Carta Capital e Arautos

Mais uma calúnia deles, mais uma espadada nossa





Sempre achei muito interessantes os textos da Carta Capital. Não se pode dizer que sejam mal escritos (ou não eram pelo menos, mas do jeito como anda o mundo, já não se fazem militantes de esquerda como antigamente...). Li a revista muitas vezes, como uma especialista em meia-verdade, mas a parte da meia-verdade deles (que é mentira) não deixava de ser interessante. 

Essa última reportagem não deixa de ser curiosa. Acusam os Arautos de finalmente assumirem seu apoio ao Bolsonaro como uma estratégia de se defender dos grandes grupos de mídia que se alinham à esquerda, tentando um futuro governo como estratégia desesperada de obter recursos por meio de propaganda de estatais e que por isso atacam os grupos conservadores, seus potenciais rivais...A revista dá a entender que esta é uma narrativa criada pelos Arautos. 

Bem, mas quando a Carta Capital afirma que os Arautos é aliada do Bolsonaro e é um grupo conservador que deve ser atacado...ela não faz exatamente isso? 

E...Carta Capital fazendo eco à reportagem da Globo? A TV da ditadura e etc...já não se fazem militantes de esquerda como antigamente...

Parece que a equipe de reportagem da TV Arautos é melhor que a da Carta Capital.

Entretanto, o ataque não é aí. O ataque está na foto das "relíquias" de Mons. João, deixada despreocupadamente no começo da reportagem (e aliás não tem nada a ver com a reportagem, o que deixa claro ter sido colocada de forma ofensiva) como tentativa de reforçar a narrativa difamatória, caluniosa e de baixa qualidade intelectual de que somos um grupo fanático, radical, inimigo do bom senso e etc...

Pois então, mostremos o bom senso da prática. São Bernardo de Claraval deixava que sua túnica fosse cortada, em vida, e levada pelos fieis. Uma certa santa bebia a água em que as freiras do convento lavavam seus pés em sinal de veneração às religiosas e Santa Teresinha sugeria que guardassem as unhas que cortava, porque um dia as pessoas as considerariam importantes. 

E o São Pe Pio, sempre bem humorado, dizia que se sentia muito protegido, porque tinha uma foto do Padre Pio sempre com ele. rs.

São João Bosco, os doentes deixados para que a sombra de São Pedro os tocasse como narra os Atos dos Apóstolos...e poderíamos buscar ainda muitos outros exemplos. 

Mas um ateu poderia argumentar que ao invés de ajudar os Arautos, esses argumentos apenas demonstrariam a irrazoabilidade de toda a Igreja Católica. A isso poderíamos responder que ele (ou ela, para não deixarmos de ser inclusivos) não entendeu duas ideias centrais para a fé cristã: a humildade e a dignidade do corpo humano. 

A humildade é a verdade, diz Santa Teresa. O humilde não se faz inferior ao que realmente é, mas apenas reconhece o que lhe é superior. Ele não se faz menor, ele admira o que é maior. E se alguém nos ensinou algo fundamental para nossa vida, se recebemos por meio de alguém tantas coisas que jamais receberíamos de outro modo, este alguém é digno de honra e homenagem. 

Já o orgulhoso não reconhece o fato mais essencial de que não consegue fazer nada sozinho, fica a vida inteira imaginando pontos em que supostamente é melhor que os demais, provas da sua autossuficiência e histórias alternativas (narrativas criadas para si mesmo) que mostram como poderia ter feito tudo sozinho. E não sabe sequer plantar um pé de alface.

Somos templos do Espírito Santo, diz  São Paulo. E se pelo nosso corpo exercemos o bem, se por ele passou a ação de Deus, se torna além de templo, um templo purificado. E digno de honra e homenagem. E se tocou, por assim dizer, o Divino, se torna divinizado, como um tecido em que caíram algumas gotas de ouro, que não vale por si, mas pelas gotas que o tocaram. 

Diz o Evangelho que até os cabelos de nossa cabeça estão contados, isto não é apenas uma força de expressão. Se vivermos como devemos viver, não serão apenas as relíquias de alguns homens e mulheres santos que teremos, mas de uma multidão de cristãos. 

Cada um na sua ordem. E com a sua devida homenagem. 






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ARAUTOS, FANTÁSTICO, ABUSO E HUMILHAÇÕES

Mais do mesmo na Igreja? Mas qual dos mesmos? 




A reportagem do Fantástico sobre os Arautos me fez lembrar uma notícia que li há algum tempo sobre um grupo fundamentalista hindu que tinha atacado um mosteiro feminino porque eles foram ensinados que as religiosas eram escravas dos padres (1). Bem, mas isso, de acreditar nessas coisas, só acontece em países pobres (como se o Brasil fosse muito rico) e muito atrasados, certo? Bem, não é bem assim...

Na verdade, a Igreja Católica hoje é uma grande desconhecida no país em que o primeiro ato público da sua história foi uma Missa, desconhecida até mesmo para os próprios católicos. Tanto é verdade que o fato do superior geral da maior ordem religiosa masculina do mundo dizer que o demônio não existe ou que muito provavelmente foi feita uma cerimônia com um ídolo pagão nos jardins do Vaticano não assusta ninguém...mas um exorcismo... 

Mas alguém poderia perguntar: já não vimos esse filme antes? Um grupo conservador, com aspectos militares e que depois...revela uma série de problemas morais. E muitas pessoas, muito boas, sofrem até hoje as consequências dessas tragédias. Infelizmente a quantidade de escândalos que temos na Igreja nos permite fazer essa pergunta.

Mas o demônio está nos detalhes.... 

Além do caso dos Arautos, e dos casos acima, já vimos também "outros casos antes". Chamaram a atenção no mundo católico recentemente o caso do fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe Stefano Maria Manelli e do Cardeal Pell. No primeiro caso o padre foi acusado de abuso por uma ex-religiosa do instituto, foi julgado e depois inocentado, mas sua ordem sofre ainda uma forte intervenção. Já no caso do Cardeal Pell, ele foi acusado por dois ex-coroinhas de abuso. No caso do Cardeal, que agora está preso, para que o crime pudesse acontecer, ele teria que deixar a procissão final, como bispo, ir à sacristia, encontrar dois coroinhas tomando vinho canônico e atacá-los ainda paramentado. Qualquer católico sabe que isso é simplesmente impossível. Mas o Cardeal foi levado a júri popular e condenado. 

O que esses casos tem em comum? O fato de não terem testemunhas além das acusadoras que, no caso dos Arautos e dos Franciscanos afirmam que o superior agiu em acordo com a sua superiora imediata. E no caso dos Arautos, são estrangeiras, o que torna mais difícil serem punidas pela justiça brasileira...além de que os supostos crimes praticados são, no mínimo, improváveis... 

Os Franciscanos também eram conservadores e estavam em franca expansão. Cardeal Pell fez uma forte campanha contra o lobby gay na Austrália na votação que o país teve sobre as uniões civis e era o responsável pela reforma financeira do Vaticano...no caso dele, um dos acusadores disse à mãe no leito de morte que era mentira e ainda assim, levado a júri popular, o cardeal foi condenado. Bem, eu o considero inocente. 

Voltando ao caso dos Arautos, o timing, das ações também é bastante interessante. Segundo a Veja, ela possui o depoimento de um ex-Arauto que teria dado origem à visita canônica de 2017. Quando os Arautos perguntaram a que se devia a visita, não foram informados que havia uma denúncia. E nem souberam depois. Terminada a visita, com milhares de Arautos entrevistados, eu inclusive, não se encontrou nada. 

Mas um pouco depois dos incêndios na Amazônia e um pouco antes do Sínodo, um grupo de acusadores reabre um processo fechado contra um dos colégios dos Arautos e faz boletins de ocorrência (não há processo ainda) quase ao mesmo tempo em que vão à imprensa...começando por um site de propriedade de Luiz Estevão, ex-político e atual presidiário. 

Uma pergunta interessante a se fazer é, se há um suposto crime (que é calúnia, mas isso é outra história), o colégio não deveria ser protegido? Por que fechar o colégio? O que isso tem a ver com as acusações? 

Ocorre que o colégio encaixa em uma narrativa... 

Chesterton, católico inglês, do final do século XIX e começo do XX, comenta em "Ortodoxia" que um dos mitos do pensamento contemporâneo é que os homens viviam em um passado pré-histórico de forma mais ou menos livre, satisfazendo seus instintos e que, em algum momento, um grupo passou a dominar os demais impondo o terror e o medo, utilizando a ideia de uma vida e castigos pós-morte. E que assim teriam surgido os primeiros sacerdotes. 

A este mito hoje se soma outro, a ideia de que a relação entre sacerdotes e leigos seria uma relação de poder (clericalismo) e que abusos aconteceriam não por falta de virtude, mas por uma relação de dominação. Uma vez que todos carregaríamos os mesmos incontroláveis instintos primitivos, a forma de tornar a vida mais civilizada e evitar situações como essas não seria ensinar a virtude (e a rezar), mas dividir o poder. 

E jovens castos, puros e alegres não existem. Só podem ser assim robotizados, controlados e dominados, porque afinal de contas, ainda mais os jovens, tem instintos incontroláveis. 

Certo? 

Errado. 

Basta visitar um colégio dos Arautos. O choque com essa narrativa que nós de uma maneira ou outra compartilhamos, porque fomos criados nela, é tão grande que eu mesmo conheço não poucos casos de pessoas que quando descobriram que se pode viver uma vida pura, ficaram maravilhadas (1). 

E a quem interessa atacar os Arautos...? 

Aqueles que atacam os Arautos, não me refiro às acusadoras, mas aqueles que estão por trás disso tudo se beneficiando de um grupo pequeno de desafetos, não se importam com religião. Esses só se importam com dinheiro e poder. E por alguma razão eles acreditam que os Arautos podem atrapalhar isso. 

Se eles pensam isso dos Arautos, os religiosos, estão enganados. Sua missão é totalmente religiosa. 

Agora, se eles pensam que os leigos que participam do movimento e os amigos dos Arautos, que são algumas milhares de pessoas somente no Brasil, vão querer se tornar uma força político-social para não deixar que o país caia nas mãos dessa quadrilha imunda, pensaram bem. 

Pois é exatamente isso que vamos fazer.




(1) Link a publicar 
(2) Além de que para mostrar que essa narrativa apresentada por Chesterton é absurda, basta verificar que se na história cristã houve sangue, antes dela, era só sangue. E que quanto mais os arqueólogos cavam, mais cemitérios e rituais encontram. No final das contas parece que o homem sempre foi religioso. 

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A BELEZA DA AMIZADE

São Stanislau Kotska nasceu na Polônia, por volta de 1550, filho de família nobre. Desde pequeno se destacou por se interessar pelas coisas santas e pela vida inocente. Conta-se que certa vez, quando criança, ao ouvir um homem falar mal da Igreja e de Deus sofreu um desmaio, tamanho o mal-estar que esse assunto lhe causava. Hoje já iriam dizer que ele era um desequilibrado emocional, que temos que saber conviver com opiniões diferentes, não importando se na verdade não são opiniões, mas ofensas, e iriam até esquecer que estamos falando de uma criança...porque, infelizmente, nos dias de hoje, quando falamos de tudo que é puro e inocente, as pessoas tremem, se irritam e atacam. Mas muitas ainda se alegram.

Entre os fatos da vida dele, diz-se que certa vez, achando que ia morrer, pediu para receber um Padre e assim poder receber a Extrema Unção e o Viático. O dono da hospedaria, disse que se um padre pisasse ali, colocaria ele e o seu irmão na rua. São Stanislau rezou a Deus e vieram dois anjos e Santa Bárbara e lhe trouxeram eles mesmos a comunhão. Apareceu-lhe ainda a Virgem com o Menino-Deus no colo, que subiu nos seus braços e o afagou. E Nossa Senhora lhe pediu para entrar na Companhia de Jesus, os jesuítas.

Como o pai pensasse para ele um grande futuro político, era contra sua vocação religiosa. E como seu pai era importante, alguns religiosos temiam recebê-lo sem a sua autorização e criar um problema político, e por isso lhe fecharam as portas. Sem desanimar, Stanislau fugiu e foi de Viena à Alemanha a pé, onde foi recebido por São Pedro Canísio. Grande Santo que converteu várias cidades que haviam caído no protestantismo de volta ao catolicismo. E São Pedro Canísio, achando que a Alemanha ainda não era segura para ele, mandou-o para Roma, sob os cuidados de São Francisco Borja.

Fico imaginando quando o olhar de São Pedro Canísio pousou sobre São Stanislau. Deve tê-lo achado um jovem impressionante, com uma luz diferente e depois, ouvindo-o contar sua história, seu coração deve ter se aquecido de alegria e ele deve ter desejado fazer tudo o que estava a seu alcance para fazer este jovem ainda mais santo. Deve ter sido uma alegria imensa. Depois mandá-lo da Alemanha a Roma, atravessando a Europa naufragada em guerras depois da Revolução Protestante, deve ter lhe trazido à mente e ao coração um misto de coragem, bravura e também ternura por aquele mais jovem. Também admiração e alegria por ver assim um jovem filho da Igreja indo tão bem.


São Francisco Borja, depois de recebê-lo e lhe examinar bem, fitando-o e refletindo sobre o que via e sentia, deve também ter sentido uma grande alegria por ter tido a imensa graça de receber um jovem assim tão excelente na sua família religiosa. Imagino que não conversaram muito, mas o suficiente. Afinal, eram tempos de guerra. Por um lado, a Igreja parecia desmoronar por dentro, por outro a queriam derrubar por fora. Os cumprimentos devem ter ficado para o Céu. De onde ainda batalham ainda mais do que antes por nós. Mas quando na Glória receberem seus corpos ressurretos, eu penso que uma das primeiras coisas que farão será se abraçarem. E agradecerem um ao outro por terem se servido mutuamente de escada para a eternidade. E então poderão levar à plenitude a amizade que começaram. 

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O QUE GREGORIO DUVIVIER NÃO ENTENDEU SOBRE O NATAL


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Bem, na verdade ele não entendeu nada. Mas criou, de novo, uma boa polêmica, afinal todo Natal e Páscoa é isso agora. O que há de inteligente na polêmica é que ela se aproveita de uma ideia infelizmente bastante disseminada para fazer palanque desse novo velho progressismo que parece ter eleito “conservadores cristãos” como bodes expiatórios para todos os problemas que eles não sabem explicar.

Bem, Jesus andou com as prostitutas e os ladrões não condenando ninguém e foi um grande revolucionário, realizando inclusive o milagre da multiplicação dos pães, morto por um crime político, um autêntico líder de esquerda, certo? Errado.

É verdade que Jesus perdoou a prostituta, ou a mulher adúltera, que perdoou na cruz um bandido e que realizou o milagre da multiplicação dos pães. Mas havia muitas prostitutas em Israel, e apenas uma foi perdoada. Na cruz haviam dois bandidos, um deles blasfemava e o outro foi perdoado. Jesus multiplicou os pães, mas quando o quiseram fazer rei por conta disso, despediu a multidão e os acusou de interesseiros.

Assim, não se pode dizer que foram as prostitutas, os bandidos ou os pobres que Jesus acolheu, os outcasts. Mas sim, os penitentes.

Mas, penitentes, essa palavra quase desconhecida da nossa época...o que viriam a seesses penitentes?

O ladrão, a prostituta e tantos outros, reconheceram a existência de algo maior do que eles e a partir desse novo critério, perceberam que andavam mal. E a prostituta lavou os pés do seu mestre com as próprias lágrimas e o bandido, à beira da morte, soube levantar a sua voz para defender à sua honra e ainda fazer uma das mais belas profissões de fé da história...” Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”...

No fundo, somos como esses dois ladrões. E escolhemos a penitência ou a blasfêmia. A vida ou a morte. E mesmo que não tenhamos cometidos crimes graves, quando percebemos a presença de Deus e nos damos conta de todo o bem que poderíamos ter feito e não fizemos, nos reconhecemos não mais do que um ladrão. Um ladrão que recebeu o dom da vida para compartilhar com todos, mas que a guardou só para si.

E quanto mais nos aproximamos da luz, mais percebemos nossos defeitos, erros, vícios, imperfeições, mesmo que para os padrões desta época, que aliás são bem baixos, sejamos pessoas extraordinárias, grandes empreendedores, mães, pais, profissionais, etc...Santo Afonso de Ligório, o maior moralista da história da Igreja dizia que “quanto mais se varre, mais poeira se levanta” e ele, homem santo, soube ao fim da vida dizer: “que bom, não irei mais pecar”. Quanta arrogância, nós, “os certos”, acharmos que merecemos alguma coisa.

Mas quando fazemos penitência, batemos no peito e pedimos perdão, e olhando para cruz pedimos forças para sermos melhores, para sermos o que reconhecemos que não podemos ser sozinhos, oh glória! Oh alegria!

A Igreja soube elevar a adúltera penitente como a primeira entre as virgens. Na Ladainha de Todos os Santos, uma das ladainhas oficiais da Igreja, na parte das virgens, depois de Nossa Senhora temos Maria Madalena, a penitente. Esta mulher que o Evangelho diz que “muito amou e por isso muito foi perdoada".

Ao colocar a pecadora como a primeira no coro das virgens, a Igreja nos ensina que mais do que somente nos perdoar, Cristo deseja se dar inteiro a nós, todo o seu coração, toda a sua vida, não para que sejamos apenas perdoados, mas para atingirmos toda a plenitude de seu amor, como diz Santa Teresinha. E foi assim que a pecadora conseguiu ultrapassar muitos santos e atingir um dos lugares mais altos no céu, porque ela muito amou. Mas, poderíamos dizer, para muito amar, muito mais ela se deixou ser amada.

Na nossa época de vidas dilaceradas, é comum as pessoas desanimarem, desencantarem, viverem um plano B de si mesmas. Maria Madalena, a penitente, nos ensina que há um desígnio, um caminho, uma estrada superior que desconhecemos, um atalho secreto, que nos leva da morte à plenitude de nós mesmos. É preciso deixar-se amar.

E por fim, não poderia deixar de agradecer ao Duvivier, que achando que está chutando um cachorro morto, nos dá possibilidade de conseguir alguns leitores às custas dele. Afinal, como nossa popularidade não costuma ser muito alta, ele acaba aumentando o acesso a blogs e textos católicos com as suas polêmicas pelo menos no Natal e na Páscoa. A Igreja é uma bela jovem de 2000 anos, uma pessoa sensata vai pelo menos lhe pedir uma opinião.


Embora a Igreja não revide os ataques que recebe, como já se disse certa vez, é uma “bigorna que tem desgastado a muitos martelos”. E sobre essa história de onde está Deus, onde está a autoridade da Igreja, bem poderíamos responder: na sua consciência. Pois escrever sobre nós nas nossas festas, é uma coisa que até Freud explica.

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A CRISE SEPARATISTA NA CATALUNHA



A vitória parcial do movimento separatista na Catalunha que conquistou (somando-se todos os partidos pró-independência) 70 cadeiras e 48% dos votos contra 37 cadeiras do partido Ciudadanos, pró-Madrid, na última eleição parlamentar abriu uma nova temporada de tensão e angústia para o futuro da região e da Espanha. E embora este seja um problema eminentemente do povo catalão e espanhol, vale a pena um comentário nosso, brasileiros da periferia do Ocidente, por que afinal, o mundo e a humanidade são uma só.

O que chama a atenção nesse movimento, bem como a Liga Norte na Itália, de menor expressão, é seu caráter eminentemente econômico. Não estamos falando de raças, povos, línguas (talvez em menor grau) exploração e etc, mas de uma região rica que se ressente em enviar muitos recursos para as regiões mais pobres. Ainda que as regiões pobres da Espanha não sejam as nossas regiões pobres.
Não há dúvida de que seja justo questionar uma carga tributária excessiva e renegociar acordos e etc, mas ressentir-se de contribuir demais com o resto do país a ponto de buscar a independência...é este um argumento razoável no que conhecemos como mundo civilizado? Se a razão fosse história, uma necessidade de maior expressão cultural de um povo ou outra coisa do gênero, o debate me pareceria bem mais sensato e, como já disse, é algo estritamente relacionado às partes envolvidas. Mas o que eu queria debater aqui é a legitimação a nível global de argumentos pautados na ganância, no individualismo e no poder econômico. Seja nesses movimentos separatistas seja no nacionalismo econômico de Steve Banon que dá suporte à agenda de Trump. E já coloco aqui a ressalva que são coisas bem distintas, embora eu encontre este aspecto em comum.

Será que no final é isso que teremos? Os mais ricos se reúnem e se tornam “independentes” dos mais pobres?

Genovesi, pensador do humanismo civil italiano do século XVIII (se não me falha a memória com as datas), tomista e católico, ao colocar-se o problema da usura, ou da cobrança de juros sobre empréstimos aos pobres, diz o seguinte: “É justo cobrar juros do seu concidadão? Sim, desde que não seja um pobre. Pois o pobre tem o direito à ajuda dos seus concidadãos”. E, podemos concluir, a existência da cidade consiste justamente na solidariedade entre os seus concidadãos.

Ora, Aristóteles já dizia que somos animais sociais, que vivemos em cidades. Genovesi, mais além, vai dizer que homens só podem ser felizes em cidades. E Luigino Bruni, pensador católico contemporâneo dá ainda mais um passo ao afirmar que só podemos nos realizar plenamente por meio de relações gratuitas, como a amizade.

É ingenuidade pensar que seja outra coisa que move o mundo do que o autointeresse das pessoas. Mas para onde move esse mundo? Estamos mais felizes? Ou estamos transformando cada vez mais as cidades, e os países, em amontoados de pessoas, sem trocas simbólicas, sem fidelidade, sem história, sem felicidade? Se queremos movê-lo bem, não devemos voltar (embora nunca tenhamos tido uma era histórica perfeita) às coisas importantes, à solidariedade que cada pessoa deve ao seu vizinho, aos seus amigos?


Eu penso que comunidades independentes, autônomas, podem conviver harmonicamente umas com as outras, emergindo organicamente de acordo com as necessidades concretas de um e outro lugar. Mas quando o fundamento dessas comunidades é o próprio bolso, podemos encher os cofres, mas vamos terminar por esvaziar as cidades.

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PARÁFRASE DE SÃO MARTINHO DE DUMES (BRACARENSE)

Em tempos confusos, deve-se compreender as trevas a partir das coisas claras, parafraseando São Martinho Bracarense (O Tratado da Vida Honesta, Séc V).

Pois que a beleza da Igreja não cessa, não deixa jamais de ser adornada a Esposa de Cristo. E seus santos brilham tal como rubis, diamantes e jaspes e quais estrelas, mais refulgem quanto mais escura a noite.

O Esposo vem à noite, estejam as velas postas, o azeite preparado. Ele virá, já se ouve o rumor dos seus companheiros ao longe, Ele virá, e colocará sob seus pés tudo que não é belo, perfeito e puro.

Ele nos saudará com o ósculo da paz e seremos dEle e Ele será nosso.

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BREVE COMENTÁRIO A JUDITH BUTLER

Depois de escrever o post achei que não ficaram tão breves assim

A Folha de São Paulo publicou uma resposta de Judith Butler aos eventos do SESC Pompeia. Vale a pena ler a resposta antes destes comentários. E quero comentar por que acho este episódio de Culture Wars vale algumas palavras, além de Judith ter somado mais alguns pontos para o seu lado. É uma pensadora sagaz, de um movimento extremamente organizado e muitas pessoas entram nessas questões como completos amadores.

O evento não trazia no título as discussões sobre gênero da autora. Embora seja evidente que por ser uma autora renomada mundialmente por este assunto, esperava-se exatamente que ela abordasse o tema. Foi pensado ainda para este momento em que se começam a delinear os candidatos para 2018. Ora, uma oposição ao evento, "que sequer fala de gênero " (já que não está no título, não é?) só pode ser pura intolerância...como a que tem acontecido nos EUA, na Europa e todo ressurgimento de uma direita de discurso agressivo...pronto. Está feita mais uma campanha de graça para os ideais que defende e, pasmem, dos quais ela nem veio falar.  Um evento que poderia ser no máximo uma nota na Folha, se tornou uma manchete de repercussão global. 

A autora, que afirma NÃO ser uma estudiosa do cristianismo, fez uma série de afirmações sobre a Igreja Católica. Citou Bento XVI, a inquisição e escândalos internos. Imagino o que ela teria dito se fosse uma especialista. As imagens da reportagem, por sua vez, apontam uma série de atos grotescos e desrespeitosos, realmente infelizes em relação ao respeito que se deve à autora, concorde-se com ela ou não, e como a Igreja Católica é citada, deduz-se que são católicos. Mas não são. Caímos, mais uma vez, em um discurso pronto, como completos amadores.

Ao citar Bento XVI a autora insinuou que o uso do termo ideologia de gênero foi cunhado para desviar a atenção da sociedade dos escândalos da Igreja para outras questões sociais. Bem, quem tem o mínimo de conhecimento sobre as questões internas da Igreja sabe isso é um completo absurdo. Bento XVI foi justamente o papa que mais expôs a Igreja nesse sentido, o próprio Papa Francisco o disse esses dias, inclusive, foi ele quem condenou publicamente um importante personagem católico, quando o assunto já estava por vias de ser esquecido.

A Sra. Butler fez questão ainda de citar Salem (que foi um evento protestante) e, claro, a inquisição. Inquisição aliás que está morta há pelos menos 300 anos. Mas, como todos sabemos, segundo o mito, na verdade calúnia, que se propaga sobre a Igreja, até os dinossauros foram queimados na inquisição. E ninguém se refere a ela como o processo complexo, sem negar erros lamentáveis, que foi. Claro que ela ainda fez a gentileza, bem sagaz, de defender os que de dentro da Igreja sempre se opuseram a esses "erros", ou seja, os que concordam com ela. E tentou jogar assim nosso pobre Papa emérito para um corner ideológico. 

Fez menção ainda às bruxas, que no fundo seriam libertárias sexuais. E que foram mortas pela "Igreja repressora". E ela NÃO estuda o cristianismo. É bom lembrar. Ela faz ainda comentários teológicos dizendo que as bruxas não existem. Bem, eu discordo. Pode-se abusar da verdade usando o demônio como bode expiatório, é verdade, pero que hay, hay

A autora, contudo tem um ponto. Os erros dos católicos, de fato, minam sua autoridade moral. E não é de se estranhar que todas as mudanças em termos de políticas de família tenham se dado, juntamente, nesse período, que sob esses aspectos talvez seja um dos mais sombrios da história da Igreja.

Foi construída a narrativa de que a oposição às novas políticas sociais que têm surgido se fundamentam no medo irracional que temos da liberdade das pessoas e por uma obsessão a fazê-las viver vidas que não suportam. E a sociedade já comprou esta versão. 

E embora a autora tenha mencionado os casos, raríssimos aliás, de pessoas que sofrem por questões de identidade, todos nós sabemos do que se trata o assunto. É a respeito da liberdade sexual e da educação de crianças dentro dessa suposta liberdade que queremos debater. Com honestidade, em paz e com argumentos. 

Todos nós sabemos que há casos, raros, de pessoas que de fato sofrem, e sofrem muito, com questões relacionadas a esse tema. Todos nós concordamos que merecem ser acolhidos, que o tema merece ser estudado e que, podem sim, haver casos que parecem violar as regras que conhecemos da natureza. Ninguém discorda disso. Mas estes casos são usados como ponta de lança, para abrir caminho para outras coisas, a ideia de amor-livre, do começo do século XX, que foi se metamorfoseando para uma suposta defesa de liberdade.

Bem, mas qual é a maneira de entrarmos então neste debate? 

O ponto é que fazemos uma afirmação muito forte para a sociedade contemporânea. Eles simplesmente não conseguem ver o que dizemos. E soa como se fôssemos simplesmente contra algo que duas pessoas livremente escolheram fazer. O desafio deste ponto é que temos que provar que embora se possa sentir alguma satisfação e apesar não conseguirmos muitas vezes elaborar logicamente o que se passa, existem as virtudes da inocência e da pureza que levam o ser humano para outro nível de relação consigo mesmo, com os outros e com Deus. 

Mas como? Se mesmo Santo Agostinho, um dos maiores doutores da Igreja, afirmou que certas virtudes só se alcançam como um dom de Deus? Como explicar isso para aqueles que assumem que sequer Deus existe? 

É preciso mostrar, mostrar para essa geração inquieta e irritadiça, que São Tomás aliás previa como consequência natural dos erros que cometem, que existe paz. 

Será um argumento muito forte dizer que a consequência desse modo de viver é justamente a paz que não têm?  Não é isso que vemos em todas as manifestações e suas inúmeras profanações de Igrejas e símbolos católicos? Não me lembro de ter sido convidado ou de ter visto algum evento em que fomos chamados a apresentar nossa opinião e fomos ouvidos com serenidade e nos surpreendemos como quão bem fomos acolhidos... Talvez os 5 min de televisão ou a foto em uma entrevista enganem, mas qualquer pessoas que tenha convivido de perto com o tema sabe da inquietação que está dentro dessas pessoas.

Não pretendo aqui julgar. Ad intra nec Ecclesia (não me lembro da grafia correta), ou seja, o interior do coração dos homens nem a Igreja conhece. O próprio catecismo afirma que mesmo pecados gravíssimos podem ter atenuantes tão grandes que a culpa pode ser mínima. E há ainda um outro ditado que diz que "no inferno há muitas almas virgens, mas não há nenhuma que seja humilde". E muitos santos, como o próprio Santo Agostinho, tiveram uma vida bem complicada.

Mas isso não significa que não devamos tratar os temas com clareza, dando nomes aos bois, por amor à justiça e à verdade. 

E como mostrar? Infelizmente, mesmo entre nós, quantos abandonaram a pureza e a inocência? E caem por sua vez na mesma inquietação...só quem teve a incalculável graça de não ter caído nesses pontos ou a graça também enorme de ter lutado e ter vencido, sabe o que é esta paz.

Pois então aumentemos nossas próprias fileiras. Se formos o que devemos ser, e seremos, com a graça de Deus, olharão para nossa cidade como os animais que buscam a lua na escuridão. E poucas explicações serão necessárias. Não importa quantos pregos queiram colocar no caixão da Igreja, ela ressuscitou com seu Amado e está sempre viva, é imortal. Não é este o nosso problema. É justo, é lícito, defender-nos, com sabedoria. Mas o mais importante é sermos. Foi assim que muitos impérios se curvaram. Não será diferente agora.

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