A maioridade Penal

Eu começaria a discussão acerca da maioridade penal pelas escolas. Não com aquele vago determinismo de que a criminalidade é apenas resultado das condições materiais em que as pessoas cresceram. Isto é como eu respondia às questões das provas de estudos sociais muitos anos atrás, antes de saber que isso é simplesmente determinismo. 

Basta observar países asiáticos com taxas de pobreza maiores do que a nossa e criminalidade bem menores para notar que o problema é mais complexo. 

Penso na escola como um local, ou uma comunidade, de justiça.

Se os alunos fraudam as provas, se nos corredores quem tem poder é o mais forte, se a atenção do Estado é maior no sentido de evitar punição ao aluno em conflito com a instituição escolar do que oferecer ao bom aluno um ambiente propício ao estudo, qual é o sinal que o sistema educacional envia a esses alunos?

O sinal de que é necessário estar entre os mais fortes e aprender a fraudar o sistema, do contrário, você será simplesmente ignorado. E os alunos estão perfeitamente corretos quando leem isto nas entrelinhas, pois é exatamente isso que acontece.

Assim, ao invés de tentar implementar a justiça por meio de um aumento no rigor na lei, cujos efeitos serão provavelmente muito pequenos, haja visto que nosso sistema penitenciário para adultos já não funciona, acredito ser mais interessante restabelecer a justiça nas escolas, cultivando e cercando de mais atenção e recursos essa sociedade embrionária.

É verdade que escolas saudáveis passam por salários mais dignos para os professores, estrutura física adequada e tantos outros aspectos materiais. Mas o princípio de toda e qualquer sociedade, seja com o Leviatã hobbesiano, seja com Locke, passa por cessar minimamente a violência injusta. 

O primeiro passo passa por tornar a escola segura para os bons alunos.

E não há como falar disso sem remeter à autoridade dos professores e aos recursos de que dispõe para punir alunos em conflito com a instituição escolar. Afinal, o que vamos fazer com os alunos em conflito com a escola?

Reinserir alunos em liberdade assistida em salas de aula, ou impedir, com transferências sem fim, a expulsão de alunos violentos, como tem sido feito, gera um ambiente insustentável para o estudo e a segurança da comunidade escolar. 

Isto também não significa que devemos deixar alunos nessa situação à própria sorte, também são parte da sociedade. Imagino que poderiam ser pensadas instituições paralelas, em parceria com organizações da sociedade civil para lidar com esses casos. E assim garantir que as escolas sejam comunidades em que prevalece a justiça.

Penso que este é o início de uma sociedade de paz. Uma sociedade que possa ter inclusive forças para incluir seus membros em maior dificuldade.

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Ainda sobre a Maioridade Penal

Uma das discussões de fundo nessa questão da maioridade penal é a real responsabilidade que os adolescentes têm por seus atos. E como os temos tratado de maneira infantilizada.

Lembro de um comercial do exército brasileiro que fazia uma associação entre a vida militar e um jogo de videogame. 

Quando a propaganda governamental assume que os adolescentes não pensam em outras coisas que não sejam sexo, festas e diversão, tentando tornar tudo o mais lúdico possível, não os está desprezando como pessoas? Será que são assim tão incapazes de coisas grandiosas, de gestos gratuitos e belos? 

E não estaria aí parte do tédio e da tristeza pelos quais passam muitos adolescentes, a ausência daquela saudável tensão entre o que somos e o que nos desafia, que nos mantém vivos?

Lembro de uma visita que fiz à Fundação Salvador Arena. Fique surpreso com o silêncio das salas de aula e mais ainda por encontrar um doutorando em física da USP sendo auxiliado por dois alunos do ensino médio devido aos conhecimentos destes de eletrônica. 

Lembro ainda de projetos da Junior Achievement em que adolescentes desenvolveram produtos bastantes interessantes e mesmo uma forma de evitar contaminação de lençóis freáticos. E lembro ainda da seriedade grave de profunda de jovens em projetos da Igreja Católica. 

Não desprezemos nossos adolescentes. Eles podem dar grande contribuição à sociedade na geração de bens e serviços e no desenvolvimento de novas tecnologias. Como diz a regra dos monges beneditinos: “É comum Deus se revelar aos mais jovens”. Então penso que devemos tratá-los com seriedade.

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A respeito da maioridade Penal

Há diversas questões entrelaçadas com a discussão que se tem feito sobre o tema. A primeira é uma questão de princípios, se adolescentes de 16 anos são suficientemente maduros para serem responsabilizados por seus atos. 

A resposta para esta primeira questão para mim é um simples sim. Aos 16 anos homens e mulheres podem votar, tem todas suas faculdades sexuais e raciocinam com clareza. Se a natureza e a sociedade política os trata como adultos, por que a lei não trataria?

A segunda questão que eu vejo é de ordem técnica: uma redução na maioridade pena reduziria a criminalidade? Bem, não encontrei estatísticas sobre o tema, assim posso apenas arriscar uma resposta. Diria que sim, mas muito pouco. O aumento do custo da criminalidade tende a tornar mais arriscado para os adolescentes e mais cara para os aliciadores, a prática do crime. Mas como boa parte dos crimes parece estar ligada ao tráfico de drogas, é difícil imaginar o impacto deste “aumento de custo”. 

E também não faz muito sentido inserir os adolescentes no sistema penitenciário dos adultos que está falido. Não seria mais simples melhorar os sistemas que já existem nesse sentido para adolescentes infratores? Ou melhorar o sistema penitenciário? Ou aumentar a efetividade da ação policial?

E ainda vejo uma terceira questão de ordem política: é este o momento para avançar nessa discussão da maioridade penal? Eu diria que não. 

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Por que eu creio

Em 1996, com 13 anos, participei de um retiro para adolescentes convidado por amigos. Eu estava interessado em uma menina que ia participar e em jogar futebol nos momentos de recreação, havia um campo muito bom naquele lugar. E em um dos momentosdesse retiro tive uma experiência religiosa que me marcou por toda a minha vida, e que marca minha conversão ao catolicismo.

Antes do primeiro momento do retiro, foi realizada a entrada de uma imagem de Nossa Senhora. Alguns adolescentes se emocionaram muito e aplaudiram. Eu fiquei desconfortável com aquilo, não aplaudi. E pensava comigo que estavam fazendo lavagem cerebral naqueles adolescentes. 

Em uma das noites do retiro, a segunda, pelo que me lembro, foi realizado um momento de adoração. A adoração consistia em cantos e leituras espontâneas de trechos bíblicos, conforme os adolescentes sentiam impulsionados a fazer. Isso diante da hóstia consagrada exposta, o Santíssimo Sacramento. 

A certa altura, o diácono que presidia o momento encontrou um crucifixo partido, se não me engano, sem os braços e as pernas. Perguntou se era de alguém, pediu que checassem seus terços para ver se alguém tinha perdido e não era ninguém. Ou ninguém deu falta dele. E a a partir desse crucifixo começou uma pregação com "Estamos mutilando o Corpo de Cristo..."

Nesse momento, eu me irritei, me senti acusado de algo e achei que o diácono exagerava e tentava me induzir a alguma coisa. Mas por este momento tive uma dúvida. E se fosse verdade? 

E nesse momento, olhei para a Hóstia Consagrada no meio do salão e disse interiormente:  “Senhor, se o Senhor é verdade, eu quero te conhecer”.

Não consigo descrever exatamente o que aconteceu. De repente, é como se eu me visse (mas não via, embora sentisse), diante de um homem, que eu sabia interiormente que era o Cristo. E diante dele, é como se eu visse toda a minha vida e me sentia profundamente pequeno, me vinha à mente a palavra mediocridade e via como minha vida havia sido medíocre até ali. E eu sentia uma dor enorme, profunda, por perceber que eu não tinha nada para entregar para Ele, via que até ali não havia feito nada de verdadeiramente bom na minha vida. 

Interiormente eu me arrependi, sem conseguir formular uma frase de arrependimento, e imediatamente me senti como que mergulhado em um fogo e me sentia amado, amado, amado como nunca havia sentido antes e como até hoje não consigo expressar. Imensamente amado, e eu sabia, de alguma forma, que diante de mim estava o Cristo, que havia morrido na cruz para me salvar e que Deus são três pessoas em um só Deus, e que Cristo falava comigo por meio do Espírito Santo.

Fora do salão caia uma chuva torrencial e lembro que este momento se encerrou juntamente com o fim da chuva. 

Eu olhei o relógio e vi que haviam se passado cerca de duas horas, mas eu sentia como se fossem quinze minutos. E eu me sentia leve, novo, Como nunca me havia sentido. No dia seguinte me chamou a atenção que até no futebol eu tinha mais agilidade e leveza. 

E eu olhava para as pessoas no salão, os outros adolescentes, e eu os amava, sabia que eram meus irmãos, eu os amava mais do que havia amado minha própria família até ali. E eu refletia pensando que aquele sentimento não era meu, afinal horas antes meus sentimentos eram totalmente diferentes e eu percebia que era algo que me havia sido dado, sem esforço. 

Mas, mesmo depois do fim da oração, eu ainda sentia a "presença" de Deus. Era como se o ar, que antes eu achava vazio agora estava preenchido, denso. E eu continuava a falar com Ele interiormente. No caminho entre o salão e o lugar que dormíamos eu ia falando interiormente: "Senhor, o que eu posso querer agora?", "Eu quero o Senhor". E refletia "eu encontrei a chave que abre a História". E ficava profundamente comovido, embora não derramasse lágrimas ou algo do gênero, mas sereno, em paz, com uma paz sólida, indestrutível. 

E para mim, a memória deste momento é o ato fundamental da minha fé. E que para mim parece que foi ontem, acredito que não passei um dia de minha vida desde então sem pensar no que se passou. 

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ENCONTROS CORAÇÃO NOVO PARA UM MUNDO NOVO

E o Brasil se tornou um país de manifestações. Somos todos contra a corrupção. Estamos diante de uma crise endêmica? O que devemos fazer? Como compreender de forma ponderada e assertiva o que acontece com a nossa sociedade?

Lembramos que o Grupo Coração Novo para um Mundo Novo é um grupo formado por participantes de movimentos e novas comunidades que tem por objetivo encontrar formas de contribuir efetivamente com a sociedade civil, nos tornando protagonistas do mundo novo que queremos, seja no trabalho, na cultura ou na participação nos debates políticos de nosso tempo. 

Nossos encontros são sempre às primeiras quintas, excepcionalmente este, que por conta da Semana Santa, será realizado no dia 9/4.

Segue o convite para nosso próximo encontro.


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Os casais com filhos são realmente mais felizes?

Comentários sobre a última reportagem da revista Época.
E voltamos a esse assunto de novo!



Novamente essa discussão sobre ter filhos ou não ter filhos (1).

Analisando esta tabela sobre atividades mais prazerosas que coloca “cuidar de crianças” depois de “socializar no trabalho”, “assistir televisão” e “cochilar”, eu poderia jurar que a pesquisa foi feita entre alunos do primeiro e do segundo ano de alguma faculdade.

E até não seria nada demais se a reportagem não citasse Kahneman, prêmio Nobel de economia em 2003 entre suas fontes. Bem, sabemos que os artigos científicos geralmente são bem menos emocionantes dos que as reportagens que se fazem deles, mas vamos supor que a reportagem tenha feito seu trabalho direito, o que geralmente é uma suposição bem forte.

Essa discussão está dentro de uma área de pesquisa, que tem tido cada vez mais atenção chamada economia da felicidade. Para quem quiser conhecer mais, recomendo o “Handbook on the Economics of Happiness”(2), que pode ser lido no Google Books, e a dissertação de mestrado de uma colega, no banco de teses da USP (3). 

Há pesquisas com resultados dos mais diversos: pessoas casadas são mais felizes, dinheiro não traz felicidade e ainda que as mulheres têm ficado mais infelizes nos últimos anos. Além, é claro, de pesquisadores que discordam dessas mesmas coisas.

Há discussões técnicas bem interessantes, mas penso que o que chama a atenção dessas pesquisas é o fato delas tocarem em coisas muito próximas, nosso desejo de felicidade e também os preconceitos de nossa época. 

Um olhar atento sobre boa parte das reportagens sobre o tema, nos levará a perceber que em grande medida a pergunta de fundo é verificar se comportamentos com profundas raízes religiosas, como a felicidade com o sacrifício pessoal no cuidado com os filhos, não são apenas auto ilusões. 

Ilusões, como aprendemos com os professores de cursinho, que nos teriam sido colocadas em algum lugar do passado para garantir a coesão social ou servir à classe dominante da vez.

Entretanto, geralmente as pesquisas se baseiam em grupos muito limitados e desconsideram, em parte por conta do método, outros momentos da história da humanidade. E assumem que somente o modelo de sociedade secularizada europeu e norte americano é válido do ponto de vista de análise científica, pois somente estas seriam sociedade livres.

Bem, esse tipo de análise é um imenso preconceito iluminista, como se somente sociedades emancipadas da religião e dos valores tradicionais pudessem ser livres. E como se a Europa Ocidental e os EUA fossem verdadeiramente livres.

Esses estudos concluem apenas que esta limitada sociedade que analisam está mais infeliz do que parece. Mas isto diz muito pouco sobre o que o homem é. E menos ainda sobre o que pode vir a ser.

E esta forma de pensar ainda nos leva a incorrer em um erro de método. Ao buscar entender o mundo somente por médias, tomando como realidade objetiva somente o que ocorre com um número significativo de pessoas, erramos. Além de ser desumano pensar que se uma forma de viver é compartilhada por apenas poucas pessoas, logo ela é insignificante para explicar o comportamento humano.

Ainda mais quando a média é profundamente infeliz.

Entendo que cada pessoa, por ser única e irrepetível, possui um caminho particular para a felicidade. É uma descoberta, e ao mesmo tempo uma decisão, totalmente pessoal, que embora auxiliados por outras pessoas, é algo que se passa entre cada um e o próprio Deus. 

Não se trata somente de ter ou não ter filhos, fazer ou não fazer aquilo, mas de encontrar o seu caminho e o seu lugar.

Embora uma sociedade materialista e consumista talvez ache que os últimos parágrafos se pareçam com um dos castelos nas nuvens do Dawkins ou com um conto de fadas com enredo mais elaborado, entendo que o caminho para felicidade se encontra não em ter ou não ter filhos, consumir ou não consumir, fazer ou não fazer. Mas em encontrar esse caminho, inscrito em nossos corações, que nos leva à felicidade. 

Talvez devêssemos pensar assim. E abrir com uma foice o caminho fechado para a felicidade. 

Para ser feliz é preciso fazer força.



(1) http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/ter-filhos-traz-mesmo-felicidade.html . A imagem é da mesma fonte.

(2)http://books.google.com.br/books?id=zCPzDfUlNpwC&printsec=frontcover&dq=luigino+bruni+handbook+economics+happiness&ei=W38dS_ilKIq6yQTLg5HQAg#v=onepage&q&f=true

(3) Luigino Bruni é Ph.D em economia, economista das universidasdes Bocconi e East Anglia, parecerista de uma importante revista internacional, pesquisa sobre os temas economia civil e economia das felicidade, sendo um dos principais expoentes do mundo nessas áreas. É ainda um importante pensador católico contemporâneo, membro do movimento dos Focolares.

(4) http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/96/96131/tde-15052007-142028/pt-br.php




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