o Egito. Aqui duas coisas me chamam a atenção: primeiro o fato dele, descendente da nobreza de Israel se submeter a levar seu filho para a terra em que seus antepassados foram escravos. Que contradição! Se seu filho vinha para ser um grande rei e restaurar o trono de Davi, como entender então sua situação de humilde carpinteiro fugindo para o Egito, a terra dos escravos! Mais uma vez contradição, mais uma vez decisão, mais uma vez destemor.

Outro ponto é o fato de o anjo ter ajudado a José. Mesmo sendo ele o responsável pela Sagrada Família, mesmo sendo um homem de grande valor, era limitado. Não podia prever todas as situações de perigo. Limite este ao qual ele teve que humildemente ceder quando deixou nesta terra seu filho adolescente e a Mãe de Deus. Morte contraditória esta, diz a tradição da Igreja, teve na terra o que todos almejamos encontrar no Céu: os braços do Senhor e da Virgem Maria. Como seria o futuro do menino, agora homem, Jesus? Não era ele o responsável por este que agora teria que deixar? José já tinha cumprido sua parte, ele não era onipotente, era preciso que este menino que já se tornou homem cumprisse a sua missão.

Onde acabam as forças humanas, José foi auxiliado por Deus. Limitado como todos nós, não poderia prever e nem suprir tudo. E um anjo lhe veio avisar do perigo que corriam quando perseguidos por Herodes. Isto serve de grande consolação para mim, que sou pai e limitado. E percebi isto de forma bastante concreta em uma situação que vivi recentemente (3).

É muito belo observar como a dignidade de José caminha junto com a humildade e como sua autoridade é silenciosa e nunca prepotente, mas sempre a serviço. Pois a sua esposa era a mais santa das mulheres e seu filho simplesmente o próprio Deus. Nesta nossa era de conflito de gerações em que alguns pais ficam desesperados sobre a possibilidade de alguns filhos saberem mais do que eles em alguns assuntos (e apenas alguns) é uma grande lição esta humildade de José. Autoridade para ele sempre foi serviço, humildade e silêncio. Autoridade não é mandar e nem saber mais, é servir.

Mas como servir? O que me é mais próprio enquanto homem servir? Não acredito que haja áreas de atuação exclusivamente dos homens ou das mulheres, mas penso que dentro da família podemos perceber traços preponderantes. E não digo que esses traços devam ser pensados em oposição um ao outro, mas apenas como mais conforme à natureza de cada um, suas capacidades físicas e psíquicas próprias, e que divergem entre os gêneros. Isto a sensibilidade de todos pode atestar.

Maria foi a grande protagonista da família de Nazaré, mas José não fugiu da sua responsabilidade. Ele soube ser segurança, estabilidade e força quando foi necessário e tomou decisões difíceis. José não se debulhou em lágrimas diante dos perigos que surgiam e também não teve medo de assumir a maior responsabilidade que já coube a um pai: proteger Jesus e Maria, os mais preciosos tesouros que podem existir. Ambos frágeis e deixados em suas mãos.

Cada um de nós carrega tesouros frágeis que Nosso Senhor colocou em nossas mãos(4). Eu não quero fugir de minha responsabilidade. Que Deus nos dê a graça de quando aparecerem situações difíceis e contraditórias, em que as luzes da fé e da razão falharem, saibamos decidir com firmeza e confiança, sem covardia, sem entregar aos outros decisões que nos cabem, sendo um porto seguro, uma referência de estabilidade e de justiça, como foi o Santíssimo José para Jesus e Maria. 

(1) Uma entre as diversas pesquisas que corroboram a afirmação acima pode ser vista em: http://www.nber.org/papers/w14969.pdf?new_window=1

(2)     A primeira vez que tomei conhecimento do tema foi por meio do Handbook on the Economics of Happiness de Luigino Bruni, professor da Università di Milano-Bicocca da University de East Anglia, parecerista de algumas das principais revistas internacionais de economia, autor de temas ligados ao Movimento Economia da Comunhão do Movimento dos Focolares, uma das maiores autoridades mundiais em Economia da Felicidade.  O livro pode ser baixado no Google Books. Também podem ser encontrados diversos artigos sobre o tema, como o mencionado na nota (1)  da NBER, uma das principais revistas de economia do mundo: http://www.nber.org/papers/w14969.pdf?new_window=1

(3)     Por volta do dia 15 de setembro de  2011  viajei para o interior para a casa dos meus pais. Chegando na cidade, o carro começou a fazer um barulho estranho, cheguei em casa e assim que coloquei o carro na garagem ele literalmente travou, não ia nem para frente nem para trás. Depois vimos que os rolamentos de uma das rodas traseiras simplesmente se fundiram. Logo percebemos uma pequena graça, pois como pode um carro travar depois de 400km de viagem somente quando estou dentro da garagem? Qual a probabilidade disso? E tendo depois percebido o que aconteceu, poderíamos ter sofrido um acidente grave, talvez até morrido, se isso ocorresse 15 ou 20 min antes. Imediatamente atribuímos essa graça a São Miguel, a quem tínhamos rezado durante essa Quaresma de São Miguel. Se cumpriu exatamente o que diz um dos textos da Quaresma: "me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence, debaixo da vossa poderosíssima proteção...dignai-vos desde então velar sobre os nossos interesses espirituais e temporais". São Miguel, rogai por nós!

(4)   Quando falo frágeis, não quero dizer que as mulheres seriam mais frágeis do que os homens, até porque foi Maria quem esteve aos pés da Cruz e foi sua alma a trespassada  por uma espada de dor, alguns santos chegam até a pensar que Deus permitiu que José morresse antes por não porque sabia que ele não suportaria ver Jesus na Cruz. Digo frágeis no sentido de morrerem, estarem sujeitas ao acidente e à morte e pensar que Maria e Jesus estivessem sobre minha responsabilidade nessas condições me parece algo terrível, e que seria preciso ter muita coragem e confiança em Deus para suportar.

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