UMA BREVE CRÍTICA À MARCHA DAS VADIAS


Breve mesmo.

Para quem não acompanhou pode-se ver um pouco sobre a marcha aqui (1) e sobre seu incidente com a Igreja Católica aqui (2).

É interessante que a marcha defende a liberdade feminina  ao mesmo tempo em que promove uma forma de se vestir que é o sinal da submissão feminina como objeto de desejo masculino. Uma marcha sobre “a liberdade de se vestir como se quer” seria algo como a Marcha do Moletom, e não esta. Mulheres de pijama, sem maquiagem e com roupas folgadas pedindo respeito e solidariedade a todas as mulheres, inclusive nos temas graves como a violência doméstica e sexual.

Mas da forma como foi, a marcha agradou aos homens (machistas).

Para mim soou tão contraditório quanto uma marcha de escravos ostentando as algemas para dizerem que são livres, gritando que usam as algemas quando querem.


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Legião Urbana, Jejum e Pecado


Subsídios para a quaresma

Eu penso que ficar procurando sentido em letras de música é um pouco como olhar desenho em nuvens. Cada um acaba achando o que quer e muitas vezes com mais propriedade que o autor, rs. Mas como minha irmã artista diz que o espetáculo vale pela impressão que ele nos causa, bem, aí segundo esse conceito posso falar do desenho que eu vi nas nuvens. Renato Russo não foi propriamente um exemplo de cristão, mas acho interessante ele ter em diversas músicas tocado em alguns temas profundamente católicos, a ponto de saber, inclusive, cantar o Cordeiro.

Não há como negar o impacto da Legião nos jovens da década de 80 e começo da década de 90 e mesmo ainda hoje, depois da morte de Renato Russo. Ele conseguiu ser a voz de uma juventude brasileira metropolitana que estava começando a se formar, conseguiu expressar bem seus dramas existenciais. E convenhamos, com bastante propriedade: “somos filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, geração Coca-Cola”. Pois é, o futuro chegou e Renato acertou.

Para mim, algumas letras tocam no ideal de leveza e simplicidade que tenho como profundamente cristãos: a alegria do convívio, a fidelidade, a cumplicidade. Cito por exemplo as letras de Descobrimento do Brasil, Giz, O Mundo Anda Tão Complicado e outras que no final reservam uma ideia de redenção como Perfeição. Claro, outras tantas não passam nem perto desses temas.

Já em Monte Castelo, o tema cristão é evidente, trata-se de Coríntios 13 cantado. Não se pode dizer que Renato Russo fosse católico – na verdade desconheço sua posição religiosa – e nem que ele cantasse como um cristão convicto. As músicas carregam muitas vezes um tom melancólico, bem distante da convicção serena e alegre dos que verdadeiramente creem. Mas tocam, ainda que na superfície, em importantes temas católicos.

De qualquer maneira, é interessante o fato de que os ideais cristãos estejam ali. Lembro-me de quando li o testemunho de Elizabeth Dodd, uma jovem wicka que se converteu recentemente ao catolicismo (1), ela mencionava que uma das coisas que atraiu sua curiosidade para o catolicismo era o fato de que em filmes de terror feitos em países não-católicos, os exorcistas ainda assim eram todos padres. Como se no imaginário coletivo, para se referir a uma luta entre o bem e o mau por excelência fosse necessário um demônio medieval e um padre paramentado.

E assim me chama a atenção o fato de temas católicos terem aparecido também em músicas populares. Os símbolos católicos e a história da Igreja, apesar de enormemente deturpada (o que não quer dizer que não existam graves erros dos católicos ao longo da história) ainda exerce uma forte influência cultural, mesmo que velada.

E há uma música em particular da Legião Urbana que gosto muito, Metal contra as Nuvens que acho que permite, com as reservas já colocadas acima, um paralelo entre a letra e um aspecto da vida na fé. Metal contra as Nuvens é pouco conhecida fora do círculo dos fãs da Legião, é muito longa, tem 11 minutos. Talvez valha a pena conferi-la aqui: http://www.youtube.com/watch?v=40A4fhCTSqs para poder acompanhar o resto deste post.

A música fala de um cavaleiro medieval cansado que foi enganado e se sente desiludido. A música começa com uma melodia melancólica, passa para um momento de ira em que o personagem se dirige com ódio àqueles que o traíram, depois há um momento de drama em que o personagem como que recupera sua energia para enfrentar novamente seus traidores e termina em um tom leve, alegre e esperançoso.

O que me atrai nesta música é o fato de poder, pelo menos penso assim – lembremos que aqui estamos falando do meu desenho nas nuvens – associá-la à ascese cristã, à luta contra o pecado, este mau, esta gravidade que sempre nos arrasta para baixo. E aqui é interessante pensar no pecado não tanto quanto crime, mas mais como enfermidade, doença. Um mau que se não for curado leva à nossa autodestruição e a destruição de nossos próximos.

O mau é um bem aparente já dizia Santo Agostinho e nosso primeiro ato quando pecamos é cair em uma profunda ilusão.

O filme “As Crônicas de Nárnia”, na verdade uma excelente catequese católica, mostra bem este ponto quando apresenta um dos personagens, Edmundo, traindo seus amigos em troca de um manjar que na verdade não passava de um pedaço de neve. De fato, o pecado, o mau, é apenas um pedaço de neve que se derrete ao sol, prazer passageiro que tomamos como se fosse um manjar.

E podemos fazer um paralelo que é bastante polêmico para a sociedade contemporânea, a relação entre sexo e pecado.  Não ignoro que muitas pessoas, mesmo vivendo fora da castidade e do casamento cristão caminham na direção de uma relação de entrega plena e de fidelidade, como uma espécie de “casamento de desejo”, para fazer um paralelo com o “batismo de desejo” de São Tomás, pessoas que desconhecendo o ideal do casamento cristão, o vivem quase que plenamente, embora sem saber.

Mas também não ignoro que esses casos são raros e que muitos dos que querem se classificar na condição acima muitas vezes estão apenas procurando justificativas para seus erros, e aqui falo somente para católicos praticantes.

Por que o sexo fora das muralhas do casamento seria pecado, se é apenas prazer e cumplicidade? Mas na nossa sociedade extremamente erotizada não é justo perguntar também se em muitos casos (e não em todos é verdade) sob a aparência de cumplicidade não não há apenas falta de autodomínio, e o sexo é assim  não uma expressão da vontade, mas apenas da fraqueza de ceder a um instinto? Ou ainda a ausência de comprometimento? Pois se há amor, por que não pode ser manifestado com um gesto público e solene, como merece um compromisso de entrega mútua?

Claro, sempre há exceções, como aqueles que caminham nessa direção, mas ainda de forma imperfeita ou fraca. Ou ainda traumas e marcas que a vida deixa que levam algumas pessoas a desprezar ou mesmo a ver como excessivamente desafiadora a virgindade. Tão pouco pretendo me colocar como referência nesse assunto. Quero sim tratar de um tema que está no centro de nossa vida e que é importante para nossa felicidade. Nesta terra e na futura.

Mas se não há essa entrega, não há compromisso, o que há então? Dois seres humanos usufruindo dos corpos um do outro por puro prazer (quer sejam casados ou não)? Será que a medida de todas as coisas deve ser o sexo? Ou o amor, que vai infinitamente além deste? E o que será quando a vida me pedir autodomínio, quando chegar a doença, a velhice ou as dificuldades do dia-a-dia? Um amor que se confundiu com vício será capaz e sobreviver a estas provas?

Mais cedo ou mais tarde este lapso, se não remediado, irá cobrar o seu preço, basta ver como nossa cidade está cheia de pessoas confusas, afetivamente imaturas e infelizes, embora sexualmente muito ativas.

Obviamente não basta controlar-se sexualmente para ser considerado santo, “há muitas almas virgens no inferno” já dizia um certo santo, Santo Agostinho acho. Dizia ainda que se podem achar muitas almas que não foram castas no Céu, mas com certeza nenhuma orgulhosa. E o orgulho é, por sua vez, outra ilusão.

Se não nos confrontamos honestamente com o ideal cristão e a vida dos santos, por medo de perder uma suposta autonomia intelectual em que eu mesmo faço meus critérios, e aqui falo somente aos católicos praticantes, enganando-nos a nós mesmos, corremos o risco de ir para o inferno por não termos tido coragem de olhar para o Céu. A verdadeira autonomia é procurar respostas e quando encontra-las viver de acordo com elas. Há quem queira ficar eternamente em dúvida por medo do que as respostas possam lhe pedir.  Mas é a verdade que nos libertará. E Deus é bom, está é a verdade.

A humildade é a primeira das virtudes. Reconheçamos nossos próprios erros ao invés de justifica-los. Pois, e esta é uma das coisas mais belas da fé católica, estamos todos a apenas uma confissão do Paraíso. Não se pedem atos heroicos, e nem um grande sacrifício, nem mesmo uma mudança de vida perfeita e instantânea – o que seria desumano, se pede apenas o desejo sincero de recomeçar.

Bem, voltando à música.

O refrão de Metal contra as Nuvens “Eu sou metal/ raio, relâmpago e trovão/ Eu sou metal/ Eu sou o ouro em seu brasão”, é uma bonita autoafirmação de um homem que diante de uma situação adversa se lembra da sua própria dignidade. E aqui também vejo um belo paralelo entre a música e nossa ascese de cada dia para lutar contra nossos próprios pecados. É preciso recuperar aquele brio que tinham os primeiros cristãos e que têm os santos. Diante do pecado que quer nos rebaixar devemos lembrar que somos uma raça de “sacerdotes, profetas e reis”, de homens livres, que não aceitam ser escravos.

Quantas mulheres hoje aceitam que todos os homens são infiéis e que a vida é assim mesmo? Quantos homens aceitam passivamente o jogo político e de interesses em cada local de trabalho deste país e aceitam isso como natural? Não podemos aceitar viver assim.

E diante dessas mentiras sobre a natureza humana, apresentada cada vez mais como mais decaída, devemos erguer nossa voz interior e nos lembrar da dignidade de Nosso Pai, do que somos realmente feitos e a que preço fomos salvos. Eu não posso aceitar que os casais briguem de vez em quando e isso seja normal. Não posso aceitar que me sinta atraído por todas as mulheres que passem na rua e considerar isso normal (desde que meus pensamentos não venham a público), não posso aceitar deixar que um colega de trabalho seja injustiçado porque essas coisas são assim mesmo...

Tendo consciência que de fato existe um Deus, e que Ele se fez homem em Jesus Cristo Nosso Senhor, quero amar minha esposa de todo coração e ser paciente e sereno, quero ser leal aos meus amigos, corajoso, destemido e quero ser casto no mais íntimo dos meus pensamentos. Sabendo que o homem é de tal maneira amado por Deus e que por causa dEle sua dignidade é infinita, não podemos aceitar ser uma criatura caprichosa, frívola e inconstante. Devemos nos revoltar contra essas afirmações.

E é importante lembrar que o desejo de perfeição, de santidade, não significa santidade. E o desejo de perfeição deve crescer na mesma medida em que crescemos em misericórdia para com os outros e para conosco mesmos. Do contrário, apontando na direção do amor seríamos carrascos uns dos outros, o que é totalmente absurdo para a lógica de um Deus que morreu por amor a nós, quando estávamos todos (e ainda estamos) no pecado, quando nem sequer o conhecíamos. Morreu apenas pela vaga possibilidade de que fôssemos salvos, morreu por amor somente, sem garantias de que seria amado.

E voltando à música novamente, outro verso que acho particularmente forte é quando na parte mais dramática da música o personagem canta “não me entrego sem lutar/ tenho ainda coração/ não aprendi a me render/ que caia o inimigo então”. O cristão não é um homem passivo. Tão pouco um submisso, ou pior ainda, um desiludido melancólico. É um violento (no sentido evangélico do termo, claro), um revolucionário (no sentido deste texto, claro de novo, rs), alguém que não se submete às leis deste mundo, que tendo mil vezes caído no mesmo pecado, mil e uma vezes se levantará, pois não aceita, não se rende. Não se submete às leis do pecado, embora possa muitas vezes ter sido feito cativo por elas.

Eu me lembro das muitas vezes em que me vi prostrado pelos meus próprios pecados. Lembro que muitas vezes a única coisa que me movia adiante era não aceitar que a história terminasse assim. Como alguém que viu o Senhor pode agir tão mal assim?  Me perguntei isso muitas vezes. Tem sido um longo aprendizado. Vejo na vida de muitas pessoas e na minha também que Deus tem vencido, que não nos abandona à nossa própria sorte e que ao menor sinal de perseverança Ele nos cumula de todas as dádivas e bênçãos, o esforço que Ele nos pede é infinitamente pequeno em relação ao bem que nos dá.

Mas o que gostaria de ter ouvido ainda adolescente é que não se deve ter medo de lutar contra o pecado. O pecado é um assassino, um estuprador, um mentiroso que não nos traz bem nenhum e é preciso voar sem medo e ir de corpo inteiro ao seu embate, com coragem, certos da vitória, com a espada em riste, pois a única possibilidade de derrota que temos nesta batalha é não lutar.

E concluindo com a música:

“E nossa história não ficará, pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar. E até lá, vamos viver, temos muito ainda por fazer, não olhe para trás, apenas começamos. O mundo começa agora. Apenas começamos”.

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Família II


Ainda vivendo o tempo do Natal em que celebramos a Sagrada Família e a festa de “Maria, Mãe de Deus” pode ser interessante nos perguntar: hoje, para que serve um homem dentro de casa?

O movimento feminista trouxe grandes mudanças para a vida das mulheres nos últimos 40, 50 anos. Mas não só para a vida das mulheres, a vida dos homens, principalmente no seio das famílias, também se alterou sensivelmente. Se olharmos os mais diversos indicadores socioeconômicos, veremos que nas últimas quatro décadas o padrão de vida das mulheres melhorou consideravelmente (1). Entretanto, se olharmos, os indicadores de felicidade das mulheres, veremos que elas se encontram mais infelizes do que no passado. Este paradoxo é conhecido como o “paradoxo do declínio da felicidade feminina” (2). Este fenômeno amplamente estudado em economia é desconhecido do grande público e contrasta com a opinião geral apresentada pela mídia.

E acredito que aqui é onde o impacto gerado pela mudança de comportamentos das mulheres se entrelaça com as mudanças ocorridas entre os homens.

Podemos conduzir essa discussão levados apenas por uma certa curiosidade sociológica, ou ainda imaginando diferentes cenários para os papeis que homens e mulheres devem desempenhar na família de difícil experimentação. Mas não penso nessa direção. Tento responder à pergunta que me faço muitas vezes: como melhor servir à minha esposa e minha filha? O que cabe a mim, como homem, prover para as pessoas que amo?

É comum as propagandas dos dias das mães ou do Dia Internacional da Mulher enaltecerem o fato das mulheres fazerem tudo o que fazem os homens (e obviamente não há nenhum mal nisso). A tal ponto que hoje me pergunto se o homem não seria apenas uma mulher que não engravida,rs. Pensando nessa direção, inevitavelmente chegaríamos à conclusão de que os homens seriam apenas supérfluos e que num futuro distante de ficção científica poderiam ser simplesmente suprimidos, rs. E aí a humanidade estaria liberta de toda forma do machismo e de toda opressão milenar dos homens contra as mulheres, rs.

É bastante absurdo pensar assim. Mas será que conseguimos achar realmente um argumento convincente para não pensar assim? Pois para que possamos contra-argumentar, necessitamos então dizer em que o homem é necessário e que ele tem uma missão particular dentro da sociedade, mas é curioso perceber como somente por levantar estas questões, muitos de nós, homens por volta dos seus 30 anos, já nos sentimos machistas.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores sobre o declínio da felicidade feminina nas últimas décadas é a sobrecarga emocional que as mulheres têm sofrido depois de sua emancipação econômica. No modelo familiar tradicional, que perdurou até os anos 60, os homens eram responsáveis por prover financeiramente a casa e dar-lhe segurança ao passo que cabia às mulheres o governo das relações familiares e a economia doméstica.

No novo modelo que vivemos, as mulheres acumularam às suas responsabilidades a corresponsabilidade pelo provimento da casa. Entretanto esta sobrecarga não se explica pelo acúmulo de jornada dupla – o que também é um fato seja nos países em desenvolvimento, seja na Suécia ou na Noruega – segundo os pesquisadores, pois se olharmos o total das horas trabalhadas, veremos que as mulheres trabalham consideravelmente menos que seus pares da década de 60. É uma sobrecarga emocional. Curiosamente, a felicidade dos homens, lembrando que neste texto falamos de felicidade como um índice de satisfação sem grandes considerações teóricas, tem aumentado.

Me pergunto se parte desta crescente insatisfação feminina não se deve ao fato de nós, homens, não estarmos fazendo nossa parte.

Mas qual é a nossa parte? Se olharmos para as décadas anteriores, muitas vezes encontraremos apenas o arquétipo do homem caçador, provedor de segurança, que fazia muito sentido e era extremamente útil numa sociedade rural (é importante notar que foi somente nesta década que a população urbana alcançou a população rural), mas não faz muito sentido na nossa vida metropolitana de hoje. Já o modelo vigente, em que o homem é muitas vezes apenas um apêndice romântico da mulher, que carrega as compras e diz palavras doces, mas que deixa para a mulher todas as decisões difíceis da vida, também não me parece um ideal que corresponda à nossa natureza.

Acho que para tentar lançar luzes sobre essa questão pode ser muito válido olharmos para a figura de São José.

O primeiro ponto que me chama a atenção na figura do Santíssimo José é que nele vemos que autoridade não se confunde com protagonismo. É a Virgem Maria, a Imaculada, a Mãe do Salvador, que estará aos pés da Cruz no momento mais dramático da história da Salvação e será Ela que irá conferir unidade e segurança à Igreja nascente antes do Pentecostes. Não temos como dizer que Ela não seja protagonista na história de Nazaré, não há como dizer que Ela ocupava na família uma mera posição de auxiliar, de assistente, de subjugada.

Entretanto, mesmo sendo clara a missão particular da Virgem Maria, quis Deus que fosse José responsável por ela. E é nisso que se resume a autoridade de José, responsabilidade por Maria, protegê-la e servi-la, para que ela cumprisse sua missão, que sendo os esposos um só coração, é missão de toda família.

José soube decidir sob condições difíceis, confusas. Muitas vezes nos vemos em situações em que não compreendemos a vontade de Deus, em que aquilo que Deus nos apresenta parece contraditório. Mas que contradição pode ser maior do que a que viveu José ao receber Maria grávida depois da visita à Isabel? Como elaborar interiormente este fato? A contradição, a confusão e a angústia porque passou José devem ter sido terríveis. Como a criatura mais bela de Deus, a mais bela e encantadora das mulheres que ele havia conhecido aparece assim, de repente grávida? E as alegrias que ele antevia no casamento, o respeito, a admiração por Maria? E o respeito por Deus, que afinal de contas tinha colocado Maria em seu caminho? Que contradição terrível!

Me chama a atenção o fato de José não ter fugido de tomar uma decisão. E não ter abandonado a Deus. Diante de duas coisas aparentemente contraditórias: a santidade evidente de Maria e o fato dela estar grávida, ele escolheu não denunciá-la, para não punir aquela que de uma forma que ele não compreendia, parecia ser inocente. Por outro lado, não aceitou ficar com Maria, pois não seria justo nem segundo a Lei e nem segundo os Profetas conviver com uma mulher sob uma incerteza tão grande e a possibilidade de uma traição tão gritante.

Quando o anjo aparece em sonho a José dizendo “Não temas receber Maria...” é importante meditarmos sobre o que José não deveria temer. José não deveria temer ofender a Deus, era esta sua preocupação. Ele temia começar uma casa sob pecado. E José foi tão fiel ao mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas, que teve dúvida em conviver com a mulher mais encantadora que já existiu por medo de ofender a Deus...e quantos de nós aceitamos viver situações de evidente pecado por simplesmente não controlarmos nossos instintos!

José nos lembra da dignidade de cada homem, imagem e semelhança de Deus. Uma dignidade elevada, mas que não se faz orgulhosa, nem arrogante. Isso também se percebe quando precisou levar a família de Nazaré para o Egito. Aqui duas coisas me chamam a atenção: primeiro o fato dele, descendente da nobreza de Israel se submeter a levar seu filho para a terra em que seus antepassados foram escravos. Que contradição! Se seu filho vinha para ser um grande rei e restaurar o trono de Davi, como entender então sua situação de humilde carpinteiro fugindo para o Egito, a terra dos escravos! Mais uma vez contradição, mais uma vez decisão, mais uma vez destemor.

Outro ponto é o fato de o anjo ter ajudado a José. Mesmo sendo ele o responsável pela Sagrada Família, mesmo sendo um homem de grande valor, era limitado. Não podia prever todas as situações de perigo. Limite este ao qual ele teve que humildemente ceder quando deixou nesta terra seu filho adolescente e a Mãe de Deus. Morte contraditória esta, diz a tradição da Igreja, teve na terra o que todos almejamos encontrar no Céu: os braços do Senhor e da Virgem Maria. Como seria o futuro do menino, agora homem, Jesus? Não era ele o responsável por este que agora teria que deixar? José já tinha cumprido sua parte, ele não era onipotente, era preciso que este menino que já se tornou homem cumprisse a sua missão.

Onde acabam as forças humanas, José foi auxiliado por Deus. Limitado como todos nós, não poderia prever e nem suprir tudo. E um anjo lhe veio avisar do perigo que corriam quando perseguidos por Herodes. Isto serve de grande consolação para mim, que sou pai e limitado. E percebi isto de forma bastante concreta em uma situação que vivi recentemente (3).

É muito belo observar como a dignidade de José caminha junto com a humildade e como sua autoridade é silenciosa e nunca prepotente, mas sempre a serviço. Pois a sua esposa era a mais santa das mulheres e seu filho simplesmente o próprio Deus. Nesta nossa era de conflito de gerações em que alguns pais ficam desesperados sobre a possibilidade de alguns filhos saberem mais do que eles em alguns assuntos (e apenas alguns) é uma grande lição esta humildade de José. Autoridade para ele sempre foi serviço, humildade e silêncio. Autoridade não é mandar e nem saber mais, é servir.

Mas como servir? O que me é mais próprio enquanto homem servir? Não acredito que haja áreas de atuação exclusivamente dos homens ou das mulheres, mas penso que dentro da família podemos perceber traços preponderantes. E não digo que esses traços devam ser pensados em oposição um ao outro, mas apenas como mais conforme à natureza de cada um, suas capacidades físicas e psíquicas próprias, e que divergem entre os gêneros. Isto a sensibilidade de todos pode atestar.

Maria foi a grande protagonista da família de Nazaré, mas José não fugiu da sua responsabilidade. Ele soube ser segurança, estabilidade e força quando foi necessário e tomou decisões difíceis. José não se debulhou em lágrimas diante dos perigos que surgiam e também não teve medo de assumir a maior responsabilidade que já coube a um pai: proteger Jesus e Maria, os mais preciosos tesouros que podem existir. Ambos frágeis e deixados em suas mãos.

Cada um de nós carrega tesouros frágeis que Nosso Senhor colocou em nossas mãos(4). Eu não quero fugir de minha responsabilidade. Que Deus nos dê a graça de quando aparecerem situações difíceis e contraditórias, em que as luzes da fé e da razão falharem, saibamos decidir com firmeza e confiança, sem covardia, sem entregar aos outros decisões que nos cabem, sendo um porto seguro, uma referência de estabilidade e de justiça, como foi o Santíssimo José para Jesus e Maria. 

(1) Uma entre as diversas pesquisas que corroboram a afirmação acima pode ser vista em: http://www.nber.org/papers/w14969.pdf?new_window=1

(2)     A primeira vez que tomei conhecimento do tema foi por meio do Handbook on the Economics of Happiness de Luigino Bruni, professor da Università di Milano-Bicocca da University de East Anglia, parecerista de algumas das principais revistas internacionais de economia, autor de temas ligados ao Movimento Economia da Comunhão do Movimento dos Focolares, uma das maiores autoridades mundiais em Economia da Felicidade.  O livro pode ser baixado no Google Books. Também podem ser encontrados diversos artigos sobre o tema, como o mencionado na nota (1)  da NBER, uma das principais revistas de economia do mundo: http://www.nber.org/papers/w14969.pdf?new_window=1

(3)     Por volta do dia 15 de setembro de  2011  viajei para o interior para a casa dos meus pais. Chegando na cidade, o carro começou a fazer um barulho estranho, cheguei em casa e assim que coloquei o carro na garagem ele literalmente travou, não ia nem para frente nem para trás. Depois vimos que os rolamentos de uma das rodas traseiras simplesmente se fundiram. Logo percebemos uma pequena graça, pois como pode um carro travar depois de 400km de viagem somente quando estou dentro da garagem? Qual a probabilidade disso? E tendo depois percebido o que aconteceu, poderíamos ter sofrido um acidente grave, talvez até morrido, se isso ocorresse 15 ou 20 min antes. Imediatamente atribuímos essa graça a São Miguel, a quem tínhamos rezado durante essa Quaresma de São Miguel. Se cumpriu exatamente o que diz um dos textos da Quaresma: "me dou e me ofereço e ponho-me a mim próprio, a minha família e tudo o que me pertence, debaixo da vossa poderosíssima proteção...dignai-vos desde então velar sobre os nossos interesses espirituais e temporais". São Miguel, rogai por nós!

(4)   Quando falo frágeis, não quero dizer que as mulheres seriam mais frágeis do que os homens, até porque foi Maria quem esteve aos pés da Cruz e foi sua alma a trespassada  por uma espada de dor, alguns santos chegam até a pensar que Deus permitiu que José morresse antes por não porque sabia que ele não suportaria ver Jesus na Cruz. Digo frágeis no sentido de morrerem, estarem sujeitas ao acidente e à morte e pensar que Maria e Jesus estivessem sobre minha responsabilidade nessas condições me parece algo terrível, e que seria preciso ter muita coragem e confiança em Deus para suportar.

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Família


Um mal necessário? Casar e ter filhos para quê?!

Pensar sobre a família é uma discussão bastante pertinente para a véspera do Natal. Ainda mais nos dias de hoje. Certa vez um padre me disse que num levantamento informal na sua paróquia observou que apenas 50% dos casais que viviam juntos se casavam na Igreja. Hoje 40% dos casamentos com menos de 10 anos terminam em divórcio, taxa que tem aumentado a cada ano. Nos últimos dois anos esta taxa sofreu um acréscimo de 36% (1).

Se por um lado é triste observar a falência do casamento como instituição social, por outro lado esta crise acaba colocando em evidência uma dimensão que antes era pouco percebida do casamento, sua dimensão religiosa. Hoje parece mais claro que ou o casamento é alicerçado na fé ou sofre tantos ataques que não consegue permanecer em pé.

Toda crise também carrega em si uma purificação. Afinal, o casamento como instituição carregou uma série de práticas e valores nem sempre cristãos ao longo dos séculos e se o casamento natural como é conhecido de todos os povos pode entrar em extinção no Ocidente, o casamento cristão por sua vez sobreviverá. E sobreviverá mais cristão ainda, purificado daquilo que na verdade nunca lhe fez parte, como certas práticas machistas, ou o autoritarismo dos pais.

É um mistério muito grande pensarmos em Jesus no seio da família de Nazaré. Pois o Senhor viveu todos os sofrimentos, todos, ou melhor, todos com a exceção de um: o de não ser amado pelos pais. Jesus conheceu a fome, a pobreza, o exílio, a morte, a humilhação...mas não soube durante sua vida terrena o que é não ser amado pelos pais.

Será que dessa maneira Nosso Senhor nos mostra que a família não é algo externo a ser enfrentado, mas algo interno, de nossa constituição, interior e, portanto, inviolável? Será que assim Ele fala do papel fundamental de educadores dos pais, que não pode ser substituído, que é tão íntimo para os filhos que passa a ser parte deles?

Penso ainda nas mágoas e traumas que todos nós em maior ou menor grau carregamos de nossos pais. Esta dor Nosso Senhor não teve, apenas por compaixão. Penso que por isso deve olhar com profunda misericórdia sobre nós, sabendo que essas feridas são profundas, são alicerces mal feitos que comprometem todo edifício e que portanto atenuam aquilo que depois foi mal construído. Com seu Amor de Pai Nosso Senhor restitui esses alicerces.

E vamos assim descobrindo tesouros ocultos no patrimônio da Igreja, como por exemplo São João Crisóstomo que no século IV dizia para os esposos dizerem para suas esposas:

Tomei-te nos meus braços, amo-te e prefiro-te à minha própria vida. Porque a vida presente não é nada e o meu sonho mais ardente é passá-la contigo, de tal maneira que tenhamos a certeza de não ser separados naquela que nos está reservada [...]. Eu ponho o teu amor acima de tudo, e nada me seria mais penoso do que não ter os mesmos pensamentos que tu.

Este texto é parte do Catecismo da Igreja Católica e é tão belo quanto desconhecido(2).

Santa Isabel de Hungria, rainha e santa, dizia referindo-se ao seu marido:

Se eu amo de tal modo uma criatura mortal, como deveria amar ao Senhor imortal, dono da minha alma?

Ainda no tempo do Império Romano, muitas mulheres se convertiam ao cristianismo em busca de um “bom casamento”(3), já que os noivos cristãos não traiam e não abandonavam suas esposas. Lembrando que naquele tempo, ser abandonada pelo marido significava ficar sem fonte de renda, um objeto usado que ninguém mais iria querer. E é triste notar como muitos, com outras linguagens nos dias de hoje, acabam se conformando com esta mentalidade, trazendo de volta algo que o cristianismo já havia derrotado na história.

Uma história muito bonita é a de Luis Martin e Zélia Guérin que desejavam a vida religiosa, mas que por uma série de dificuldades e obstáculos não conseguiram e que por fim descobriram que sua vocação era, na verdade, o casamento. Casamento que teve muitas dores, como a perda de filhos, mas que foi muito feliz. Um dos filhos de Luis e Zélia Martin se tornou bastante conhecido: Santa Terezinha do Menino Jesus. Eles viveram no final do século XIX uma realidade que é muito importante para nossos dias: o casamento como uma via religiosa.

Não apenas como cooperação com a obra criadora de Deus por meio do nascimento e da educação dos filhos, o que já seria muito, mas como uma via de perfeição, de purificação interior, de ascese. Uma forma de ver de forma mais clara o rosto de Cristo e de torná-lo mais claro em nós.

Karl Rahner dizia que os cristãos de nosso tempo ou se tornariam místicos ou já não conseguiriam viver a fé. E penso que isso vale principalmente no âmbito familiar, é preciso saber, assim como a família de Nazaré, que não estamos somente cuidando da casa, ou de crianças, mas que em comunhão com Deus estamos salvando o mundo, por meio de pequenos sofrimentos que nos unem aos sofrimentos dEle.

Assim, todo o cuidado com os esposos e os filhos não são apenas gestos de ternura, de desapego, de dever. Essas coisas compõem, na verdade, um verdadeiro itinerário espiritual.

(3)     Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr, graduado em Harvard e PhD pela Universidade de Columbia

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As Mentiras que as Pessoas contam



Carreira, sexo e família

Uma vez, quando era estagiário de uma multinacional, numa reunião dos estagiários a diretora de RH disse que o plano da organização era que um dia nos tornássemos diretores. Eu contei 40 estagiários e vi apenas quatro diretores na empresa. E pensei comigo que havia alguma coisa errada com esse plano. 

Outro dia estava participando de uma entrevista de emprego e a responsável do RH me disse que eu seria entrevistado pela minha futura gerente, que fez questão de vir, mesmo tendo sofrido um acidente há poucos dias. A moça me disse isso com um ar de veneração pela chefe, verdadeiro exemplo de dedicação ao trabalho.

Mas quando chegou a gerente, não conseguia entender uma palavra do que ela dizia. Ela estava com os dois braços engessados e um aparelho na boca. Ela não se mexia direito e eu não conseguia entender o que ela falava. Para que isso?! Esta mulher não deveria estar em casa descansando? E também não seria mais produtiva assim? Acabei não ficando com a vaga por uma série de razões, mas a maneira como aquelas pessoas encaravam o trabalho me fez pensar que aquela não devia ser a maneira correta de se viver.

Muitas pessoas da minha geração compraram a ideia de que o trabalho é o lugar por excelência de realização pessoal. E muitos católicos vêem em assumir posições mais elevadas no trabalho uma meta de vida. E alguns chegam até o extremo de ver no sucesso profissional um sinal do amor de Deus e reclamam quando não são os escolhidos e quando não estão com as melhores posições! E esquecem completamente que não é o que mais trabalha que é o mais recompensado e nem o mais honesto o mais privilegiado e isso se apreende dos livros de sabedoria da Bíblia.

O mundo é bom e devemos procurar a felicidade. Mas sabendo que a felicidade completa existe somente em Deus, que a felicidade aqui neste mundo estará sempre sujeita à imperfeição e será, quando bem vivida, apenas semente de uma árvore que brotará para a eternidade.

É triste notar quantos católicos se fazem de cegos diante das trapaças, mesquinharias e mentiras que se tornou o ambiente de trabalho no mundo contemporâneo. E mais ainda quando não chamam essas coisas pelo nome e dizem fazer parte do trabalho, parte do relacionamento do dia-a-dia! Na verdade, deveria nos surpreender alguém que diz ter aderido à fé imaginar que pode encontrar uma realização completa neste mundo, afinal, se aderiu de verdade, por mais que se esforce, será sinal de contradição e irá gerar resistência e não aplauso da grande maioria das pessoas.

Não quero dizer que os cristãos devam viver emburrados no seu trabalho sem acreditar que algo de bom pode ser realmente feito. Podemos ser felizes. Mas não deste jeito, não nos rendendo a esta mentalidade.
Somos felizes quando vencemos o mundo. A vitória do Senhor foi a morte inglória seguida da Ressurreição para a vida nova. Assim, se nEle queremos encontrar a felicidade, devemos enfrentar nossas pequenas cruzes, buscar a verdade em todos os contextos, sempre mirando mais longe, para a vida que está além desta, sabendo que ter ou não ter reconhecimento não depende de mim. Pode ou não ser interessante nos desígnios de Deus, o que importa é que eu trabalhe bem, fazendo a minha parte com todo amor que eu puder, sendo este amor encarnado em gestos concretos. Querer ser o melhor é simplesmente pecado, querer ganhar cada vez mais para si é ganância. Assim como não defender alguém acusado ou maltratado injustamente é somente covardia. E não há bem nenhum nessas coisas.

O outro mito da minha geração é que a felicidade está associada diretamente ao sexo.

Mesmo bons católicos, muitas vezes se veem tão seduzidos por essa ideia que acabam criando uma espécie de cristianismo sexy, como se fosse possível algo desse gênero. Vão à Missa, rezam com frequência, conhecem os documentos da Igreja, mas lançam seu charme sobre qualquer pessoa do sexo oposto que passe e se acham românticos por fazerem isso. Pensam que ser cristão é ser delicado com as palavras, gentil, amável e...sedutor. Mas não é nada disso.

O cristão não é apenas um namorado ou uma namorada mais romântico ou dedicado. É alguém disposto a amar de corpo inteiro, de alma inteira e até à morte. Alguém que não está contente por simplesmente não trair, mas alguém que não se permite trair em pensamento! Alguém disposto a suportar dores e sofrimentos se for necessário, a chorar junto, a servir e que nesse desprendimento encontra uma alegria verdadeira, que não é deste mundo.

Muitos concordam com a ideia hoje amplamente difundida de que a castidade, e ainda mais a virgindade, é alguma forma de repressão sexual. E bons católicos encontram dificuldades para rebater essa ideia, vivendo uma vida do “quase-sexo a todo instante” como uma forma de conciliar o ideal cristão com a mentalidade contemporânea e às vezes por viverem dessa maneira ambígua acabam ficando reprimidos de verdade,rs.

Não se dão conta que a imensa exposição que o sexo tem hoje no fundo mascara uma profunda frustração. Hoje, se abrirmos qualquer um dos principais jornais online do mundo teremos pelo menos três notícias associadas a sexo. Desde propagandas de sorvete até bonecas para crianças, tudo tem apelo sexual. Mas não nos damos conta que isto é apenas uma grande frustração.

O bêbado sempre acredita que a realização completa está na próxima pinguinha, por isso que continua bebendo. Se ele de fato tivesse desfrutado da pinguinha estaria saciado e não continuaria bebendo. Nunca houve tanto adultério, traições e sexo, mas todos imaginam que se ainda estão insatisfeitos é porque não tiveram sexo suficiente.

A felicidade no sexo está associada à confiança. Confiança que gera uma entrega completa e que tem por resultado um imenso prazer. Mas como posso ter confiança plena em alguém que não declara seu amor por mim publicamente e que não me assume até a morte? Como posso dizer: me entrego inteiramente a você, mas se amanhã não me quiser mais tudo bem...que tipo de lixo seria eu?

Não é o casamento este vínculo inteiro, público, de corpo e alma que torna tudo isso possível?

Se alguém se deita com alguém que entrega seu corpo, mas não sua alma, está apenas fazendo sexo com um cadáver. Um pedaço de carne inerte, que hoje vive, pleno de hormônios, e amanhã apodrecerá e não deixará nada atrás de si.

É verdade que existem nuances, detalhes e que a vida da cada um de nós pode ser medida somente por Deus no seu último dia. Mas é preciso que as referências sejam claras para que olhando tanto os diferentes matizes, não esqueçamos que existem cores. E dizer com todas as letras que se vivemos assim somos apenas bêbados e não sabemos. Somos apenas bêbados, tomara fiquemos sóbrios um dia.

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A FÉ DA CRIANÇAS

Quando eu tinha 16 anos, fui convidado para ser professor de catecismo de crianças de 9 e 10 anos. 


Eu me esforçava para tornar as aulas o mais atraente possíveis com jogos de futebol, brincadeiras na capela, por falta de experiência e para espanto das catequistas mais velhas e visitava as famílias para falar sobre a importância dos sacramentos.

Eu posso dizer que me divertia bastante com as crianças. Dois meninos depois me convidaram para ser padrinho de Crisma deles.

Mas me incomodava a dúvida de que eu estaria induzindo elas de alguma forma a acreditarem na minha fé e se isso não seria injusto com a liberdade delas.

Para harmonizar essas dúvidas com a necessidade de dar as aulas, eu tentava falar muitas vezes sobre a liberdade de escolha e de que eles não eram obrigados a participar.

No final de uma das aulas, uma aluna, Bruna, ficou me esperando no final da catequese, pediu para falar comigo.

No final da aula ela estava ela ainda me esperando e me disse:

“Professor, lembra quando o “senhor” falou que tudo que a gente pedisse com fé, Deus atenderia?”. “Lembro”, disse. Em todos os encontros fazíamos uma oração inicial e final muito simples. Dizia para as crianças que pedissem as coisas a Deus com simplicidade e confiança. Elas apresentavam suas intenções, rezávamos o Pai-Nosso, o Vinde Espírito Santo e uma Ave-Maria. E então me disse:

“Então, eu estava andando com a minha mãe e a Larissa (outra aluna) e aí eu disse, vamos tentar fazer aquilo que o professor falou?”. E ela relatou que depois de dizerem isso e começarem a rezar enquanto passeavam, ela sentiu “um amor muito grande e um desejo muito forte de ajudar os pobres, disse ainda que ficou com as “pernas moles” e que não conseguia sair do lugar, tanto que ela acabou ficando para trás junto com a amiga, que começou a rir dela pelo fato dela não conseguir andar. E depois de me contar isso, ela me perguntou: “Professor, é Deus?”.

E eu disse: “Sim, Bruna, é Deus”.

Eu fiquei imensamente feliz e comovido de Deus se permitir responder assim a uma dúvida minha. E ainda por conceder esta graça tão grande a uma criança.

Em outras ocasiões novamente tive dúvidas interiores a respeito da relação entre liberdade e fé. Mas este fato serviu para mim como um sinal, de que a fé não viola a liberdade das crianças, pelo contrário.

É claro que para mim este fato serviu como base para justificar o ensino religioso e a catequese para as crianças, mas não pretendo apresentá-lo como argumento para um debate público sobre o tema, afinal, esta aí uma experiência que não pode ser acessada por todos e verificada, por assim dizer, empiricamente.

Mas entendo que o efeito positivo da vida da fé nas crianças pode ver verificado por outras consequências, essas acessadas por todos, como saúde psicológica e o bem-estar em geral das crianças.

Ocorreram ainda dois outros fatos interessantes nos dois anos em que dei aulas de catequese.

Era costume da paróquia naquela época pedir que as crianças contribuíssem com uma taxa (bem pequena, é verdade) antes de receberem o sacramento. Ninguém iria negar o acesso ao sacramento caso uma criança não pudesse contribuir, mas isso me incomodava. Escrevi aos pais das crianças que todos aqueles que quisessem poderiam contribuir com o valor que quisessem. Alguns contribuíram com um valor menor, outros com um valor menor ao que tinha sido inicialmente pedido pela paróquia. No final, eu arrecadei exatamente o valor que a paróquia havia solicitado para o total da turma.

Eu ainda me preocupava naqueles dias com o que eu achava falta de liberdade e uma péssima didática, que hoje percebo serem mais os efeitos das ideologias da época sobre mim do que propriamente um problema e ensinava os alunos com diversos métodos alternativos e apresentava os conteúdos de forma não muito linear.

Certo dia, o coordenador dos professores ficou preocupado se eu estava afinal ensinando o conteúdo correto para os alunos, que eram os 10 mandamentos, e foi, com muito jeito, depois da "denúncia" de um pai por meus métodos alternativos, checar na minha aula se os alunos haviam aprendido. Para minha surpresa eles sabiam os mandamentos em ordem.

Para mim isto foi uma sinal de como a Providência de Deus supre nossas limitações e nos socorre, já que eu nunca havia ensinado os alunos daquela forma. Eu fiquei surpreso quando eles lembraram dos mandamentos em ordem.

Essas são coisas que eu guardo no coração, como preciosos sinais. Eu não quero impô-los a ninguém, obviamente, mas acredito que não seria justo não compartilhar, ainda  mais em nossa época em que todas essas coisas são desafiadas pela cultura contemporânea.

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A Igreja, o Censo e os Números

Mais um artigo sobre a Igreja e o Censo Religioso
Na semana passada estava lendo o site de ex-alunos da minha faculdade e me deparei com um artigo muito interessante sobre uma empresa social espanhola, a Fundació Futur (Fundação Futuro)*. Para quem não está familiarizado com o termo ,“empresa social” trata-se de empresas que operam normalmente (buscam lucro e profissionalizam sua gestão) mas que tem fins sociais, existem para atender uma demanda social. A Fundação Futuro, por exemplo, é uma empresa de catering (buffet) que existe para empregar  pessoas em vulnerabilidade social, principalmente ex-presidiários. Este tipo de trabalho é o que há de mais novo em desenvolvimento social.
Conforme fui lendo sobre a Fundação Futuro , descobri que ela contou com uma doação de terreno das Irmãs Hospitaleiras e com o suporte da Cáritas de Barcelona no início. Não fiquei surpreso por encontrar mais um trabalho de vanguarda sob a influência da Igreja Católica. Nos últimos anos tenho descoberto cada vez mais casos desses e sugiro para quem tiver interesse procurar saber mais sobre Cavaleiros de Colombo, Economia de Comunhão e o início do cooperativismo nas Cooperativas de Mondragón, fruto do trabalho de um padre jesuíta.
O que me surpreende cada vez mais é não ouvir a respeito dessas iniciativas nas Paróquias. E conviver com esse dualismo: de um lado a Igreja que vivo, descubro e me encanta a cada dia mais e de outro a propaganda que a própria Igreja faz de si mesma, como uma instituição arcaica, triste e decadente.
E é exatamente este estado de ânimo que me vem à mente quando ouço muitos comentários, da própria Igreja, sobre o último censo religioso**.
O fato de existirem 2 ou 2 bilhões de católicos não faz a menor diferença para minha fé. Mas gostaria de comentar a respeito do censo no intuito de tentar vencer este estado de ânimo que assola boa parte da Igreja, minando a confiança do povo simples e dando espaço a vozes que não contribuem em nada com a purificação e o desenvolvimento da Igreja.
Muita gente ficou apreensiva com o fato do número de pessoas que se declaram católicas ter reduzido de 73 para 68%. Mas temos que ter em mente que mesmo esses 68% são pura ilusão. Se todos católicos forem à Missa no próximo domingo, não teremos lugar nas Igrejas. E mesmo se 20 anos atrás todos fossem à Missa, também não teríamos lugar para todos. Considerando-se que em nosso país entre 36 e 48%*** da população frequenta o culto pelo menos uma vez na semana, o que temos é algo entre 24 e 32% dos brasileiros que freqüentam as paróquias.
Falar de um país religioso é também uma outra ilusão que se tem a respeito do Brasil. Pela mesma pesquisa citada acima, o Brasil está em 17º em uma amostra de 53 países, atrás da Bélgica, do Canadá e uma posição à frente da Holanda, países que dificilmente consideraríamos religiosos.  O Brasil é historicamente um país sincretista, pouco fiel a ortodoxias, sejam elas quais forem. O que entendo que tem ocorrido nas últimas décadas é uma migração de não-praticantes para outros grupos religiosos à medida que a Igreja foi perdendo, no Ocidente inteiro, seu status de religião oficial. E convenhamos, o status de “religião oficial” talvez tenha feito mais mal do que bem à Igreja.
Um dado interessante que contradiz esta imagem da “perda de fieis” é o número de novos templos e paróquias da última década. Uma Igreja que perde fieis não é uma Igreja que constrói templos.  Seria interessante ter da CNBB estes números. O fenômeno brasileiro é bem diferente do que ocorre na Europa e em lugares como o Japão.
Na base de dados da Wolrd Values Survey (WVS)****, encontramos mais um dado interessante: de 1991 até 2006, o número de brasileiros que freqüentam o culto uma vez por semana ou mais cresceu consistentemente de 33,6 para 48,6%. Este número indicaria que, apesar do país estar passando pelo mesmo processo de secularização de outros países ocidentais, este processo está sendo acompanhando pelo crescimento do número de praticantes da religião.
O número de pessoas que participa do culto mais de uma vez por semana saltou de 12,6 para 22,3%, um aumento proporcional de 77%, segundo a WVS. Um outro dado que não pode ser desprezado é o fato da Igreja Católica contar ainda com o maior encontro de jovens do mundo, a Jornada Mundial da Juventude.
O número de ordenações no mundo tem se mantido estável, tendo tido inclusive um ligeiro aumento em alguns anos da última década. Na Ásia, a Igreja cresceu 10% entre 2008 e 2009, o que é um número bastante importante, tendo em vista a perseguição que a Igreja sofre na China, na Índia e no Oriente Médio. O número de seminaristas também aumentou nesse biênio e o número de diáconos permanentes cresceu mais de 2,5%*****. Os clérigos e religiosos da Igreja Católica somam cerca de 1 milhão de 200 mil pessoas******.
Para se ter uma ideia sobre o tamanho do clero católico, basta pensar que a Unilever, uma das maiores multinacionais do mundo conta com 167.000 colaboradores*******, para as quais ela tem que pagar um bom salário. A Igreja por sua vez conta com quase 10 vezes mais pessoas que além de não receberem um bom salário (deve estar entre as menores remunerações para quem tem ensino superior no mundo) doam suas vidas e fazem enormes sacrifícios pessoais para se dedicarem a ela inteiramente.
Ao invés pensar sobre os milhões de fieis que perdemos, que na verdade nunca tivemos, temos que pensar na força que temos com mais de um milhão de consagrados no mundo e cerca de 45 milhões de praticantes somente no Brasil. O número de católicos na grande São Paulo talvez seja maior que o número de cristãos que existiu em Roma antes de Constantino. Se aqueles homens puderam fazer tanto e remodelaram o mundo, o que podemos fazer nós que somos muito mais e ainda contamos com o mesmo Espírito?
Explorar bem o potencial que temos, fazer um bom trabalho, é nosso maior desafio em termos organizacionais, um desafio talvez maior do que a crise cultural que o Ocidente atravessa.
Mas também existem dados que são bastante preocupantes.
Em 2000, o número de pessoas adultas que se batizaram na Igreja Católica nos EUA atingiu um pico histórico de 172.581 pessoas********. O que é um imenso contra-senso, uma vez que em 2000 a secularização da sociedade americana era tão forte quanto agora. Nos anos seguintes ocorreu a divulgação dos escândalos de pedofilia na Igreja americana, o que levou uma queda desse número para o patamar dos 100.000, sendo que já em 2001 houve uma queda de 12% no número de novos católicos adultos.
O comportamento das lideranças da Igreja é em grande parte responsável pelo fato de encontrarmos poucos adultos entrando na Igreja Católica. Não podemos pensar somente na disciplina do clero, mas também nas lideranças leigas, que tem pouco ou nenhum controle por parte dos bispos. Deixar a liderança da Igreja nas mãos de pessoas muitas vezes despreparadas e instáveis emocionalmente pode causar um grande dano a essas pessoas e à Igreja como um todo. Ao falar sobre o trabalho e a disciplina dos leigos, lembro ainda que muitas das pessoas que retornam à Igreja para os sacramentos são recebidas por cursos de noivos e de batismo de baixíssima qualidade, o que também é um ponto importante a ser trabalhado.
Outro dado que merece nossa atenção é a queda drástica no número de religiosas em quase todo o mundo, diminuindo entre 2 e 3% ao ano nos último anos******. Dos cerca de 1,2 milhão de clérigos e religiosos católicos, 700 mil são religiosas, cerca de 58%. O que tem afastado as mulheres da vida consagrada? Falamos muito da falta de padres, mas são as mulheres que mais tem deixado a vida consagrada.
De maneira geral, apesar da preocupante secularização do Ocidente, há números que são bastante favoráveis à Igreja, apesar dos desafios. Eu tenho muitas razões para ser otimista. O fato da Igreja Católica se transformar em uma minoria, mesmo entre os cristãos, é uma possibilidade real, mas acredito que não devemos nos preocupar com isso. Primeiro porque a missão da Igreja não é arrebanhar números. Nosso Senhor não morreu para salvar uns 15% ou 75%, rs. Morreu por cada um. Amou cada um. E ainda que nenhum de nós acolhesse seu Amor, Ele teria morrido pela possibilidade de que apenas um de nós se salvasse. Ele morreria pela chance de me salvar!
Além disso, a ação da Igreja no seio da humanidade é um mistério. E os apóstolos já sabiam disso quando ainda eram uma comunidade pequenina, mas que de forma ousada sabia que cada gesto seu servia para salvar a humanidade inteira. Ofereciam sacrifícios por todos os homens, eles que eram tão poucos. Que ousadia essa de um grupo de poucas pessoas assumir sobre si a responsabilidade pela humanidade inteira!
E o mesmo Espírito que fez surgir franciscanos, beneditinos, jesuítas e tantos outros, é o mesmo que faz surgir as Novas Comunidades, é o mesmo que nos conduz, mesmo quando cegos pelos nossos erros não vemos. Quem poderia prever tudo isso nos anos 60? Quem imaginaria essa “perda” de fieis? Mas quem também imaginaria a RCC, as Novas Comunidades, tantas conversões? Eu cresci em uma família que aos poucos se converteu e redescobriu a fé católica (não só meus pais retornaram à fé, mas tios, avós, primos e conhecidos...), em uma cidade do interior que contava com 2 paróquias quando eu era criança e hoje conta com 9 com pelo menos mais uma capela por paróquia, sendo que a população diminuiu nos últimos 10 anos. O mesmo Deus que fez isto em minha casa pode fazer o mesmo no país e no mundo inteiro.
Em Fátima, Maria profetizou que em muitos lugares do mundo se perderia a fé, São João Bosco falava de tempos difíceis para a Igreja...se já vimos o cumprimento dessas profecias, acreditemos também na segunda parte dessas mesmas profecias: por fim, o Coração de Maria e a Eucaristia nos trarão a paz! Sejamos fieis, não medrosos!


*http://www.fundaciofutur.org/eng_catering.htm
**Pesquisa de Orçamento Familiar, IBGE 2011
*** http://www.nationmaster.com/graph/rel_chu_att-religion-church-attendance, baseado na World Values Survey (WVS), uma base de dados bastante utilizada pelos pesquisadores. A margem de 26 a 32% foi montada com as informações deste site e última pesquisa da WVS que pode ser encontrada no site http://www.worldvaluessurvey.org/
****Base de dados online da World Values Survey http://www.wvsevsdb.com/wvs/WVSIntegratedEVSWVSvariables.jsp?Idioma=I
***** Zenit, agência de notícias católica
******Center of Applied Research in the Apostolate, centro de pesquisa aplicada ao apostolado católico da Universidade de Georgetown  http://cara.georgetown.edu/CARAServices/requestedchurchstats.html
********Blog do Center of Applied Research in the Apostolate, centro de pesquisa aplicada ao apostolado católico da Universidade de Georgetown
http://nineteensixty-four.blogspot.com/2011/08/research-notes.html

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