Porque acredito em Nossa Senhora

Ou sobre a devoção cristã à Virgem Maria, a Santa Mãe de Deus




Colocado assim, o título pode parecer para muita gente como algo do passado, uma coisa de velhinhas. É interessante como um tema tão crucial para entendermos o mundo contemporâneo ficou assim relegado para segundo plano. Inclusive para muitos católicos. Não se pode entender a sociedade sem se compreender a influência que a Igreja Católica desde a Antiguidade exerce sobre ela e não se pode entender conceitos como virgindade e maternidade sem compreender o papel dessa devoção na fé católica. 

Santa Edith Stein dizia que “buscar a verdade é andar sempre à beira do abismo”. E é uma frase que eu acho particularmente bem acertada. Desde que me converti ao catolicismo há cerca de 15 anos eu não sei quantas vezes tive esta sensação. Foram inúmeras as vezes que me senti à beira do abismo. 

A cada aspecto novo que descobria da fé, um questionamento, a cada passo, uma nova possibilidade de estar errado. Mas se o que buscamos é a verdade, não temos nada a perder. 

Já há excelentes trabalhos a respeito deste tema na internet[i] e não pretendo aqui falar de aspectos teológicos ou uma realizar uma apologética tradicional. Escrevo porque acredito que estamos todos no mesmo barco, na mesma busca, queremos “encontrar a face do Senhor” e às vezes as vemos refletidas aqui e acolá, em pedaços, às vezes um reflexo, tão rápido e logo perdemos de vista. Só existe um Deus, e um único mediador, Jesus Cristo, ao qual tantos invocam de tantas maneiras. E isso nos faz uma só família, na mesma busca, mais ou menos conscientes, mais ou menos fieis, mas unidos por aquele que invocamos. 

Gostaria apenas de escrever “como um coração que fala a outro coração”, conforme a belíssima expressão do Beato John Newman e consciente de que a maioria das pessoas não se converte a esta ou aquela religião por causa de um debate teológico, ou mesmo pelo conhecimento de uma doutrina. Isto também acontece, é verdade, mas é raro. Para a maioria das pessoas, um amigo, a ajuda em um momento difícil, o mal estar com relação à crítica pública feita a um grupo religioso, a família, para a maioria das pessoas essas coisas acabam sendo muitas vezes a experiência fundante de uma prática religiosa.

No retiro em que me converti, lembro que antes da primeira palestra foi feita a entrada da imagem da Virgem Maria como parte da oração inicial do encontro. O salão em que estávamos foi tomado por um clima de muita emoção e os participantes aplaudiram a entrada da imagem. Eu me lembro de também ter me emocionado, mas rapidamente corrigi este sentimento em minha mente dizendo para mim mesmo: “este é um comportamento emotivo e idólatra e estão aproveitando da fragilidade psicológica dos adolescentes”. Enquanto todos aplaudiam, eu deliberadamente cruzei os braços. 

Esta foi a primeira vez em que me coloquei o problema em questão. Eu sou filho de uma época em que muitas pessoas abandonam a fé e, no final das contas meu ceticismo não é tão diferente do deles. Com mais ou menos fervor, com maior ou menor fidelidade a esta minha incredulidade, eu repeti gestos semelhantes ao longo de alguns anos. Embora tenha me convertido na Igreja Católica, alguns aspectos desta fé não eram pontos passivos para mim. 

Por incrível que possa parecer, para mim era mais fácil acreditar no papa do que na Virgem Maria. Como encontrei o Senhor[ii] na Igreja Católica, para mim era evidente que Ele estava ali presente. E como a fé cristã não pode ser explicada sem a Igreja Católica, para mim também era claro que a Igreja era mãe, pois ela gerou a fé que recebi e que, portanto, éramos todos irmãos e era natural que alguém fosse o símbolo visível dessa unidade. Em uma família, estar juntos é mais importante do que concordar. E neste caso concreto, o estar juntos era a obediência àquele que por direito exercia este papel. 

Entretanto, imaginava que ao longo dos séculos este patrimônio de fé poderia ter se corrompido, agregando coisas que lhe eram estranhas, sem, contudo, perder o seu essencial. E imaginava que de algumas práticas a Igreja poderiam se purificar ao longo do tempo, afinal de contas, Deus não a havia abandonado e imaginava que estar junto e trabalhando internamente por uma purificação era a forma mais coerente de corresponder ao que eu havia experimentado. 

E com relação à devoção à Virgem Maria eu me perguntava sobre qual a sua necessidade, se afinal Deus já havia concedido a salvação e todas as graças por meu de seu Filho? E ainda, se o uso de imagens era fonte de tão grande oposição por parte de outros cristãos, não seria mais razoável abandoná-las aos poucos, já que isso poderia contribuir para uma maior unidade entre todos? Ainda mais tendo em vista que o uso de imagens não é algo essencial à fé cristã?

Basicamente estas eram minhas objeções e com base nelas em diversos momentos não osculei as imagens e sequer obtive alguma para minha oração pessoal.

Este cenário começou a mudar quando conheci uma amiga, muito convicta na prática dessa devoção. E o que mais me chamava a atenção nela era sua inocência e sua pureza, duas coisas extremamente difíceis para mim. 

Certo dia, conversando com essa amiga sobre o dogma mariano da Assunção chegamos a um impasse. Percebi que em algum momento eu a ofendi. Afinal de contas, eu estava tratando como uma hipótese teórica o que para ela era a Mãe dela. E quando se trata a mãe de alguém assim, bem, é difícil não ofender. E então me dei conta de que a relação dela com a Virgem Maria não era a de uma hipótese de fé, como era para mim, mas de verdadeira maternidade e verdadeira filiação.

E levando em consideração que esta sua devoção se destacava, mesmo entre outros católicos, eu comecei a pensar se a pureza e a inocência que ela tinha, e que por mais que eu rezasse e lutasse não obtinha, não eram frutos dessa devoção. Afinal, eram as duas coisas que apareciam juntas e a destacavam: a devoção mariana e a pureza e inocência de seu comportamento.

E acabei sendo impactado por algo tão simples e tão incisivo, encontrar alguém que crê. 

E enquanto eu considerava essas coisas, me ocorreu o pensamento de que meu erro até ali era considerar Deus como se Ele só fizesse coisas úteis, necessárias, como se fosse uma grande engrenagem, e não uma pessoa.

Mas Deus é uma pessoa, que constrói uma história concreta com a humanidade, e isto é o que mais desafia o pensamento contemporâneo. Não subiu aos céus cerca de 2000 anos atrás e nos deixou um código de leis para seguirmos, mas continua entre nós, escrevendo conosco a história. 

E nesta história construída conosco e construída com cada pessoa em particular, Deus chama cada um a uma participação única, e Ele pode conceder o que Ele quiser a quem Ele bem desejar, do contrário não seria Deus, seria uma força anônima na fronteira do universo, uma engrenagem. 

E refletindo sobre essas coisas me lembrei de que ao profeta Elias foi concedido o privilégio de não morrer. E que, olhando de fora, poderia parecer que Deus violou uma de suas regras, mas olhando de dentro, vemos que Elias tem um relacionamento particular com a Divindade, difícil de ser alcançado por outra pessoa. 

E como pensar então na Mãe do Senhor? Ela que teve o próprio Deus nos braços, e mais ainda, no ventre, que o ensinou a comer, a andar, que ouviu suas primeiras palavras. Como pensar que um Deus que é amor e misericórdia teria tratado sua Mãe com tamanha impessoalidade e como Ela, que teve nos braços um menino que valia mais do que o universo inteiro, que teve seu corpo imerso no mistério do Espírito Santo, poderia ser simplesmente uma entre uma multidão de mulheres ou ainda simplesmente diante de Deus na eternidade não desempenhar um papel singular na salvação de todos os homens?

E esta nova forma de viver a fé, me abriu um universo muito mais amplo. Com relação às imagens entendi que o ponto em questão é mais profundo. Se Deus se fez homem e morreu pela redenção de toda a humanidade, morreu e ressuscitou para redimir todos os homens e o homem todo. E o homem todo inclui também as suas artes e as suas esculturas. Do contrário, Deus teria condenado para sempre um dom que Ele mesmo infundiu no homem e o homem redimido seria um homem contido, restrito, que não poderia realizar parte de sua própria natureza. Mas Deus redimiu todas as coisas, sendo assim, não se trata de não fazer, ou de obedecer a um conjunto de regras mais ou menos razoáveis, mas de encontrar o bem em cada coisa e fazê-lo. E isto é uma liberdade muito maior, e também extremamente desafiadora. 

A estes pensamentos depois se seguiram muitos outros e ao conhecimento de todo um corpo de doutrinas propriamente ditas, mas também se seguiram muitas experiências e uma delas em particular gostaria de compartilhar. 

Em 2008, quando participava da Missa durante a Novena de Nossa Senhora Aparecida na cidade em que cresci, algo muito interessante aconteceu. Lembro que antes de começar a Missa, pedi a intercessão da Virgem Maria e de Padre Pio para que pudesse participar bem da Eucaristia. Na procissão de entrada o padre celebrante carregava em seus braços a imagem de Nossa Senhora Aparecida. 

No momento em que o padre e os ministros começaram a sua a entrada na Igreja para começar a celebração, eu senti que uma “força” e sentia que esta “força” saia da imagem. Era uma força muito grande, que eu não conseguia enfrentar, ou manter meu equilíbrio diante dela, ou sequer ficar em pé diante dela. De tal maneira que me pus de joelhos e comecei a chorar enquanto a imagem passava perto do local em que eu estava sentado. 

O que me chamou a atenção é que conforme a imagem passava esta força aumentava ou diminuía, de tal maneira que eu tinha a nítida impressão de que esta saía da imagem. 

No final da celebração, quando o padre e os ministros fizeram a procissão de saída o mesmo fato ocorreu novamente. E eu fiquei ainda algum tempo dentro da Igreja, refletindo e me recompondo. 

Alguns anos depois, creio que 3 ou 4, eu senti novamente esta mesma “força” mas numa proporção bem menor, como que “saindo” de uma religiosa, de um movimento particularmente devoto da Virgem da Maria. Movimento este do qual eu e minha família atualmente participamos. 

A partir dessas experiências se formou em mim a convicção de que a devoção à Virgem Maria é um patrimônio que Deus concedeu aos cristãos, e à humanidade inteira, em sua liberalidade e liberdade. Um patrimônio que não nos deve ofender ou preocupar, mas enriquecer.


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I Encontro Coração Novo para um Mundo Novo: Evangelização na Vida Pública







Encontro Coração Novo para um Mundo Novo: Evangelização na Vida Pública

Todos nós sabemos que a crise da humanidade contemporânea não é superficial, mas profunda. Por isso, enquanto exorta a ter a coragem de ir contra a corrente, de se converter dos ídolos para o único Deus verdadeiro, a nova evangelização não pode deixar de recorrer à linguagem da misericórdia. [...] A Igreja é enviada a despertar esta esperança em toda a parte, de maneira especial onde ela está asfixiada por condições existenciais difíceis, às vezes desumanas, onde a esperança não respira, onde sufoca.
É necessário o oxigênio do Evangelho, do sopro do Espírito de Cristo Ressuscitado, que volta a acendê-la nos corações. A Igreja é a casa cujas portas estão sempre abertas, não somente para que cada um possa encontrar acolhimento no seu interior e aí respirar o amor e a esperança, mas também a fim de que possamos sair para levar este amor e esta esperança.
Papa Francisco, aos participantes na Plenária do
Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (14/10/2013)

No dia 07 de dezembro será realizado na PUC-SP o “Encontro Coração Novo para um Mundo Novo: Evangelização na Vida Pública”, um momento de reflexão e diálogo sobre a relação entre a nova evangelização e a participação na vida pública, voltado a membros de novas comunidades, movimentos eclesiais e todos os interessados no tema.
O documento de Lineamenta para a XIII Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização apresenta a nova evangelização como “uma atitude, um estilo audaz”, “uma capacidade de saber ler e decifrar os novos cenários [...] sociais, culturais, econômicos, políticos, religiosos”. Por isso, a vida pública é o espaço por excelência da nova evangelização.
Partindo desse ponto, o Encontro quer promover a reflexão sobre como – a partir do carisma eclesial e da realidade social que cada um vive – participar juntos, em comunhão, e de forma efetiva no processo de evangelização de nossa sociedade. Quer ser um espaço onde podemos nos ajudar a responder juntos a perguntas como: O que o meu carisma tem a oferecer ao mundo? E ao desenvolvimento de nosso país? E de nossa cidade? Somente uma participação na vida pública que passe pelo mistério do coração é capaz de causar o impacto que queremos e gerar um mundo novo.
Este evento está sendo organizado pelo “Grupo Coração Novo para um Mundo Novo”, composto por cinco novas comunidades e movimentos (Comunidade Aliança de Cristo Rei; Comunidade Aliança de Misericórdia; Comunidade Betel Santa Mãe de Deus; Comunidade Totus Mariae e Missão Veritatis Mater) e conta com o apoio do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e da Associação para a Nova Evangelização (ANEV) da Arquidiocese de São Paulo, associação formada igualmente por novas comunidades e movimentos.

Data e local:
07 de dezembro de 2013, Sábado, das 9h às 19h
PUC-SP, campus Perdizes, Edifício Bandeira de Melo - Auditório 239


Contatos:
Marcos Gregório Borges, fone (11) 99244-7562, e-mail
marcosphn_borges@msn.com
Claudia Marcello Sant’Anna, fone (11) 3670-8486, e-mail
fecultura@pucsp.br



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MÁRTIRES DA NOVA EVANGELIZAÇÃO - HAITI - PE GIANPETRO



Queridos amigos, compartilho um pedido de oração do Pe Gianpetro, da Missão Belém que está a serviço da Igreja Católica no Brasil no Haiti. 

OS MÁRTIRES DA NOVA EVANGELIZAÇÃO

Um grande milagre está acontecendo na nossa Missão do Haiti: a evangelização do Jé-Shuá chegou aos jovens e o anuncio do Evangelho está revolucionando a vida deles. Depois de 3 Jé-Shuá, somente, cerca de 60 jovens, que nunca participaram da Igreja, se tornaram ativos e presentes diariamente no nosso Centro. É impressionante: todo dia, muitos deles vem fazer o “Diário espiritual”, de manhã, junto a nós e de noite voltam, para orar e louvar ou fazer missão junto aos missionários, dançando e cantando, testemunhando com coragem.

A “revolução” é tão forte e visível que até os “delinquentes” da região de Warf Jeremie perceberam que algo está acontecendo. Surpresos pelo grande movimento dos jovens, em sua mente obcecada pelo dinheiro, pensaram que os nossos jovens estavam recebendo muito dinheiro para anunciar Jesus com tanto entusiasmo e iniciaram a ameaça-los dizendo: “Ou vocês nos dão o dinheiro que recebem ou vamos acabar com sua vida!”

Os jovens sabem muito bem que essas ameaças podem se tornar realidade muito rapidamente: a morte violenta persegue a nossa Missão. Nesse ano, quase 30 pessoas foram mortas, cortadas em pedaços, queimadas e jogadas no oceano com barbara violência. Mas isso não foi suficiente para desanimar os nossos jovens que continuaram a participar com assiduidade. 11 deles foram explicitamente ameaçados de morte. Por isso pedimos oração a todos vocês. O momento é critico, mas sabemos que Deus não nos abandona. Esse jovens, estão prontos a dar sua vida por Jesus, que acabaram de conhecer e continuam vindo na Missão e fazendo Jé-Shuá.

A Fé custa sangue. Além dos bandidos, também os parentes se colocam contra. Um dos nossos jovens vivia junto a uma pessoa protestante. Vendo a mudança dele, essa o expulsou de casa e o jogou na rua, dizendo: “Protestante não se mistura com católico, vai embora!”. Mesmo com tudo isso, esse jovem agradecia a Deus por ter mudado sua vida não deixou uma vez de vir no centro e sair com os missionários para fazer evangelização.

Pedimos à Missão Belém inteira, de orar para esses irmãos que acabaram de conhecer Jesus e estão dispostos a dar sua vida por Ele.
(Missão Belém – Haiti 20 outubro 2013)

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TEDx no Vaticano - Astrônomo da Nasa e jesuíta fala sobre a relação entre fé e ciência

Em abril o Vaticano organizou um dos eventos da série TEDx - para quem não conhece, basta dar uma olhada (1) . Trata-se de uma série de eventos realizados no mundo inteiro com personalidades que vão de Bill Clinton a Gloria Stefan, falando sobre temas de vanguarda como empreendedorismo e desenvolvimento. Os eventos se definem como ideas that worth spreading. Realizado na Via della Conciliazione foi promovido pelo Pátio dos Gentios e o Pontifício Conselho para a Cultura numa iniciativa de diálogo com a sociedade por parte do Vaticano e teve como tema liberdade religiosa. A apresentação do jesuíta Guy Consolmagno é imperdível (em inglês) e serve de referência de como se pode tocar com simplicidade e leveza temas difíceis como a relação entre fé e ciência. Imperdível.



(1) http://www.tedxsaopaulo.com.br/

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O insuportável humanismo de Bento XVI

Reproduzo abaixo excelente texto do Prof. Francisco Borba Ribeiro da PUC-SP publicado em  

Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro do conselho editorial da versão brasileira da revista Communio
Em 1944, Henri de Lubac, um dos intelectuais que, juntamente com o jovem Ratzinger, fundou a revista internacional Communio, escreveu O drama do humanismo ateu. Sua tese era de que o humanismo moderno, perdendo a referência em Deus e no seu amor, é incapaz de realizar a pessoa, levando à dramática desumanização da sociedade contemporânea. Além disso, o livro procurava valorizar as críticas que Feuerbach, Marx e Nietzsche, entre outros, faziam ao Cristianismo – mostrando que muitas delas eram válidas, porém se referiam a um Cristianismo descaracterizado, que perdera seu élan vital.
A trajetória do teólogo Rat­­zinger, papa Bento XVI, pode ser lida como um diálogo entre os fundamentos do Cristianismo e esse humanismo em crise, que ao longo da modernidade parece ir vencendo todas as batalhas que luta (direitos humanos, democracia, igualdade, liberdades individuais etc.), mas estar perdendo a guerra da construção de uma humanidade mais feliz. Mas peço atenção: as bases da postura de Ratzinger não são os “valores da tradição”, como muitos dizem, mas sim os “fundamentos da tradição”. Ele tem claro que os valores morais e sociais, privados de seu fundamento original, se tornam normas vazias que mais oprimem que valorizam a pessoa; por isso sua batalha não é pela defesa de valores esclerosados, mas por uma renovação a partir da crença de que na raiz de qualquer valor realmente humanizador está o reconhecimento do amor de Deus.
Então Bento XVI não foi um tradicionalista? Sem dúvida não; seu pretenso “moralismo” e “reacionarismo” é uma construção midiática, que não se sustenta em uma análise de seus escritos ou do conjunto de suas atitudes no papado. Um conservador? Se olharmos para o valor que dá à tradição da Igreja, sim. Mas quem ler Caritas in veritate, sua grande encíclica social, encontrará uma obra sintonizada com as demandas sociais da chamada “ala progressista” da Igreja. Dentro desse universo de caracterizações esquemáticas, talvez a melhor para ele seja a de “pós-moderno”.
As imagens mais frequentes que se tem das mudanças pelas quais a Igreja devia passar a partir do Concílio Vaticano II nasceram dos ideais da modernidade da metade do século 20, que já enfrentava a crise que gerou esse processo ambíguo e complexo que chamamos pós-modernidade. Bento XVI é o papa pós-moderno por excelência, que não procura criar uma Igreja que se molda aos valores da modernidade, mas que responde à destruição destes valores – realizada pelo próprio pensamento crítico moderno.
Em oposição aos pensadores ateus estudados por De Lubac, que construíram a grandeza e o drama do pensamento moderno, Bento XVI pode ser compreendido como um humanista religioso, que acredita que a ligação do ser humano com Deus é o vínculo de amor que é a condição necessária para encontrarmos nossa felicidade e realização. Porém, esse humanismo, nascido de um gesto de amor gratuito e de uma esperança sem limites, é quase insuportável para a cultura contemporânea. Corresponde de tal forma ao desejo mais profundo de cada um que chegamos a ter medo... Medo de nos entregarmos a essa promessa e descobrirmos depois que se trata de mais uma ilusão.
Quem não quer receber um amor que não pede nada em troca? Quem não quer ver a si próprio e a todos os que ama livres da sombra da morte? Quem não gostaria de saber que todas as vítimas de Auschwitz encontraram a paz e a justiça, que o mal que se abateu sobre elas não foi a última palavra? De saber que o futuro dos jovens mortos no incêndio da boate de Santa Maria não terminou abruptamente no horror, mas, pelo contrário, apenas se abriu, naquela noite fatídica, para a eternidade? O que uma jovem pobre, carregando dentro de si uma gravidez indesejada, prefere: poder tirar o filho que carrega em seu ventre, admitindo a desgraça e/ou o erro do que lhe aconteceu, ou ter a certeza de um amor que lhe permitirá ter esse filho e se realizar na vida, juntamente com essa criança, transformando a tragédia em esperança? O que corresponde mais ao desejo do sábio: descobrir com sua razão que a realidade é uma rede de causas e efeitos em última análise aleatórios, ou descobrir em cada fenômeno a beleza de um amor oculto, mas infinito?
Insuportável esperança, que parece negar a evidência de que nascemos marcados pela desgraça. Se acreditarmos nela, será muito mais doloroso voltarmos à desilusão da descrença, voltar a viver “sentados à sombra da morte”, inseguros em relação a cada afeto, sabendo que nenhum amor é para sempre! São essa esperança e a experiência de um amor impensável, mas realizado, que constroem o humanismo cristão proposto por Bento XVI. Ainda é cedo para uma avaliação adequada de seu papado, mas é inegável que ele, como poucos, recolocou o humanismo cristão na agenda cultural da sociedade contemporânea; que em seu papado o mistério de Deus se tornou provocação e escândalo para um mundo fechado em si mesmo.

O texto dispensa comentários. Diria apenas que como é triste ver tantas pessoas, mesmo dentro da Igreja, "católicos praticantes" que simplesmente são infelizes, ou meio infelizes (o que é bem diferente de ser "meio feliz",rs)  porque não acreditam na possibilidade de serem felizes! Mas o que seria "praticante'? Penso que praticante seria quem tem o firme propósito de amar, ou ao menos tentar com todas as forças, como Jesus amou. Quantos seriam os praticantes a partir deste critério?  Dizem que acreditam em Deus, mas não acreditam no perdão! Dizem que acreditam em Deus mas não acreditam na fidelidade! Dizem que acreditam em Deus mas não acreditam em um amor puro, sólido e fiel que vive para sempre! Nas Missas, nos encontros e nas celebrações são lágrimas, consolações, sentimentos, grandes argumentos filosóficos, mas aqui, dentro de casa, no trabalho, a coisa é diferente, aqui é o mundo real. Não!!!É preciso crer e viver pelo que se crê. Para ser feliz é preciso fazer força, toda força possível, afinal isto vale a nossa vida! Ninguém disse que é fácil, mas digo que vale a pena. E que sim, é possível. Com Deus.



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Igreja Católica, o Papa, a Páscoa e os Cristãos


Esta Páscoa e a unidade dos cristãos



Este ano a Quaresma começou mais cedo para os católicos. Passaremos parte dela em sede vacante, sem nosso pastor maior, no escuro da Quaresma à espera da Ressurreição do Senhor. Este é um período muito singular e que convida à profunda oração todos os cristãos.

Chiara Lubich dizia que a santidade é a capacidade de conciliar virtudes opostas. Eu vi homens extremamente firmes terem os maiores gestos de ternura, vi homens inteligentíssimos dizerem que não sabem e agora me surpreendo novamente, vendo um homem de uma tenacidade inacreditável reconhecer, humildemente, que lhe faltam as forças.

Sem dúvida que os sentimentos ainda são confusos neste momento e é necessário dar tempo ao tempo, mas é sem dúvida um ato de coragem. A história nos dirá qual foi o sacrifício feito pelo Papa.

Podemos pensar se Bento XVI não dá assim sequencia ao que João Paulo I iniciou ao aposentar a tiara pontifícia, sinal do poder papal e sinal também de contenda entre os cristãos, explicitando desta forma a essência do ministério petrino: o serviço à unidade da Igreja. A Cátedra de Pedro deve confirmar os irmãos na fé e guardá-los na unidade, e quão bem fez isto Bento XVI!

Num tempo em que muitos querem levar o pecado para o seio da Igreja, ele lembrou que Nosso Senhor morreu para nos livrar de nossos pecados, não para diviniza-los. E que só há verdadeira liberdade na verdade. A verdade nos libertará.

Soube conduzir para o coração da Igreja grupos proscritos desde o Concílio por conta de suas visões tidas como tradicionalistas pelos opositores ao mesmo tempo em que manteve e aprofundou as resoluções do Concílio Vaticano II dando-lhes um sadio direcionamento, mantendo diálogo fraterno com toda a Igreja. Soube aprofundar o mistério da Igreja sobre si mesma e ao mesmo tempo abrir seu coração para todos os que professam a fé em Cristo.

Que contradição aparente! É surpreendente que um Papa que prezou tanto pela ortodoxia, seja ao mesmo tempo um dos que mais contribuiu para a unidade dos cristãos (1).

Esta Páscoa será ainda marcada por outro fato extraordinário: este ano católicos e ortodoxos celebrarão a Páscoa no mesmo dia. Está em processo de autorização pela Santa Sé que este ano os católicos da Terra Santa celebrem a Páscoa na mesma data em que os ortodoxos (2).

Talvez muitas pessoas não percebam a importância deste gesto. Os católicos celebram a Páscoa em datas diferentes, que às vezes coincidem, desde 1582(3). Neste ano foi introduzido, por conta dos estudos astronômicos da época, o calendário gregoriano, que é o que utilizamos até hoje, na parte ocidental do mundo. Católicos e ortodoxos haviam se separado em 1054, assim a alteração da forma como se calcula a data da Páscoa acabou ocorrendo apenas na Igreja Católica Romana.

Para se ter  ideia da importância de se celebrar juntos a Festa da Páscoa, a maior dos Cristãos, é interessante conhecer Myrna Nazour, católica síria, casada com um católico ortodoxo, que tem feito um importante trabalho neste sentido(4).

Desde 1984 uma série de eventos marcou profundamente a vida de Myrna e de sua família. Naquele ano, o quadro que ela possuía em casa de Nossa Senhora de Kazan, uma devoção russa, e, portanto, da Igreja Católica Oriental ou Ortodoxa, começou a exsudar óleo e algumas pessoas enfermas obtiveram a cura depois de rezarem diante da imagem ou untarem-se com o óleo.

A casa de Myrna, uma família comum de pessoas até então pouco fervorosas na fé, se tornou então um centro de peregrinação e a imagem passou começou a ser conhecida como Nossa Senhora de Soufanieh, o bairro em que Myrna mora em Damasco. Dos diversos fenômenos que passaram a ocorrer desde então, destacam-se aparições da Virgem em que lhe pede, e pede a nós, a unidade da Festa da Páscoa. Em alguns dos anos em que a data da Festa coincidiu para católicos e ortodoxos ela foi agraciada com o dom dos estigmas.

Não há como sermos verdadeiramente cristãos e não nos entristecermos com a desunião entre nós e mesmo dentro das Igrejas. É profundamente enternecedor saber que Jesus quando já caminhava para sua morte pediu ao Pai exatamente nessa intenção: “que eles sejam um, assim como somos um, para que o mundo creia”(5). Será que Ele já pedia pelas dificuldades que enfrentaríamos ao longo da história?

E mais ainda, não pedia Ele por algo que não podemos alcançar por nós mesmos, mas que somente o Pai pode realizar?

Nesta Páscoa que será, com a Graça de Deus, celebrada em comum entre católicos e ortodoxos e ainda no conclave que se aproxima (6), temos novamente um chamado à unidade. Dentro da Igreja e entre os cristãos. É hora de abandonar as armas do pensamento superficial e das palavras vulgares e nos voltarmos humildemente para o próprio coração, assumir nossa condição de pecadores e pedirmos perdão. E nos colocarmos a serviço, não de nossos próprios caprichos, não dos nossos pecados e fraquezas, mas de Cristo e de sua Igreja.

E há grandes sinais de esperança. O dia da separação entre os católicos e os ortodoxos, 16 de julho, é o mesmo da Festa de Nossa Senhora do Carmo, festa de uma ordem religiosa que nasceu no oriente, na comunidade fundada pelo profeta Elias, e depois veio para o ocidente.

Maria já quis deixar seu selo, talvez afirmando que a vitória já foi conquistada, só nos é necessário seguir confiantes.

Há ainda experiências belíssimas como a Comunidade de Taizé (7), uma das maiores alegrias de minha adolescência. Em 2017 se celebrarão ainda os 500 anos da Reforma Protestante e será mais um tempo oportuno para refletirmos sobre a unidade da Igreja. O presidente da Federação Mundial das Igrejas Luteranas propôs à Igreja Católica um acordo sobre hospitalidade eucarística, como parte das celebrações de 2017(8).

A hospitalidade eucarística significa que católicos poderiam comungar em igrejas luteranas e vice-versa. Embora haja ainda inúmeros pontos teológicos para serem esclarecidos e este seja o começo de um longo diálogo, o gesto é sem dúvida animador.

Um dos grandes legados de Bento XVI é sabermos que a unidade entre os cristãos, a unidade dentro da Igreja e mesmo a unidade dentro do coração de cada homem e mulher é fruto não de acordos políticos ou de grandes ideologias, mas do mergulho na verdade que permeia e transcende todos nós, no encontro com Deus, verdade plena, alma de minha alma, diria Santo Agostinho.

Mas devemos olhar com coragem para a clareza dessa luz, encarando também nossas realidades mais sombrias, como o pecado e a dúvida, pois do contrário, não seria uma legitima busca da verdade, mas mero sentimentalismo e auto justificação.

Quanto mais nos aproximarmos de Cristo, mais nos aproximaremos entre nós. Quanto mais mergulharmos no conhecimento da Igreja, do qual todos os cristãos são herdeiros legítimos, aquela que precedeu a época das guerras e das desuniões, tanto mais todos nós estaremos unidos, ao redor da mesma mesa. E felizes.

E descobriremos, com o coração leve, que nunca deixamos, e nunca deixaremos, de ser uma só família.


(1)    Em que pesem considerações sobre a interpretação do Vaticano II na reportagem do Estadão, a respeito da relação de Bento XVI com o movimento ecumênico, temos:
(3)    Sobre a compreensão Ortodoxa a respeito da data da Páscoa
(4)    O site é de qualidade ruim, provavelmente por conta dos poucos recursos e falta de conhecimento sobre internet por parte de Myrna, peço que se dediquem a ler apenas seu conteúdo:
(5)    Jo 17,21
(6)    Bento XVI apenas anunciou sua abdicação, é improvável que não o faça, mas cabe aqui uma ressalva para a eventualidade de mudar sua posição.
(8) http://www.patheos.com/blogs/deaconsbench/2010/12/lutheran-leader-hopes-for-eucharistic-hospitality-with-catholics/

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CASAMENTO 2



Uma outra história que vale a pena ser contada

Durante seus estudos de medicina em Nagasaki, Takashi Nagai ficou hospedado na casa da família Moriyama. Esta família cultivava a fé desde o século XVII, no tempo dos mártires de Nagasaki. O testemunho silencioso da família Moriyama veio ao encontro das buscas interiores de Takashi que começava a descobrir o cristianismo depois de ler Pascal na universidade, quando já estava imerso no ateísmo. A convite da família ele participou de sua primeira Missa na Véspera do Natal de 1932.

Naquela noite, Midori, a filha única do casal Moriyama estava em casa e começou a sentir fortes dores. Takashi diagnosticou uma apendicite aguda e a levou em seus braços em meio a uma tempestade de neve até o hospital para ser operada às pressas. E esta foi a primeira de muitas vezes em que a vida de um esteve nas mãos do outro.

Desde que conheceu Takashi, Midori rezava por sua conversão. Em 1933, Takashi serviu o exército japonês como médico na guerra com a China e Midori lhe enviou um pacote que continha entre diversos itens de primeira necessidade alguns livros sobre a doutrina católica. Takashi voltou em junho de 1934 totalmente convertido à fé católica e quis fazer-se batizar, apesar da oposição de seu pai.

Tão terno vínculo de alma entre Takashi e Midori logo elevou-se a um laço de amor ainda mais íntimo e conforme a tradição japonesa de então o padre que batizou Takashi convidou seu padrinho para cumprir a função de nakodo, e organizar o casamento de ambos. Mas ainda havia um ponto que causava profunda preocupação em Takashi.

Takashi era médico radiologista e adotara a profissão por ideal. Naquela época, a operação de máquinas de raio X era extremamente arriscada e era comum que os profissionais da área morressem em poucos anos por conta da exposição aos raios gama. Para ele seu trabalho contribuía para o avanço da ciência e para que muitas vidas fossem salvas. Ainda que isto custasse sua própria vida. Mas ele precisava saber se Midori aceitaria.

Por meio do intermediário, Midori respondeu:

Será meu privilégio compartilhar do teu itinerário aonde quer que vá e aceitar qualquer coisa que passe em teu caminho.

Casados, Takashi e Midori tiveram situações difíceis. Os anos que se seguiram foram de crise econômica e o salário do médico não era suficiente para cobrir os gastos da família, a quem se juntara a viúva Moriyama e os dois filhos que vieram. Midori começou a costurar, plantar hortaliças e dar aulas de artes tradicionais japonesas, como arranjos florais, para ajudar na casa e garantir que seu marido se dedicasse inteiramente à pesquisa científica. Ela lia com entusiasmo todos os artigos que o marido publicava, mesmo quando não entendia bem alguns pontos.

Certo dia, depois de socorrer um paciente asmático, Takashi teve ele mesmo um ataque de asma e ficou caído na neve. Midori o acabou encontrando e ela mesma lhe aplicou uma injeção e o carregou para casa. E ela agora lhe devolvia o favor que lhe havia feito antes de se casarem.

Em junho de 1945, enquanto os EUA preparavam sua ofensiva final contra o Japão, Takashi recebeu a terrível e esperada notícia. Havia contraído leucemia e imaginava ter mais dois ou três anos de vida. Recebeu a notícia com serenidade, mas quando ficou a sós sua fé se abalou:

Senhor, tu sabes como sou fraco, não sei se poderei aguentar. Por que tão cedo Senhor? O que será de minha esposa e meus filhos? E o trabalho que deixarei sem terminar...(1)

Olhando para a máquina de raio X e vendo-a desgastada pelos anos de uso, esta mesma máquina que lhe ajudou a obter o doutorado, a salvar tantas vidas...sentiu paz. Ele também, como aquela velha máquina, havia se desgastado a serviço do próximo.

Mas como contar para Midori?

Chegando em casa, contou-lhe o ocorrido. Midori se levantou sem palavra, e ajoelhou-se aos pés do crucifixo que a sua família possuía há 250 anos. Takashi ajoelhou-se ao seu lado e notou que em silêncio ela se afogava em lágrimas. Depois, em paz, ela lhe disse:

Nós dissemos antes de nos casarmos e antes que você fosse pela segunda vez à guerra na China que se nossas vidas se gastam a serviço da glória de Deus, então a vida e a morte são belas. Você deu tudo que tinha para este trabalho e isto era muito importante. Foi para a glória dEle.

Takashi segurava suas lágrimas. Não por pena de si mesmo. Nem por compaixão por sua esposa e filhos. Mas lágrimas de gratidão. Gratidão por Midori. Naquele momento, narra ele em um dos seus livros, ele se sentiu diante do que é a santidade.

Quando ele retornou para o trabalho, se sentia como um homem novo, sem o menor receio ou culpa. Experimentava, diz ele, a liberdade que se sente quando se está fazendo a vontade de Deus. Ele tinha consciência de que sua morte provavelmente seria lenta e dolorosa, mas a certeza de que Midori estaria com ele, lhe cerraria os olhos e rezaria com ele em seus instantes finais lhe confortava.

Mas em agosto de 1945 o exército americano lançou panfletos sobre Nagasaki avisando sobre o ataque que se aproximava. Em 6 de agosto chegaram as notícias sobre Hiroshima. Takashi e Midori resolveram então enviar seus filhos para a casa em que a avó agora vivia, atrás das montanhas. No dia 8 de agosto, com os filhos em segurança, Takashi e Midori caminhavam juntos para o abrigo anti-aéreo. Ele se apoiava nela, já que a leucemia avançava. Conversavam sobre o que fariam para a Festa da Assunção de Maria que se aproximava e comentavam, rindo, de que como seria difícil para a avó cuidar dos netos sozinha...parece que enquanto estavam juntos é como se não houvesse guerra e nem dor.

Depois Takashi deixou Midori em casa e voltou para o hospital universitário em que trabalhava. Ele se recusou a ser dispensado de ficar de plantão para as emergências. No meio do caminho, lembrou -se de que havia esquecido algo. Ao chegar em casa surpreendeu Midori chorando descontroladamente, de joelhos. Ele nunca soube se ali a sós ela vivia sua própria fragilidade ou se antecipava de certa maneira o evento do dia seguinte.

No dia 9 de agosto por volta das 11h ocorreu o ataque nuclear a Nagasaki. Takashi estava em seu escritório e foi arremessado para debaixo de um monte de escombros. Depois de alguns minutos conseguiu locomover-se e, no meio da escuridão causada em pleno dia pela bomba atômica, tentava reagrupar os médicos para prestarem socorro às vítimas. Pouco podia ser feito, não sobrara praticamente nada do hospital e os feridos foram das dezenas às centenas em alguns minutos. Ele sabia que por ser conhecido por sua coragem e paciência era necessário permanecer ali para que os demais não se desesperassem e ao menos os pacientes pudessem morrer com alguma dignidade.

Somente 5h depois pôde se dirigir ao encontro de Midori. O bairro todo destruído. A catedral católica em cinzas. Midori havia morrido, certamente havia morrido... Por conta de uma hemorragia no peito, devido a um ferimento que sofreu na hora da explosão, Takashi desmaiou. Foi levado a um hospital e somente dois dias depois, quando o exército japonês já havia chegado e tomado conta da situação, pôde voltar até sua casa.

Chegando, encontrou um pequeno objeto negro, eram restos carbonizados, em que pouco se podia divisar: um crânio, a coluna vertebral e a pélvis. Midori. Era agora necessário dar-lhe um enterro digno.

Enquanto chorando recolhia os restos da esposa, pode notar, entre os restos carbonizados de sua mão direita, ainda que numa confusa massa fundida, o crucifixo e as contas do Rosário com que tantas vezes a tinha visto rezar. Midori morreu em oração.

Querido Deus, obrigado por ter-lhe permitido morrer rezando. Mãe das Dores, obrigado por ter estado com Midori na hora de sua morte. Ó bondoso Jesus, Nosso Salvador, Vós suastes sangue e carregaste vossa pesada cruz até o lugar de vossa crucifixão, e agora derramastes uma luz aprazível sobre o mistério do sofrimento e da morte: a de Midori e a minha também.

Depois de enterrar os restos de Midori, voltou para o lugar do que antes fora sua casa. Esgotado pela leucemia e pela hemorragia, desmaiou novamente. Acordou de madrugada e logo viu Vênus, a “estrela da manhã”, título que os cristãos dão à Virgem Maria por anteceder o verdadeiro sol, que é Jesus, e impelido interiormente, se pôs de joelhos e rezou o terço. Levantou-se fortalecido interiormente e pronto para fazer o que Deus quisesse antes que fosse a hora de cruzar a morte e reencontrar Midori.

Mas apenas um mês depois Takashi caiu doente por conta da radiação. A ferida no peito começou a apodrecer e a sangrar novamente, febres constantes de 40º C, inchaços por todo o corpo, palpitações e ele conhecia bem os sintomas que tratava todos os dias em seus pacientes. Entrava e saia do coma. Em um dos comas ouviu uma voz, que nenhum dos que o acompanhavam ouviu, que lhe dizia: “pede ao Padre Maximiliano Kolbe que ore por ti”. 

Takashi conheceu o Padre Kolbe durante a sua estadia no Japão. Àquela altura o Padre Kolbe já havia sido martirizado em um campo de concentração (2) mas Takashi não tinha como saber disso. Depois deste episódio a ferida no peito se fechou e ele recuperou a saúde até perdê-la novamente no ano seguinte, quando passou a ter que ficar acamado. Takashi Nagai viveu ainda 6 anos em que escreveu cerca de 12 livros sobre suas experiências, a guerra e a doença nuclear. Morreu jovem, aos 42 anos.
No epitáfio de Midori lê-se “eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra” e no dele “somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer”.

Takashi Nagai está em processo de beatificação, tendo sido declarado servo de Deus pela Igreja Católica.

(1) Segundo a autobiografia de Takashi Nagai  - Horobinu Mono Wo
      (2) Pode-se ler sobre o Padre Kolbe neste post:

O texto é baseado no trabalho de um padre das equipes de Nossa Senhora que atuou no Peru e nos EUA chamado "Matrimonios Santos: los santos casados como modelos de espiritualidad conyugal", com alguns exemplos de santos casados. O material chegou para mim sem a assinatura do padre, portanto não tenho o nome, mas posso enviar por email a quem desejar.


CONVITE:





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