Vida Pública
Bispos católicos do mundo inteiro
estiveram reunidos em outubro (1) do ano passado para discutir, rezar e
compreender como anunciar o Evangelho no mundo de hoje, principalmente em
países que tem uma longa história católica e que hoje se distanciam cada vez
mais da fé. Todos sabemos que há um grande desafio pela frente, e nossos bispos
não são indiferentes à questão. Há um
hiato tão grande entre o que a Igreja crê e o que a sociedade pensa que ela
crê, que basta perguntar a um jovem sobre o que é a Igreja Católica para se ter
uma ideia muito clara e adequada do que exatamente ela não é, rs.
Por outro lado, pode soar
estranho falar de uma Nova Evangelização, já que a Evangelização é sempre nova
e sempre presente, é o dia-a-dia da Igreja, tanto que o termo causou
estranhamento até entre alguns bispos, como pode se ver na indicação de leitura
abaixo de um padre que acompanhou o Sínodo para a Nova Evangelização in loco (2). A preocupação com uma Nova Evangelização,
acenada pela primeira vez por Papa João Paulo, é, de qualquer maneira e
sensação de que nos falta algo, mas afinal o que nos falta?
Quando falamos de Evangelização a
primeira coisa é termos clareza de que não estamos falando dos excessos que
muitas vezes nos vêm à mente por conta da história. A Evangelização não é
ostensiva. Não se impõe pela força e nem pela repressão. Ela é um testemunho de
amor, que ganha os corações e as ideias pacientemente.
É verdade que ao longo da
história muitos católicos utilizaram a Evangelização como desculpa para
defender seus próprios interesses, fossem eles terras, escravos ou ouro. E que
muitos mancharam a história da Igreja. Mas para cada conquistador espanhol ou
português que levantou uma espada em nome de Deus – ou pelo menos assim dizia,
pois levantava na verdade em nome de seu desejo de poder e riqueza – não faltou
um franciscano, um jesuíta ou um dominicano que denunciasse isto como sendo o
que verdadeiramente e simplesmente é: pecado.
São Bartolomeu de las Casas,
Beato Padre Anchieta, Padre Antônio Vieira e muito antes da colonização da
América, S. Tomás de Aquino, que já dizia textualmente o que era patrimônio
comum dos fieis: a fé pressupõe a liberdade. Assim, jamais se poderia impor
pela força.
Por mais erros que se tenha cometido
em nome da fé, Deus jamais abandonou a Igreja, como jamais nos abandona, e não
faltou um mosteiro, um santo ou homens e mulheres justos que apresentassem em
todos os tempos a fé clara, a fé de sempre da Igreja. Em alguns momentos talvez
estes se tenham reduzido a um pequeno mosteiro, outras vezes foram multidões de
fieis fervorosos a darem este testemunho. Mas o Espírito Santo sempre esteve
com a Igreja, e o número daqueles que correspondem ao Amor de Deus é resultado
da liberdade do coração de cada um, e mesmo que pouquíssimos correspondam, Deus
continua Deus e a Igreja continua Igreja.
Outro extremo seria uma
evangelização medrosa. Cristãos com medo de que de alguma maneira pudessem dominar
as outras pessoas. Não sei de onde vem essa preocupação, se mal conseguimos que
as pessoas que vão semanalmente às Missas sigam a moral católica, por que razão
conseguiríamos dominar ideologicamente quem quer que fosse, rs? Penso que só
Dan Brown, alguns grupos fundamentalistas e católicos com complexo de
inferioridade conseguem acreditar em uma coisa dessas,rs
Frei Raniero Cantalamessa resumiu
muito bem o dilema interno da Igreja nas suas pregações para o Natal do ano
passado: “uma Igreja melancólica e medrosa não estaria (...) à altura da sua
tarefa; não poderia responder às expectativas da humanidade, sobretudo dos
jovens” (3). Nossa pregação não deve ser ostensiva. Mas deve ser
confiante.
Mas por onde começar a Nova
Evangelização? Penso que um ponto importante seja a presença pública da Igreja
no debate político e cultural de nosso tempo. E que um ponto de partida interessante
pode ser alavancarmos uma ampla
plataforma pró-vida. A Igreja
tem se pronunciado de forma clara sobre o direito das famílias e dos que ainda
não nasceram. E em geral tem feito isso muito bem. Mas não podemos nos tornar
um núcleo de resistência, que tenta salvar cada vez menos coisas de uma
sociedade em declínio. Precisamos avançar. E podemos partir do que já está
sendo feito, indo em direção aos mais indefesos, realizando, como aponta a
Doutrina Social da Igreja, uma opção preferencial pelos pobres.
Em uma sociedade cada vez mais
individualista e com cada vez menos vínculos familiares, não me parece ser
necessário um grande exercício de imaginação para perceber que os novos pobres
serão em grande parte idosos abandonados. Abandonados materialmente, como já há
tantos, abandonados afetivamente e abandonados à eutanásia, que como já se
percebe em alguns casos na Europa, não necessariamente será voluntária. Abandonados
espiritualmente pelos homens à própria sorte.
Uma sociedade que não consegue
conviver com o sofrimento e que pensa em como morrer, mas não em como devemos
viver, já perdeu toda sua dignidade. Como bem disse Papa João Paulo, é uma
cultura de morte, devemos contrapô-la com uma cultura de vida.
Chegou-se ao absurdo de propor
abertamente o assassinato de recém-nascidos (4), em uma renomada revista de
ética médica como alternativa ao aborto (!) e recentemente um pesquisador
holandês defendeu a eutanásia infantil (5) (!).
Por outro lado, há grandes sinais
de esperança. A sociedade americana tem se levantado contra o aborto. Recentemente
o estado do Kansas foi o primeiro a aprovar leis que vão na direção de revogar
o direito ao aborto (6) e este ano tivemos a maior marcha pró-vida da história,
em que estiveram, sobretudo, jovens (7). E o mesmo tem acontecido, com
diferentes nuances em diversos países.
E podemos expandir esta
plataforma. Dos nascituros e recém-nascidos, por que não avançarmos a questão
com relação ao cuidado das crianças na primeira infância como tem feito tão bem
a Pastoral da Criança? Ou numa sociedade extremamente erotizada, por que ainda
não levantamos a bandeira contra prostituição infantil e o tráfico de crianças?
E aqui é importante lamentar profundamente
que atos de heroísmo como o de D. Azcona, bispo no Pará, tem sido tão pouco
divulgados. D. Azcona denunciou a participação de vereadores da cidade de Soure
em uma rede de exploração sexual e tráfico de crianças, razão pela qual está
ameaçado de morte. Não é constrangedor o
silêncio em nossas paróquias com relação a fatos como este?. Não seria o caso
de termos ao menos um pequeno espaço nas homilias de domingo para prestar
solidariedade e organizar o auxílio a D. Azcona?
Outro caso que merece nossa
atenção neste sentido é o assassinato de Ir Dorothy. Como ainda não iniciamos
um movimento pela justiça nos vastos territórios sem lei que ainda existem em
nosso país?
Penso que partindo dos mais
indefesos devemos progredir até abarcar todas as dores de nossa sociedade,
denunciando as contradições dessa cultura de morte, para anunciarmos, pelo
testemunho de vida, a cultura de vida que brota do Evangelho.
A Igreja, por amor do Senhor,
sempre esteve do lado dos mais pobres e indefesos. Talvez seja o tempo, sob o
governo amoroso e caloroso de Papa Francisco de retomarmos o vigor nessa
direção. Por amor ao Senhor. Anunciando um Evangelho inteiro, para o homem
todo. E da forma adequada para uma sociedade plural, democrática e livre da
qual fazemos parte.
(2) Por exemplo neste site: